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Celebridades - Parte 2
Por Douglas Donin — Terça, 2 de dezembro de 2003
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Bem vindos de volta, bravos leitores! Na nossa última coluna, delimitamos as características básicas do chamado “cinema-celebridade”, ou “filme-veículo”, e vimos um pouco da história do gênero no Brasil, onde o estilo possui uma enorme força. No entanto, enganam-se aqueles que acham que tal gênero é um privilégio tupiniquim, e engana-se mais ainda quem acredita que é um truque novo.
Fica difícil determinar com exatidão qual a primeira vez em que se arrumou um filme como mero veículo para lucrar um pouco mais em torno de uma figura conhecida: embora já existissem filmes com cantores famosos desde a década de 40, estes eram filmes musicais, que são um gênero específico e muito honrado. Foi apenas nos anos 60 que a indústria cinematográfica perdeu de vez a vergonha de produzir estes filmes-desculpa, e uma das primeiras celebridades a carregar filmes nas costas - com grande êxito - foi Elvis Presley, em seus mais de 30 filmes, e que incluem os populares O Bacana do Volante (Speedway, 1968) e Amor a Toda Velocidade (Viva Las Vegas, 1964). Os filmes do Rei do rock'n'roll inspiraram o nosso Rei dos Especiais-de-Fim-de-Ano, que abrasileirou a fórmula com os pioneiros Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) e Roberto Carlos a 300 km/h (1971), apenas substituindo as estradas de Las Vegas pelas estradas da igualmente glamourosa Santos.
Embora sejam filmes admirados por muitos, os filmes do Rei (não o Elvis, nem o Pelé) são verdadeiros tesouros trash. Poucas emoções são comparáveis a assistir Roberto Carlos, com quepe de capitão de navio e blazer bordado, esgrimindo habilmente com alguma mocinha ingênua diálogos do tipo:
“- Roberto Carlos, o que você acha do amor?”
“- Hehe... o amor... o amor é a maior brasa!”
Mas, Rei por Rei, abriu-se a porteira – lá e aqui. Uma vez descoberto o caminho, vários outros artistas começaram a invadir o cinema. A lista dos artistas que se utilizaram deste truque seria imensa, e inclui Beatles, Frank Sinatra, Michael Jackson, Tina Turner, Eminem, Ice Cube e Snoop Doggy Dog (e quase todo rapper americano).
Esse casamento permaneceu inalterado até o início dos anos 90, quando a situação ficou caótica. Na década que marcou a ascensão do voyeurismo na mídia, qualquer um – não só cantores – podia se expor ao público e ficar famoso da noite para o dia. Modelos, participantes de programas de televisão, esportistas, dançarinos, capas da Playboy, políticos, amantes de políticos, prostitutas que são presas no carro do Hugh Grant... ser celebridade deixou de exigir talento e passou a ser, principalmente, questão de quanta roupa você usa.
O resultado óbvio: começaram a pipocar nas telas os rostos mais improváveis. Antes privilégio dos músicos, os filmes-celebridade passaram a trazer todo e qualquer tipo de oportunista.
Agora, como entender isto? Por que uma pessoa que não possui o mínimo talento dramático acaba protagonizando um filme? E por que nem se dão ao trabalho de fazer um filme decente? Estariam atores de verdade cobrando muito caro? Como ela chega lá, mesmo sem talento?
Essa explicação já foi dada em 1947, pelos pensadores Max Horkheimer e Theodor Adorno, quando criaram o termo “indústria cultural”. Com essa expressão, os dois filósofos designaram o tipo de cultura predominante da nossa era: a que não nasce como manifestação artística, mas sim como produto; a cultura feita especialmente - e às vezes unicamente - para ser comercializada em larga escala. Assim, esta cultura está liberta, por sua natureza, de seguir regras técnicas ou artísticas, em vez disso, prende-se principalmente às regras de mercado.
Quase tudo o que vemos e ouvimos hoje é fabricado, inicialmente, por executivos e especialistas em marketing. Em um segundo estágio, com o produto praticamente pronto, algum diretor é contratado para materializar o filme, ou algum grupeco de meia-tigela é fabricado em laboratório para cantar as músicas. O que importa é que é tudo parte de um plano meticuloso (embora às vezes seja um plano imbecil), e que, quase sempre, não vai parar só naquela mídia. Tudo é parte de um grande estratagema: quem cria o “artista” já colocou o lançamento do filme na agenda mesmo antes de escolher um rosto.
Vou dar um exemplo: sentam-se alguns executivos ao redor de uma mesa escura, e concluem – após algumas apresentações em PowerPoint do Departamento de Marketing – que “após análises de mercado, percebeu-se uma demanda por um produto específico para as adolescentes do sexo feminino, com quem possam se identificar, e que, em cujos encartes de CD, apareça seminua, para que os adolescentes do sexo masculino possam consumir por outros motivos. Tal produto também atenderá a demanda de adultos com tendências pedófilas reprimidas”.
Reviram-se fitas antigas, arquivos da polícia, cadastros de ex-estagiárias e – pronto – a “cantora” com a idade, raça e medidas corporais certas aparece. O fato de não cantar nada, na era da informática, não importa! Da mesma forma, ser burra como uma porta é até uma característica desejada, uma vez que ela não vai compor nada, mesmo.
Espreme-se o sucesso até a última gota: fazem um ou dois filmes, videogames, uma grife de roupas, bonecas, brinquedos, lancheiras, álbum de figurinhas e toda sorte de parafernália com a cara da moça estampada. Reforçam a sensação de que temos que consumir aquela artista comprando quase todo espaço nas rádios, nos permitindo ter contato apenas com aquilo – até que ela seja inexoravelmente substituída por outra.
Este é o ciclo de vida de um astro pop. É a lei do oeste. E cada vez mais, o sucesso de uma celebridade é maior e mais abrangente, infestando mídias diferentes, como se a cultura – cinema, música, tudo - fosse uma coisa só. Afinal, se você aplica dinheiro em algo, deseja o máximo retorno.
Toda essa teoria explica o porquê de existirem filmes com a Britney Spears, Mariah Carey ou Sandy e Junior. Também explica o fato inverso, ou seja, porque atrizes, dançarinas e ex-namoradas de jogadores de futebol sem o menor talento vocal se lançam na carreira musical.
Esse efeito, em menor ou maior grau, nos trouxe inúmeros filmes verdadeiramente imperdoáveis. Para nomear apenas alguns:
- Filmes eróticos e da fase Quem é aquela garota? com a Madonna;
- Qualquer filme com o Shaquille O’Neal, especialmente O Homem de Aço (Steel, 1999), mal e porcamente baseado no herói da DC Comics;
- Filmes com rappers, exceção feita a 8 Mile, de 2003;
- Aquele filme onde nos tentaram enganar fazendo de conta que a Cindy Crawford é atriz, Atração Explosiva (Fair Game, 1995), no auge do sucesso da modelo (vale lembrar que a próxima modelo a atingir os cinemas é a prata-da-casa Gisele Bündchen);
- Amigas para Sempre (Crossroads, 2002) com a Britney Spears e sua calcinha, que não tem NADA a ver com o exemplo que eu usei acima;
- O horrendo Glitter, com Mariah Carey.
E no Brasil? Podemos nos orgulhar! Nossa produção de filmes-celebridade não fica muito atrás da dos gringos:
- Filmes da Xuxa, os maiores cabides de emprego para celebridades de que se tem notícia;
- Qualquer filme com o Gugu (que aparentemente tomou gosto pelo cinema e agora começou a produzir suas próprias obras de ficção);
- Uma Aventura do Zico, com... ah, vocês sabem;
- O Inspetor Faustão e o Mallandro, constrangedor;
- O inacreditável Cinderela Bahiana, de 1998, com Carla Perez (aguardem a análise dessa atrocidade, breve nesta mesma coluna).
Claro, para cada dez Glitter que são periodicamente arremessados contra a tela do cinema, existe um ou outro 8 Mile: filmes que, por mero acidente, são bons, que começaram como produto, mas que acabaram como arte. Ou você realmente acha que os executivos sabiam que o Eminem era um bom ator?
Na próxima coluna: "Baratas no Winamp - a Trilha Sonora do Trashmaníaco"!
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