Asterix contra os nipônicos

Por Rafael Lima — Quinta, 10 de novembro de 2005

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Poucas notícias são capazes de causar impacto em no mundo dos quadrinhos como um todo. Este ano foi agraciado com duas; a primeira sendo a nota de falecimento de Will Eisner; a segunda, o lançamento de um álbum novo do Asterix. Na França, onde histórias em quadrinhos são respeitadas como obras de arte, a publicação de álbuns de autores ou personagens famosos é notícia de telejornal – mas a edição de O Dia em que o Céu Caiu ultrapassa limites e merece destaque em qualquer noticiário. Porque não é toda hora que se tem a chance de ler uma história nova de um dos melhores personagens do mundo, desenhada pelo setuagenário autor. E com o sério risco de ser a última da série.



Muitos leitores fiéis se queixaram da queda de qualidade que os roteiros sofreram após a morte prematura de René Goscinny, um dos 3 melhores roteiristas para quadrinhos de todos os tempos. Uderzo deu seu jeito para segurar o pião, valendo-se de metáforas históricas (O Grande Fosso é o muro de Berlim), narrativas clássicas (As 1001 Noites, em As 1001 horas de Asterix) e até homenagens a ídolos pessoais (Kirk Douglas, em A Galera de Obelix). Deu seu toque pessoal, aumentando o espaço dos elementos de fantasia e quebrou tabus, mostrando o que aconteceria se Obelix bebesse a poção mágica – mais radical que isso, só se Asterix casasse. Em suma, deu tratos à bola para manter o interesse, na falta da sutileza humorística e da perfeição narrativa de Goscinny, que soube criar com a mesma qualidade brilhantes histórias de aventura (Uma Volta pela Gália, Asterix Legionário), intriga (O Adivinho, A Cizânia), humor (O Combate dos Chefes), além de excelentes sátiras aos processos eleitoral (O Presente de César) e econômico (Obelix & Cia) e a praticamente a todas as etnias da Europa Ocidental. Não era uma tarefa fácil; muita gente preferiria abandonar a criação.



Mas os sinais de cansaço eram evidentes: além de, nos últimos anos, utilizar as histórias mais para fazer homenagens ou ajustar contas pessoais, no último álbum Uderzo também terceirizara a arte, cuidando apenas do lápis (enquanto o nanquim e as cores ficaram para auxiliares). Seu último pico de criatividade tinha sido A Rosa e o Gládio, uma sátira ao feminismo com piadas à altura de Goscinny, e o traço havia escorregado temerariamente em As 1001 Horas de Asterix. A sinopse de O Dia em que o Céu Caiu dava conta da chegada de uma nave espacial na aldeia gaulesa: mais uma heresia para enfurecer os puristas. Alguma razão eles tinham.

Quando foi criado em 1959, Asterix era um símbolo de "resistência cultural" numa Europa em reconstrução às custas do Plano Marshall, senão invadida, ao menos ameaçada pelo american way of life. O império romano era um símbolo para o império americano, estendendo seus tentáculos mundo a fora. Os principais personagens pertenciam à história européia e raramente havia alguma menção aos EUA (uma, divertidíssima, estava no primeiro álbum, quando um centurião romano se sentindo o máximo após levantar uma pedrinha, diz: "Pronto! Sou o Super-Homem!"). Nem precisava; a confrontação era clara e franca. A rigor, os estadunidenses chegaram a ser enfocados diretamente no álbum A Grande Travessia, no qual Asterix e Obelix vão parar numa América do Norte pré-colombiana após um naufrágio. Isso explica o estranhamento dos fãs ao se depararem com uma crítica tão escancarada, com alienígenas "walneydistianos", protegidos por uma armada de Hubs (anagrama de Bush; robôs com a cara de Schwarznegger e uniforme do Super-Homem) contra os nagmas (anagrama de "mangás", as histórias em quadrinhos japonesas), os dois em busca da receita da poção mágica. Precisava ser tão óbvio? Teria sentido esse tipo de crítica no tal do mundo globalizado?



Não, e a maior prova é que rapidamente Asterix e o walneydistiano travam amizade e se unem contra os nagmas. Uma virada de roteiro sujeita à críticas e trovoadas: se a Europa acabou abraçando os produtos culturais dos EUA, as críticas de França e Alemanha à invasão do Iraque não denotam um alinhamento político tão azeitado assim. E a caracterização dos nagmas como caricaturas grotescas dos orientais traz de volta à tona a discussão sobre preconceitos raciais que parecia enterrada com os primeiros volumes do Tintin. Ler unicamente o subtexto político do Asterix, entretanto, é um erro; as críticas localizadas sempre foram um detalhe menor no universo criado por René Goscinny (depois de dezenas de páginas gozando os alemães, apenas no final de Asterix e os Godos Panoramix comenta, "e isso é para que os godos fiquem brigando entre si e nunca mais invadam um vizinho"). Do mesmo modo, dizer que não há um roteiro, apenas um amontoado de piadas costuradas em seqüência, não diminui o valor do álbum: o mesmo pode ser dito de Asterix e os Godos – e de alguns filmes dos irmãos Marx ou Charles Chaplin. O problema é que as piadas ou são velhas ou não são boas; há raros momentos de inspiração fora das tradicionais brigas entre Ordenalfabetix e Automatix, quando a impressão que se tem é que os personagens foram simplesmente deixados à vontade para improvisar, como antigos atores.

E há uma grande novidade: é o primeiro álbum em que Uderzo inova na diagramação, fugindo da rígida divisão em 2 colunas de 4 quadros para áreas em busca de áreas mais espaçosas, retalhando a página em tiras horizontais (como já tentara antes, em Asterix e La Traviata) e até ocupando uma página inteira com um quadro único, em raríssimo caso de splash-page: nem as panorâmicas de Roma em Os Louros de César ganharam tanto espaço! É notável que um artista veterano, jogando para empatar como Albert Uderzo, tenha se arriscado artisticamente assim.

Tudo somado, é um álbum fraco, mesmo que apenas em relação ao conjunto roteirizado por Uderzo; cumpre a função de manter a chama acesa, com os gauleses fazendo o que todos os fãs esperam. E como o Ota disse há alguns anos, meio Asterix é melhor do que nenhum.




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