Quando o fermento é pouco, o bolo não cresce

Já é de conhecimento geral que a indústria cinematográfica hollywoodiana passa por crise das mais sérias, ainda não muito bem delimitada em toda a sua extensão. O público espectador vem progressivamente diminuindo, ano após ano, bem como também tem diminuído – e bastante – a qualidade dos filmes produzidos. Mas nessa tecla este crítico está cansado de bater ao ter que analisar mais um filme com a chancela do
star-system americano.
Tampouco é segredo a história do herói mascarado Zorro. A origem do mito, no entanto, é que talvez seja de conhecimento restrito. O personagem surgiu na obra
A Maldição de Capistrano, escrita em 1919 pelo até então repórter policial Johnston McCulley, para uma publicação barata, dessas de
pulp fiction. Ambientada nos primeiros anos do século XIX,
A Maldição de Capistrano apresentava Zorro como o defensor do Pueblo de Los Angeles na incessante luta contra os seus mal-feitores. Don Diego de la Vega, o alter-ego do herói, descendia de uma próspera família de grandes proprietários de terras na então longínqua e selvagem Califórnia.
Os ardorosos fãs de Zorro defendem com unhas e dentes a versão segundo a qual o personagem teria sido a inspiração definitiva de Bob Cane para criar o seu não menos famoso herói, Batman. Faz um certo sentido, eu devo admitir: ambos são referências a animais com hábitos noturnos (raposa e morcego), escondem-se em grutas, vêm de famílias ricas e contam com seus auxiliares pessoais (Bernardo e Alfred), sem falar de outras coincidências.

Deixando a controvérsia de lado, a questão é que tanto Zorro como Batman provaram ser bons de bilheteria para quem sabe explorá-los bem. O diretor deste
A Lenda do Zorro, o britânico
Martin Campbell, também já demonstrou ter o poder de Midas. Com seu filme anterior envolvendo o mesmo personagem,
A Máscara do Zorro, ele conseguiu cifras que ultrapassaram os US$ 250 milhões. Além disso, dois de seus outros filmes,
Limite Vertical e
007 Contra GoldenEye, chegaram a igualmente espantosos US$ 200 milhões e US$ 350 milhões, respectivamente. Nada mal, nada mal mesmo. Hollywood gosta do Sr. Campbell, isso é um fato.
Sem levar em consideração o aspecto financeiro da coisa, o propósito desta continuação que agora chega aos cinemas brasileiros parece ser o de analisar a vida de Zorro/Don Alejandro de la Vega, vivido pelo careteiro
Antonio Banderas, após dez anos decorridos de seu casamento com Elena (a oscarizada
Catherine Zeta-Jones) e da chegada de um rebento, Joaquín (o quase estreante ator mirim mexicano
Adrian Alonso).
Porém, quando o fermento é pouco, o bolo não cresce. O filme se perde num humor insosso, cujo ápice são as caretas fora de hora de Banderas, em efeitos especiais descartáveis (que nada acrescentam) e em cenas de luta e perseguição simplesmente cansativas. Sem contar o péssimo trabalho da equipe de arte, que tem o despautério de usar em Frei Felipe (
Julio Oscar Mechoso, em fraco desempenho) uma peruquinha de frade franciscano tão mixuruca, mas tão mixuruca, que as suas cor e consistência se diferenciam radicalmente das de seu cabelo natural. A cena final não me deixa mentir.
Segundo seus produtores,
A Lenda do Zorro teria utilizado 40 cavalos, 15 burros, 29 vacas, 15 porcos e 50 galinhas para a construção de uma cenografia convincente. Tudo bem, os animais estão bem na fita. A mesma dedicação conferida à escolha dos animais, no entanto, não parece ter se estendido ao
casting. O elenco em geral decepciona. É bem verdade que os personagens são precários e estereotipados, mas a escolha dos atores poderia ter sido mais seletiva, ainda mais para um filme que se pretende um
blockbuster. A dupla principal, Zeta-Jones e Banderas, que escorou parte do sucesso do filme anterior, se equilibra para tentar manter o desempenho nas bilheterias. O problema, fora todos os demais já mencionados, é que
Sir Anthony Hopkins (o verdadeiro Don Diego de la Vega em
A Máscara do Zorro) teve o bom senso de não se juntar a essa nau dos insensatos.
O mais interessante deste filme talvez seja a sua mensagem subtextual, inflada por discursos ufanistas em prol da nação americana. O pano de fundo de
A Lenda do Zorro é a metade do século XIX, quando o povo da Califórnia deve decidir-se ou não pela filiação aos Estados Unidos da América como o 31º estado. O leitor precavido já sabe de antemão a que tipo de blábláblá se sujeitará em sua poltrona durante duas horas. Eu fico me perguntando se os espectadores dos outros países do mundo não se cansam dessa lengalenga? Será que os próprios americanos também não se cansam desse patriotismo levado à enésima potência? A conferir. ¤