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Alex Ross revigora os mitos
Por Rafael Lima — Quinta, 27 de outubro de 2005
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Dois títulos da Panini atestam: os mitos não morrem facilmente; transformam-se e recriam-se para permanecerem os mesmos; porém mais fortes, maiores. Marvels, da Marvel Comics, e Reino do Amanhã, da DC Comics, ambos desenhados por Alex Ross, têm o mesmo tema: a conturbada relação entre o homo sapiens e os super-heróis. São filhas do conceito genial bolado por Stan Lee e Jack Kirby, o átomo de Hidrogênio que deu origem a todo o universo Marvel.
Marvels é uma mini-série de luxo, com capa transparente de acetato, lançada para comemorar um dos aniversários da editora. O mote era audacioso – mostrar, do ponto de vista das pessoas comuns, o surgimento e a explosão de super-heróis a que correspondeu o surgimento da editora na década de 1960. Nada como heróis, um punhado deles, para inspirarem sonhos aos cidadãos comuns, e nada mais apropriado do que uma arte capaz de mostrar esses heróis de forma tão realista quanto possível.
Reino do Amanhã é a enésima tentativa da DC Comics de impôr certa compostura e respeito aos monstros sagrados da casa, depois de anos de merchandising abusivo e roteiros pouco inspirados, para dizer o mínimo: uma história que recozinha um dos pontos propostos por Alan Moore em Watchmen, a proibição das atividades dos super-heróis e suas aposentadorias voluntárias.
Se em Marvels o sentimento que sobressai é o deslumbre mitológico em constatar que gigantes ainda caminham sobre a terra (apesar dos preconceitos contra a nova raça, particularmente bem explorados no capítulo dos X-Men), Reino do Amanhã é dominada por um tom pessimista, afirmando que os heróis perderam sua majestade e honra. Marvels é auto-congratulatório, festivo, banhado de esperança no mundo melhor para o qual os super-heróis conduziriam; Reino do Amanhã é quase sua contrapartida completa, a decepção pelo caos em que os super-heróis transformaram o mundo. Marvels é revisionismo histórico otimista. Reino do Amanhã é futurismo negativo, mesmo que haja esperança no final.
O que une as duas histórias, dois roteiros bem desenvolvidos ainda que tenham partido de propostas requentadas, é a vontade das respectivas editoras em polir e revigorar seus mitos, seus personagens-símbolo. A arte hiper-realista de Alex Ross se apresenta perfeita para esta tarefa, posto que dá aos personagens uma aparência que nunca tiveram antes, ao mesmo tempo, realista como nunca se viu – nesse ponto, Marvels leva vantagem por ter sido pioneira; as labaredas incandescentes do corpo do Tocha-Humana e as costuras do uniforme do Capitão América contaram com o elemento surpresa entre os leitores – e coerente com a iconografia clássica que os alçou à categoria de mitos. Ross não reinventa nada, em termos visuais; pelo contrário. Seu mérito está em rever o que há de mais marcante em cada figurino e fazê-lo tão parecido com o real quanto possível. É como um Andy Warhol dos quadrinhos, que ao colocar sob o verniz da "arte pintada" os super-heróis, faz os leitores enxergarem significados antes ocultos nas mesmas imagens.
Consegue, atingindo o propósito inicial de recalibrar os ícones, estendendo suas sobrevidas indefinidamente – ou até que o próximo golpe de publicidade as abata.
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