 |
Sim, Tom Cuise enlouqueceu
Por Pedro Alencastro — Segunda, 24 de outubro de 2005
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Ao reler a coluna intitulada Tom Cruise enlouqueceu?! notei um deslize irreparável. De tão concentrado que estava em minha cruzada anti-semita, acabei ignorando a prova cabal de sua maluquice. Afinal, quem em sã consciência daria um pé na bunda de Nicole Kidman – uma bela e curvilínea bunda, diga-se de passagem?
Corrói minha alma imaginar aquele insolente tampinha, com sua cara deslavada, nariguda e cheia de dentes, usando desculpas esfarrapadas como “O problema não é você, sou eu”. Se isso não bastasse, o sacripanta desatina por aí feito um lunático, fazendo juras de amor eterno para Pénelopes, Katies e Cia. Ltda. Pobre Nicole, por que sofrimento não deve ter passado...
No entanto, já dizia o ditado, há males que vem para o bem. Livrar-se do rótulo de Sra. Cruise foi a melhor coisa que aconteceu para a carreira de Nicole. A história toda começou um pouco antes da fatídica separação, quando ela e seu ex ostentavam o título de casal vinte da América.
Naquela época, Nicole era a gostosa que abanava ao lado de Tom Cruise – o centro máximo das atenções. Porém, graças aos conselhos soprados por um tal de Stanley Kubrick, a moça estabeleceu novas prioridades. Antes de bater as botas, o legendário cineasta havia nos deixado seu último legado artístico: uma Nicole Kidman novinha em folha.
Rostinho bonito o cassete!
Justiça seja feita. Não fosse a mão santa de um anônimo roteirista, nada disso teria acontecido. Falo de Terry Hayes, escritor de Mad Max 2 (1981), responsável por convencer Phillip Noyce a escalar Nicole como esposa de Sam Neil em Terror a Bordo (1989).
Até então, a menina havia feito uma porção de filmes, mas nenhum de grande repercussão. Noyce sabia que ela tinha apenas vinte anos e que o roteiro apontava uma mulher de trinta. Contudo, Hayes, que conhecia Nicole da mini-série Vietnã, fez beicinho e dobrou o homem.
Com um quê de seqüência final de Cabo do Medo (1991), Terror a Bordo transporta para alto mar a clássica história do carona-psicopata-homícida. Navegando pelo Oceano Pacífico, Nicole&Neil acolhem o único sobrevivente a bordo de um iate abandonado. A confusão tem início quando este misterioso rapaz (genialmente interpretado por Billy Zane) revela-se um mal agradecido e assassino de primeira grandeza.
Embalados por tomadas inimagináveis e sustos de tirar o fôlego, Billy Zane e Nicole Kidman esbanjam competência de dar inveja em muitos veteranos da telona. Após sua triunfal formatura, entretanto, a dupla juvenil seguiu por caminhos opostos. Zane navegou em várias canoas furadas, até naufragar na pele do vilão de outro barco – o maior e mais célebre de todos – que lhe rendeu o indesejado rótulo de mauricinho do Titanic. Já Nicole, começou devagar e foi avançando de forma meteórica.
Primeiro, veio o convite para filmar Dias de Trovão (1990). No começo, os produtores perceberam que era muita areia para o caminhãozinho de um metro e setenta do protagonista. Mas a questão foi rapidamente resolvida, tanto é que o casal acabou casando alguns meses depois.
Daí para frente, a loirinha teve que frear suas jornadas cinematográficas. O motivo: jamais ultrapassar a cota de duas semanas longe do maridão. Enquanto Tom Cruise deslanchava numa das carreiras mais notáveis de Hollywood, Nicole gastava o tempo naquele tal de esquenta barriga no fogão e esfria no tanque.
Para se ter uma idéia, nos primeiros anos do sagrado matrimônio, Nicole deu as caras em Minha vida (1993), Malícia (1994), Flertando - Aprendendo a viver e Billy Bathgate, ambos de 1991. Tom, por sua vez, somou os títulos Questão de Honra (1992), A Firma (1993) e Entrevista com o Vampiro (1994). O acordo de não desgrudar chegou a tal ponto, que ela se prestou a contracenar com o amado no insosso Um Sonho Distante (1992), de Ron Howard.
Somente em 1995, Nicole resolveu desbravar novos terrenos. Depois de dar um tremendo balão em Meg Ryan, assumiu o papel principal na nova obra de Gus Van Sant, Um Sonho Sem Limites. Neste, a Santinha do Pau Oco mostra suas garras na pele de uma garota que faz de tudo para conseguir o estrelato na televisão. Paralelamente aos anseios de sua personagem, Nicole ganhou um Globo de Ouro.
Não contente em agradar apenas os especialistas, ela acabou ingressando no hall dos cachês milionários graças ao lamentável Batman Eternamente (1995). Porém, mesmo com as significativas conquistas, a mais nova musa do cinema ainda era uma sombra de Tom Cruise, emplacando papéis inexpressivos em Retrato de uma mulher (1996), O pacificador (1997) e Da magia à sedução (1998).
Eu! O cara do Laranja Mecânica!
Quando tudo parecia perdido, eis que surge, tal qual Chapolin Colorado, Ele, Stanley Kubrick. Nos bastidores do seu último longa, o cineasta virou uma espécie de consiglieri de Nicole. Anos de Banho Maria e expectativas à flor da pele, De Olhos Bem Fechados decepcionou aqueles que esperavam uma obra prima kubrickiana recheada de cenas calientes.
O pré-lançamento polemizou mais que o lançamento propriamente dito. Aparentemente, o gênio de 2001 Uma Odisséia no Espaço (1968) havia jogado a toalha. Ele não era mais o mesmo e, se pararmos para pensar, nem precisava sê-lo. Tanto é que morreu antes do longa sair.
Aproveitando o olho desse furacão, Nicole acatou os conselhos do falecido amigo, focando sua carreira em projetos mais arrojados; e logo de cara, tratou de mostrou que não estava pra brincadeira. Se interpretar uma cortesã já era uma grande ousadia, que dirá num musical em pleno século XXI.
Ambientado em Paris, o espalhafatoso Moulin Rouge (2001) ressuscitou um gênero hospitalizado desde “Evita assistir essa porcaria” e alçou Nicole para o pelotão de frente. A primeira indicação ao Oscar bateu na trave, mas era questão de tempo para que a Academia se curvasse diante dela.
O filme de Baz Luhrmann ainda foi responsável por um burbirnho envolvendo Nicole e Ewan McGregor, que somado ao affair entre Tom e Penélope Cruz durante as filmagens de Vanilla Sky (2001), acionou o alerta vermelho. Nicole e Tom passavam pela temida crise dos dez anos (se é que isso exite).
Deixando os pombinhos de lado, faço um parêntese para destacar aquele que considero o grande filme de sua carreia e o melhor suspense dos últimos dez anos. Shyamallan que me desculpe e ai de quem lembrar O Chamado (2002). Se existe um clássico moderno na filmografia de Nicole, esse clássico é Os Outros (2001), thriller que mudou o conceito de casas mal assombradas.
Infelizmente, a obra do chileno Alejandro Amenábar foi escanteada por uma industria que, nessa última leva, deu pedal para exemplares constrangedores como A Vila (2004) e Na Companhia do Medo (2003). Fazer o quê? Já dizia Nicky Santoro, personagem de Joe Pesci em Cassino (1995), “Always the dollars. Always the fucking dollars”.
Por um nariz...
Embora, na minha opinião, o grande trunfo de Nicole seja Os Outros, sua melhor interpretação fica entre As Horas(2002) e Dogville (2003). No primeiro, ela encarna Virginia Wolf, protagonista de uma das três narrativas relacionadas ao livro Mrs. Dalloway. As outras duas personagens chaves do roteiro são interpretadas por Julianne Moore e Meryl Streep (minhas favoritas).
No episódio vivido por Nicole, a autora da obra passa por uma fase depressiva, que a atriz soube captar e transmitir para tela numa atuação tocante. A fim de incorporar a célebre escritora, Nicole aprendeu a escrever com a mão esquerda e entrou para o Clube Jake La Motta.
The Jake La Motta’s Club foi fundado por Robert de Niro, um dos pioneiros na arte de entrar no personagem o mais fielmente possível, conforme comprovam os 25 quilos adquiridos para filmar Touro Indomável (1980). A última aquisição desse clube foi a bela Charlize Teron, praticamente irreconhecível e inacreditavelmente horrorosa em Monster (2003). Com Nicole, houve uma mudança menos radical, focada basicamente no nariz.
Pela árdua tarefa de enfeiá-la, o pessoal da maquiagem bem que podia ter levado algum prêmio, mas o esforço teve sua recompensa. O ano de 2003 foi o Ano das Napas Oscarizadas. Além dos narigudos de nascença Adrien Brody e Roman Polanski – respectivamente melhor ator e diretor por O Pianista – Nicole também conquistou seu almejado Oscar e superou o ex-marido, que até hoje, aguarda na sala de espera.
Ainda em 2002, nossa garota falou russo em A Isca Perfeita, romance de Internet que resulta num casamento pra lá de conturbado. Quanto ao filme de Lars Von Trier, admito que não assisti na íntegra, mas as críticas e opiniões que ouvi a respeito não podem estar todas equivocadas. Dogville é o nome do pequeno vilarejo que acolhe Grace (Nicole), moça perseguida por uma quadrilha de gângsters. Passado algum tempo, porém, a gentileza dos moradores vai mostrando sua verdadeira face.
Em Dogville, Nicole sofreu tanto quanto Grace e passou maus bocados nas mãos do cineasta dinamarquês, adepto das mais excêntricas técnicas de direção. Duas delas são o uso excessivo da câmera na mão e do narrador em terceira pessoa. Sem contar que na prática, o vilarejo é um enorme palco de teatro montado num set sem paredes.
Existe vida após o Oscar?
Oscar na prateleria, Nicole tinha tudo para se firmar entre as grandes atrizes do cinema contemporâneo. Seu próximo passo seria Cold Mountain (2003), uma mega produção liderada pelo paparicado Anthony Minghella, diretor de O Paciente Inglês (1996).
Além de Minghella, o projeto contava com Jude Law e Renée Zellweger, dois atores em franca ascensão; o roteiro era baseado num livro de Charles Frazier; os protagonistas viviam uma caso de amor interrompido pela guerra; a fotografia abusava de paisagens estonteantes; e até Jack White, vocalista dos White Sripes, fazia parte do elenco.
A expectativa era tanta, que Cold Mountain não conseguiu cumprir dez por cento do que prometeu. Não que a fita seja ruim, mas definitivamente tem seus pontos fracos. Tipo, é difícil levar a sério Nicole pegando na enxada, maquiada como se estivesse numa cerimônia de gala.
No final das contas, este insignificante escorregão virou uma queda livre com pára-quedas meia boca. O problema todo não estava nas atuações de Nicole, e sim, nos exemplares em que ela atuava. Tal qual Cold Mountain, esses projetos tinham tudo para dar certo, mas deixaram a desejar.
Vejam o exemplo de Revelações (2003). Quem diria que um filme dirigido por Robert Benton, de Kramer vs. Kramer (1979), protagonizado por Anthony Hopkins, Ed Harris e Gary Sinise pudesse ser tão medíocre?
E o que dizer de Mulheres Perfeitas (2004)? Tá certo que depois de desperdiçar a trinca Edward Norton, Robert de Niro e Marlon Brando em Cartada Final (2001), Frank Oz não andava muito bem das pernas; mas quem poderia prever o fiasco que foi? Deste, a própria Nicole Kidman se arrependeu de ter participado.
No ano passado, Reencarnação foi a cereja que faltava no topo desse sundae azedo. A história de um garoto que se apaixona por uma mulher, dizendo ser a reencarnação de seu falecido marido, está mais para último capítulo de novela mexicana do que qualquer outra coisa.
No meio dessa tenebrosa maré, a musa conseguiu engatilhar um título digno de sua grandeza. A Intérprete (2005) traz Nicole no papel de Silvia Broome, funcionária das Nações Unidas que ouve uma ameaça de morte a um chefe de estado, proferido num dialeto africano que nem os africanos entendem. Silvia passa então a receber proteção especial, enquanto é investigada como suspeita de envolvimento na maracutaia.
Dor de cotovelo
Para o futuro, a dúvida é saber se Nicole espantou a bruxa que andava a solta de uma vez por todas ou não. Se depender de A Feiticeira, seu recente projeto, essa bruxa não vai embora nem que seja abaixo de feitiçaria. A adaptação para a telona num estilo Charlie Kaufmann da homônima série da década de 60, foi um feitiço que saiu pela culatra, segundo escrevi há algumas semanas.
Enfileirando fracasso atrás de fracasso, dizem por aí que Nicole andou chorando as pitangas por Tom Cruise e que jamais se contentará com uma paixão menor que a dos dois. Considerando o avassalador efeito deste Don Juan sobre as mulheres, concluí que a paixonite pelo astro é inversamente proporcional ao sucesso na profissão.
Nicole, por exemplo, experimentava sua melhor fase e com esta provável recaída puxou o freio. Penélope Cruz, a segunda vítima de Thomas, ainda não superou a separação e nunca fez nada que prestasse depois de Vanilla Sky. Pra finalizar, a atual, Katie Holmes, além de unanimidade negativa em Batman Begins, está cada vez mais próxima de bandear para os lados da cientologia.
A comparação entre as três, todavia, fica por aqui. Nicole jamais abdicou do catolicismo e, quando o assunto é currículo, dá um banho de bola nas rivais. Antes de alguém me acusar de católico intransigente com outras crenças, em primeiro lugar, afirmo minha condição de ateu. Em segundo, independente de religião, acho uma tremenda falta de personalidade assumir convicções dos outros.
Já no quesito sex appeal, sou suspeito para falar. Katie e Penélope ficam abaixo do chinelo. Aos 38 anos, aproximando-se de uma época conturbada para a maioria das estrelas, Nicole continua ostentando status de musa e desfilando como uma das poderosas de Hollywood.
Recentemente, ela exigiu 4 milhões de dólares da Chanel No 5 para fazer algo que outras pagariam o olho da cara: beijar Rodrigo Santoro num comercial. Por essas e outras, não restam dúvidas que Nicole está por cima da carne seca. No entanto, cabe a perguntinha. Se ao invés de Santoro, a Chanel tivesse contratado outro ator – um camarada branquelo, com uns bons centímetros a menos – este cachê seria o mesmo?
Passatempo de hoje
Quantos refrões de músicas pop são cantadas em Moulin Rouge?
Resposta do último passatempo: Wally está na frente da barraca, atrás de um casal, segurando a bengalinha no ar.
|
 |