Nós vimos II: Plano de Vôo

Por Ederson Nunes — Quinta, 20 de outubro de 2005

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Suspense de qualidade (até certo ponto)

Difícil compreender Jodie Foster. Após seu segundo Oscar, em 1991, por O Silêncio dos Inocentes, ela era considerada uma das melhores, talvez a melhor, atriz de Hollywood. Era uma das personalidades mais poderosas dos Estados Unidos, tinha projetos interessantes, arriscou-se na direção, produziu filmes. Após o fim da década de 90, ela foi desaparecendo. Seu último filme foi O Quarto do Pânico, que tinha tudo para dar certo, mas não deu. Isso foi em 2002. Agora, Jodie está de volta às telas, incompreensivelmente num papel parecidíssimo com seu papel anterior: uma mãe acuada num lugar recluso, contra tudo e todos para proteger sua filha.

Apesar disso, passamos mais de uma hora achando que ela fez uma boa escolha, apesar de arriscada. Plano de Vôo inicia com vontade de ser o mais interessante suspense do ano. Tudo começa com uma sinistra seqüência, em que Kyle Pratt (Foster) vai ao necrotério a fim de autorizar o lacre do caixão de seu marido, que caiu misteriosamente do telhado. No dia seguinte, ela e sua filha de sete anos, Julia (Marlene Lawston), deixam seu apartamento em Berlim rumo à Nova Iorque, levando o caixão para ser enterrado em solo americano. Elas embarcam no maior avião do mundo, que Kyle ajudou a projetar: uma aeronave gigantesca, de vários andares, diversos ambientes, altamente luxuosa e com mais de 400 passageiros a bordo. Após adormecer, Kyle não encontra mais a menina. Tudo bem, afinal estão num avião, ela não pode ter ido muito longe. No entanto, ninguém encontra Julia. Aliás, ninguém viu Julia. Kyle se desespera, arma o maior barraco, roda a baiana, faz com que o comandante organize uma operação para a tripulação buscar a garota em todos os compartimentos da aeronave, mas é tudo em vão. Até que certos dados levantam suspeitas sobre a existência real de Julia. Será que ela existe mesmo, ou tudo não passou de alucinação de uma mente perturbada pela perda do marido?

Quem viu Uma Mente Brilhante (de Ron Howard, com Russel Crowe), pode imaginar mais ou menos o mesmo clima: não sabemos se o que tínhamos visto até então era verdade, ou se estávamos apenas compartilhando da imaginação da personagem. Começamos a duvidar de tudo, e isso aumenta muito a tensão, que já era grande. A direção competentíssma do alemão Robert Schwentke nos deixa sem saber onde se apoiar. Tudo pode acontecer e isso é muito enervante, principalmente porque tudo se passa dentro de um lugar claustrofóbico, apertado, fechado, repleto de pessoas que desconfiam umas das outras. Firma-se, assim, como um suspense de primeira linha por um bom tempo, mas algo acontece. Depois que algumas coisas se desvendam, já chegando perto do final, o filme muda. A tensão que o roteiro esperto conseguiu impor até então se esvai para dar lugar a tiros, socos, perseguições através dos corredores estreitos. É possível esperar que Wesley Snipes ou Steven Seagal surjam por detrás de uma poltrona. Vira um filme de ação, e dos mais convencionais: o bom, sempre mais esperto, contra o mau, sempre menos rápido e com paciência para contar todo seu plano enquanto se arrasta. Isso, somado a efeitos pirotécnicos pífios, faz Van Damme sorrir com desdém.

Quanto a Jodie Foster, dá pra dizer que ela faz bem sua obrigação, o que não é pouco. Sem dúvida, outra atriz poderia estragar o personagem (como Juliane Moore fez em Hannibal, achincalhando a memória da agente do FBI vivida por Jodie no Silêncio dos Inocentes), ou torná-lo insuportável, já que é uma mulher sem muitas nuances: está perturbada e só chora, se desespera, grita e corre ao longo do filme. Os planos fechados nos fazem sempre estar contemplando seus enormes e apavorados olhos azuis, o que dá uma sensação de veracidade à interpretação. Falando em olhos, o agente de segurança do avião (Peter Sarsgaard), que passa a acompanhar Kyle depois que ela mostra-se possível de causar problemas, quase não os abre, parece que está dormindo o tempo todo. Pior: sua expressão facial é pouco mais significativa que um rabanete. Interpretações mais interessantes têm as aeromoças cínicas, mais preocupadas em servir a próxima porção de frango do que com a garota desaparecida. ¤




COMPRAS
DVD > DVD Plano de Vôo (Jodie Foster, Robert Schwentke)
DVD > Blu-ray Plano de Vôo (Jodie Foster)
DVD > DVD Suspense Box Set- Triplo (Anthony Hopkins, Robert De Niro, Dakota Fanning, Jodie Foster, Katie Holmes, Colin Farrell)
DVD > DVD O Silêncio dos Inocentes - Edição Especial (Scott Glenn, Anthony Hopkins, Kristi Zea, Ted Tally, Jodie Foster, Craig Mckay, Howard Shore, Kenneth Utt, Edward Saxon, Tak Fujimoto, Jonathan Demme)
Livro > O Negociador (John Grisham)
DVD > DVD Choque de Paixão e Morte (John Lithgow, Jodie Foster, Michael Laughlin)
DVD > Blu-ray O Silêncio dos Inocentes (Scott Glenn, Anthony Hopkins, Kristi Zea, Ted Tally, Ted Levine, Jodie Foster, Craig Mckay, Howard Shore, Kenneth Utt, Edward Saxon, Tak Fujimoto, Jonathan Demme)
DVD > DVD Maverick (Vilmos Zsigmond, William Goldman, Jodie Foster, Richard Donner, Mel Gibson, Stuart Baird, Bruce Davey, James Garner, Randy Newman)

 

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