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Nós lemos: Watchmen
Por Felipe Meyer — Sexta, 14 de outubro de 2005
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Nós lemos Watchmen 
Fato 1 - 11 minutos para a meia-noite: A DC Comics anunciou para este mês a edição absoluta de Watchmen, trazendo 48 páginas de material extra totalmente inédito além de um trabalho de recolorização das doze edições originais pela WildStorm FX com a supervisão do colorista da série John Higgins e a aprovação do desenhista Dave Gibbons.
Fato 2 - 10 minutos para a meia-noite: Esta não é a versão publicada no Brasil pela Via Lettera.
Permita-me esclarecer, antes, que a editora nunca anunciou qualquer ligação com a edição absoluta dos Estados Unidos. No entanto, em vista da comemoração dos 20 anos da série - que é, no mundo todo, considerada um marco na evolução das histórias em quadrinhos - esperava-se talvez um pouco mais de esmero nesta nova edição.
Fato 3 - 9 minutos para a meia-noite: As livrarias sempre demonstraram uma certa resistência às histórias em quadrinhos, o que levou as editoras brasileiras a investirem em edições mais luxuosas e voltadas para um público mais exigente.
Li isso outro dia, em uma matéria que me foi indicada sobre as editoras que publicam material encadernado no Brasil. De acordo tanto com a matéria quanto com a discussão que gerou a indicação do artigo, a Via Lettera talvez represente a opção mais barata do mercado, o “primo pobre” em matéria de encadernados.
Penso no que diria o autor da matéria após se deparar com o Watchmen da Via Lettera, inferior a todas as edições anteriormente publicadas no Brasil. A impressão que passa é a de um trabalho preguiçoso, como se tivessem escaneado a série em qualquer resolução e editado às pressas. As páginas são, em sua grande maioria, borradas e apresentando um contraste bastante incômodo entre texto e desenhos. Muitas das cenas que Gibbons criou propositalmente sombrias, aqui praticamente se transformam em manchas de tinta preta. Aliás, a sensação mais comum é a de que se está folheando um livro impresso em casa, numa impressora jato de tinta convencional. Dá até vontade de lamber o dedo e esfregar na página, pra ver se borra.
Levando em consideração o volume de páginas e a importância da obra, não faria mal algum incluir uma capa mais resistente, algo que não se deformasse após meia hora de manuseio e que talvez ajudasse a justificar o preço de quarenta e dois reais cobrados pela publicação (preço este similar aos praticados por outras editoras que, no entanto, oferecem formatos e acabamentos muito mais luxuosos).
A nova tradução (único diferencial verdadeiro da edição) de Jotapê Martins é bastante eficiente, como se esperaria de alguém com tão larga experiência. O texto final careceu, no entanto, de um trabalho mais atento de revisão, deixando escapar alguns erros e algumas expressões literais demais - mas são detalhes que felizmente não atrapalham a leitura.
É uma obra fantástica, cujo texto cheio de reviravoltas e conspirações globais consegue ainda hoje surpreender muitos novos leitores com a genialidade e a veia polêmica de Alan Moore. Em vista dos recentes acontecimentos mundiais, as maquinações políticas e as guerras mal-justificadas, o plano misterioso de Ozymandias parece hoje tão plausível quanto a vinte anos atrás.
Lamenta-se somente o formato e acabamento escolhidos para uma série originalmente tão bonita e tão divertida de se ler.
Curiosidades de Watchmen
O mundo de Watchmen é muito parecido com o nosso. De fato, a idéia era torná-lo o mais fiel possível à nossa realidade, ao mesmo tempo em que se respondia à pergunta “o que aconteceria se os super-heróis existissem na vida real?”.
Globalmente falando, a resposta veio com uma série de diferenças históricas e alguns avanços tecnológicos que vão aos poucos sendo apresentadas na série, em forma de flashbacks ou casualmente, no cotidiano dos personagens e em notas de jornal. Só no primeiro volume é possível se deparar com o quinto mandato do presidente estaduniense Richard Nixon, carros movidos à eletricidade (cuja origem será explicada mais à frente), silos construídos na superfície lunar e a constatação de que o gênero dos super-heróis entrou em extinção na década de cinqüenta, sendo inteiramente substituído pelos quadrinhos de piratas. Sem falar na maior piada de todas: o Vietnã é o qüinquagésimo primeiro estado dos EUA. A piada fica melhor ainda quando o Comediante imagina a loucura que invadiria seu país caso perdesse a guerra.
Na década de 80, a DC comprou os direitos de diversos personagens da falecida editora Charlton, que incluíam o Capitão Átomo, o Questão, o Besouro Azul, entre outros. Alan Moore e Dave Gibbons já tinham uma breve idéia de uma nova e revolucionária série, e Dick Giordano (criador de muitos dos personagens da Charlton e que na época começava sua carreira na DC) sugeriu aos dois que fizessem alguma coisa com os recém-adquiridos heróis. Nascia assim o primeiro esboço de Watchmen, mas os editores não gostaram muito da idéia, levando em conta o quanto tinham pago pelos personagens e que ao fim da série boa parte deles estaria morta e o restante numa tremenda confusão. A sugestão então foi que Gibbons e Moore criassem seus próprios personagens, mas os dois buscavam uma espécie de ressonância emocional, algo que fizesse com que os leitores reconhecessem a essência dos heróis para logo em seguida se surpreenderem com a estranha realidade dos mesmos. A solução foi modificar os nomes e a aparência dos originais, moldando-os levemente até se tornarem os Homens-Minuto e Combatentes do Crime como os conhecemos hoje.
Rorschach é o Questão, um herói violento e sem poderes especiais, mas com um grande talento investigativo e que questiona constantemente o sistema. O Questão pode ser visto em alguns episódios do desenho animado Liga da Justiça Sem Limites, em exibição aos sábados pelo canal pago Cartoon Network.
O Comediante é a versão do mundo de Watchmen para o Pacificador, um homem tão obcecado pela paz que é capaz de lutar por ela.
Ozymandias é baseado em Thunderbolt, um herói de grandes habilidades atléticas e capaz de utilizar 100% de sua capacidade cerebral.
O Besouro Azul, em suas duas encarnações, virou o Coruja I e Coruja II, com direito até a um super-veículo em formato de coruja.
Dr. Manhattan é uma versão turbinada do Capitão Átomo, outro personagem que fez longa carreira dentro do universo DC, inclusive tendo sido responsável pela destruição do estado do Kansas na mini-série Reino do Amanhã.
Espectral é baseada em Nightshade, personagem que em sua aparição no universo DC integrou o Esquadrão Suicida. Seu objetivo era compreender melhor seus poderes e resgatar seu pai, que era um ser extradimensional.
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