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Urbana Legio Omnia Vincit
Por Edvaldo Filho — Quinta, 13 de outubro de 2005
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11 de outubro de 1996. Naquele dia, ao término da última aula do curso de Auxiliar de Enfermagem que eu então cursava, presenciei uma cena inusitada: vários táxis parados a alguns metros do prédio onde eu estudava, de portas abertas, tocando Teatro dos Vampiros. Todos os taxistas, fora dos seus carros, quietos, não davam nenhuma palavra. Apenas ouviam mais aquele hino da Legião Urbana num silêncio respeitoso, quase religioso.
No trajeto de volta para casa, quase não percebi que em todo lugar havia alguma coisa diferente no ar. Eu simplesmente estava no ônibus, seguindo viajem, aos poucos notando algo aqui e ali que me lembrava canções pertencentes a qualquer época e situação. Só ao chegar em casa fiquei a par do que aconteceu. A rotina cedeu lugar a perplexidade e à chateação. Meu costume de ir ao chuveiro assim que adentrava meu lar deu lugar à procura do controle remoto da tv em busca de mais detalhes acerca da notícia que eu, mesmo inconscientemente, nunca queria ouvir: Renato Russo havia morrido.
Renato Russo. Ele ficou pouquíssimo tempo por aqui, mas deixou um legado enorme, com sua fantástica capacidade de dizer tudo e muito mais falando pouco. Eu ainda era criança quando conheci a banda através dos versos e acordes de Será, a primeira faixa do primeiro disco da Legião, lançado em 1984. No auge dos meus sete anos de idade, deixei as músicas infantis um pouco de lado para presenciar e participar, na medida do possível, do movimento musical que então explodia: o rock nacional, principalmente das bandas vindas de Brasília, terra também de Eduardo e Mônica, nome da quarta faixa do excelente Dois, que Renato, Dado e Marcelo queriam que fosse duplo para fazer ainda mais jus ao nome.
Incrível era a quantidade e a qualidade dos hinos (chamá-los de canções iria eufemizá-los) que eram mostrados vez após vez em cada faixa de cada disco. A Legião conseguiu levar Faroeste Caboclo, sétima faixa de Que País é Este, de 1987, de mais de nove minutos de duração, para a parada de sucessos de todas as rádios, onde ficou por semanas. Outras músicas de outros discos fizeram um enorme sucesso inesperado pela própria banda (é, as coisas pareciam acontecer Quase Sem Querer mesmo), caso de Há Tempos, do excelente As Quatro Estações, de 1989. Sobre ela, Renato disse numa entrevista que jamais esperaria que a primeira faixa do quarto disco da Legião fizesse tanto sucesso nas rádios, uma vez que ela não era uma música dentro dos moldes comerciais. O fato é que quase todas as faixas de As Quatro... tocavam sem parar, e todos os meus amigos e colegas do ginásio tinham este disco. Era certa a nossa reunião no intervalo entre as aulas para cantarmos algo da Legião, uma banda tão marcante e emblemática que não é exagero dizer que ela está para o Brasil assim como os Beatles estão pra a Inglaterra.
Depois de As Quatro Estações veio o V, cuja sétima faixa, Vento no Litoral, se tornou a preferida de muitos legionários. Numa época em que ainda havia os bolachões pretos, o primeiro lado deste disco mostrava-se carregado de um peso que refletia o estado de espírito do líder da Legião e da grande maioria dos brasileiros. Era 1991. O Brasil estava na Era Collor e o dinheiro dos brasileiros retido nos bancos. Uma época extremamente desagradável, eufemisticamente falando. O clima do disco só seria suavizado a partir da sexta faixa, Sereníssima.
Vamos fazer um filme, oitava faixa de O Descobrimento do Brasil faz uma pergunta interessante: E hoje em dia, como é que se diz “eu te amo?”. Parece que ela surge a partir da incerteza que se tem sobre qual a melhor hora e maneira de se revelar os sentimentos em um mundo onde ninguém é de ninguém, todo mundo é de todo mundo e todo mundo se quer bem (como diriam os Tribalistas alguns anos depois) ou por esta frase já não ser tão fácil de ser ouvida já bem antes do lançamento do disco. Bem, o ouvinte-autor pode interpretar este verso de várias maneiras. Perfeição escancara a estupidez de tudo e de todos, menos dos militares, pois conforme Renato diria numa entrevista à MTV durante as gravações do clipe desta música, ele não queria mexer em vespeiro (ou algo assim). Meio paradoxal para um rebelde como ele, não? Mas ao contrário do que ele mesmo pensava, ele não precisava provar nada para ninguém.
A Tempestade ou O Livro dos Dias foi o prenúncio da tormenta que viria. Em algumas faixas, a voz de Renato demonstrava não ser mais a mesma. O poeta estava sucumbindo à AIDS. Foi o último disco da banda enquanto Renato estava vivo. Uma Outra Estação trouxe músicas inéditas não gravadas pela banda e Sagrado Coração, sua penúltima faixa, não foi cantada por Renato, embora o encarte do disco traga a letra da música. Os outros membros da banda acharam sensato gravar somente a parte instrumental. Se Renato não podia cantar, ninguém mais o faria.
Concordamos. E foi assim que aconteceu. Infelizmente, o pra sempre tinha acabado, embora ainda fosse cedo.
Hoje, este “menino” branco que trabalha numa enfermaria onde os doentes às vezes cantam sucessos populares, possui e ouve todos os discos da Legião, os solos de Renato (Equilíbrio Distante, Stonewall Celebration Concert, O Ultimo Solo e Presente) e o do Bonfá (o ótimo O Barco Além do Sol). Aos 28 anos, vejo que mudaram as estações, mas nada conseguiu mudar o que ficou. No final, a Legião Urbana sempre vence.
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