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Camelot 3000: O Retorno do Rei
Por Eudes Honorato — Quinta, 27 de novembro de 2003
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Segundo a lenda britânica, o Rei Arthur Pendragon retornaria quando o seu povo mais precisasse, e ele retornou. Sua volta aqui no Brasil se deu entre 1984 e 1985, na minissérie de 12 capítulos Camelot 3000. Eu comprava as revistas do Batman, que começavam a ser publicadas pela Editora Abril, e nela encontrei, além das aventuras do homem-morcego, essa incrível saga, que continuou também na revista Superamigos.
A mini foi escrita por Mike W. Barr e ilustrada pelo magnífico traço de Brian Bolland, que deixaria sua marca ainda na graphic novel A Piada Mortal e em capas para várias revistas como Homem-Animal, Mulher Maravilha, Flash, etc.
Acompanhei toda a minissérie quando lançada naquela época. A cada número, eu ficava ansioso pelo próximo, e cada vez mais maravilhado ao perceber que os quadrinhos podiam ser ousados.
Acompanhei o jovem Tom Prentice numa Inglaterra futurística, atacada por alienígenas que pretendem dominar a Terra. Também estive em sua fuga e a chegada ao mausoléu onde estaria o corpo do Rei Arthur. Encurralado pelos ETs, Tom esbarra num túmulo de onde o traço imponente de Bolland faz ressurgir o Rei de toda a Inglaterra, o qual, mesmo confuso com a situação, salva Prentice.
Daí para diante, a história é uma surpresa atrás da outra: Merlin também está vivo e precisa, com a ajuda de Arthur e de Tom Prentice, "acordar" a Rainha Guinevere, Lancelot e mais cinco cavaleiros da Távola Redonda, todos reencarnados, vivendo vidas normais, ou quase.
Para que possam ser "despertados" para suas vidas passadas, Merlin se vale de um amuleto que deve ser mostrado a cada um.
Guinevere é Joan Acton, comandante das Forças das Nações Unidas. Lancelot é o magnata francês Jules Futrelle. Galahad é um samurai prestes a cometer suicídio por não ter mais mestre. Sir Gawain é um pai de família negro, de Johannesburgo, África do Sul. Percival é um rebelde capturado e transformado num monstro horrendo, mas que continua leal ao rei, graças ao amuleto. Sir Kay, irmão adotivo de Arthur, é um vigarista em Nova Chicago.
Mas o cavaleiro que traria mais controvérsia à história ao ser trazido de volta seria Sir Tristão. Rendendo uma das melhores cenas, o jovem Tom Prentice é o encarregado de despertar Tristão com o amuleto (e, se você ainda é um dos poucos que não leram Camelot 3000, não leia a parte a seguir, pois estraga uma boa surpresa) que Merlin lhe dera. Tom entra num casamento e empunha o amuleto para o noivo, o sargento do Exército das Nações Unidas Owen McAllister, que, fulo da vida, parte para cima dele, querendo saber o que está acontecendo para ele interromper seu casamento. Mas a noiva interrompe e diz que está tudo bem; pega uma espada e começa a cortar os longos cabelos e se apresenta como Lady Tristã, ou Amber March, a reencarnação de Sir Tristão.
Num crescendo, cada situação como esta gera outra pior. Tom Prentice se apaixona por Tristã/Tristão que se sente humilhado por estar num corpo de mulher e ainda ama Isolda, que mais tarde, devido a tramas subseqüentes aparece no corpo de Claire Locklyn, funcionária das Nações Unidas e... mulher.
Descobre-se quem está por trás da invasão. Ninguém menos que Morgana Le Fey, feiticeira e meia-irmã de Arthur. Na Terra, Mordred, filho bastardo de Arthur, é aliado de Morgana e o Diretor de Segurança da ONU, Jordan Matthew, o que é muito conveniente.
Mike W. Barr consegue reproduzir nessa incrível história tudo que faz parte da mitologia do Rei Arthur: Merlin, o filho do demônio; Excalibur sendo entregue pela Dama do Lago, para logo em seguida desaparecer e aparecer numa rocha no meio da Assembléia das Nações Unidas, fazendo com que Arthur reproduza a cena da retirada da espada; o romance proibido de Guinevere e Lancelot; e até mesmo há tempo para a busca ao Santo Graal.
Entre traições e batalhas monumentais, há um final que não deixa nada a desejar. Cabe aqui lembrar que, da primeira vez, a editora resolveu passar o facão em certas cenas, editando ou até mesmo cortando uma página inteira. Com o "problema" de Tristão estar no corpo de uma mulher e reencontrar seu amor, Isolda, num corpo de mulher também, tivemos essa primeira publicação da série mutilada. Uma cena em que se beijavam foi cortada, e a cena final em que terminam juntas, numa cama, foi "deletada". Até mesmo uma cena entre Lancelot e Guinevere foi alterada. Mas, para a alegria dos leitores, a mesma editora relançou a minissérie em 4 edições, em 1988, com as páginas sem alterações e a página faltante.
Entre tantos ótimos relançamentos como Ronin, Asilo Arkham, Arma X, Crise nas Infinitas Terras, seria excelente se alguma editora cogitasse a republicação desse material de tão boa qualidade, a que muitos leitores mais atuais não tiveram acesso. Tudo bem, sempre se pode procurar em sebos, eu sei. Mas Camelot e seu rei merecem um tratamento adequado.
Seria ótimo ver o rei voltar quando a Inglaterra (e nós leitores) mais precisamos... outra vez.
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