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Desconstruindo Maria Rita
Por Marcos Vasconcelos — Quarta, 28 de setembro de 2005
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Não reclamem. Esta é uma coluna sobre rádio e Maria Rita Mariano (não adianta que eu não vou me render a esses marketeiros safados que amputaram seu sobrenome) é um fenômeno de execução, quer queiram seus fãs ou não queiram seus críticos. Mas porque desconstruir Maria Rita Mariano? bem, talvez por oportunismo, aceitável por conta do lançamento de seu segundo CD, talvez para tentar descobrir porque falar da filha de Elis Regina é algo que causa tanta polêmica, ou melhor: algo que não consiga se fazer sem a passionalidade dos que transitam em extremos.
Antes de mais nada, algumas questões de ordem histórica e psicossocial. O brasileiro, pasmem, é um bicho conservador ao extremo. Não se iludam com as bundas nas bancas de revista. Na mesa de jantar, o brasileiro é feudal. E como todo senhor de engenho, não curte mudanças radicais. E compra coisas pelo nome. Não a toa o carro mais vendido nesse país há exatos 16 anos tem um projeto datado de 1980. Com músicos também é assim. É difícil levantar a voz para questionar, por exemplo, que Chico Buarque é o maior artista brasileiro de todos os tempos. Faça isso e verá uma horda de ensandecidos aparecer do nada. Outra idéia rígida e cristalizada no inconsciente coletivo é a de que Elis Regina foi a maior cantora que esse país já viu.
E aí, no mundo globalizado do marketing, descobriu-se que Elis tinha uma filha, que ela morava em Nova York e que arriscava cantar de vez em quando. Foi o bastante para os urubus do mercado farejarem o dinheiro. Com o aval de Milton Nascimento, que foi o autor mais brilhantemente interpretado por Elis, com a tutelação de Tom Capone, o pasteurizador, e com a grana preta, pretíssima da Warner, e toda a brilhante estratégia de marketing que dela veio, Maria Rita Mariano aterrissou nas paradas brasileiras como um furacão em 2003. Seu primeiro disco foi um sucesso, ela tocou como poucas na rádio e mexeu com o público de um modo que há muito não se via nesse país. Era a própria Elis rediviva. E assim tem sido. Discreta, tranqüila, Maria Rita vive sua vida de shows, cuida de seu filho e é idolatrada e respeitada. Nessa época politicamente correta, nada mais adequado que um ídolo que é a personificação exata de outro, só que de cara limpa.
Agora, e musicalmente? Maria Rita Mariano é tudo isso? Bem, as maiores críticas que ela costuma receber, além do fato de estar meio rechonchuda e se vestir mal (mas ela canta descalça, o que para mim não é tudo, mas é 100%), é de pessoas que, ou não gostam do estilo de música que ela canta, por achá-lo antiquado ou anacrônico (como se os jovens de classe média, cansados dessas modernidades" que não se sustentam, tipo axé, pagode e forró mauriçola não estivessem se voltando para ritmos antigos como o partido alto e o chorinho...), ou não gostam dos arranjos que ela dá para as suas músicas ou não gostam do seu timbre de voz. Ou então, ainda, acham que qualquer coisa por trás de tamanho marketing não pode prestar. Quem gosta, por seu lado, é apaixonado.
Vamos aos tecnicismos da coisa, então. Maria Rita Mariano é bonita e é carismática. É uma cantora de boa técnica, afinada, não dá para negar. Isso já se sabia desde que Milton Nascimento gravou com ela a música "Tristesse", em seu álbum "Pietá", de 2002. Outra qualidade dela é a generosidade com os compositores da nova geração. Um exemplo cabal disso são as músicas de Marcelo Camelo, do Los Hermanos, que ela gravou. Foram todas grandes escolhas, mas nem sempre Maria Rita acerta em suas escolhas. Nisso e na parte de arranjos, é que a coisa começa a pegar um pouco. Melhor fazer uma análise rápida dos seus dois álbuns.
Em relação ao mais recente CD, o primeiro álbum, que se chama somente "Maria Rita", apresenta melhores músicas. Há acertos e erros. Os piores, para mim, foram as regravações de "Agora só falta você" e "Pagu", de Rita Lee e "Lavadeira do Rio", de Lenine, as primeiras por não acrescentarem absolutamente nada aos registros anteriores e esta última por não ter nada que ver com o estilo minimalista que Maria Rita e Tom Capone impuseram ao disco, talvez por esta querer fugir um pouco da visceralidade de Elis. Não deu. "Dos Gardênias" a ligava inquestionavelmente à mãe. Já "Santa Chuva", de Marcelo Camelo foi um achado. "Cara Valente" também funcionou bem e "Encontros e Despedidas" ainda me arrepia, mesmo depois de tê-la ouvida ad nauseam na abertura de uma novela, ano passado.
Já neste segundo CD, que se chama "Segundo" (gente, deu cupim na criatividade dessa gente? e o quarto CD do Los Hermanos que se chama "Quatro"?), as músicas não são tão boas quanto as do primeiro. Mesmo assim, há três momentos preciosos no disco: "Sobre Todas as Coisas", tristíssima canção de Chico Buarque e Edu Lobo, que faz parte da trilha sonora de "O Grande Circo Místico"; "A Minha Alma", do Rappa, que foi uma regravação muito corajosa, já que o registro com o Rappa já era forte. Eu duvidei, mas a gravação ficou excelente, uma verdadeira aula de como se deve respeitar uma música. Por fim, a melhor música do CD: "Casa Pré-Fabricada", do álbum "Bloco do Eu Sozinho", do Los Hermanos. A música, que originalmente é bem batida - e até estranha -, mas que é uma das mais bonitas do grupo dos barbudos, ganhou um arranjo primoroso, lento, angustiado. A música parece que foi feita para ser gravada assim. E é só, o disco acaba. As outras músicas definitivamente não são relevantes. São apenas uma seqüência amorfa de piano, baixo e bateria - Maria Rita insiste em tirar o emprego de algum bom guitarrista - e voz intimista. Se bem que, neste novo disco, produzido por Lenine, ainda dá para destacar duas coisas: o grudento refrão de "Mal Intento", do chatíssimo Jorge Drexler, e a voz que Maria Rita resolve soltar em certas faixas, como "Recado" e "A Minha Alma", por exemplo. É incrível como Elis aparece. Esses genes não conseguiriam ficar abafados desse jeito.
Mas afinal, Maria Rita é gênio ou embuste? Bem, nada do que eu diga vai mudar a opinião de ninguém. O fato é que o excesso de marketing embota um pouco a visão das coisas. Maria Rita é sim, uma cantora talentosa. Mas lhe falta uma coisa que só o tempo dá: estrada. Tempo para acertar e errar. Não dou seis meses para que já sejam lançados álbuns ao vivo (o DVD já foi...) e coletâneas da obra da cantora. E não há, sinceramente, obra para isso ainda. Maria Rita, infelizmente, é tratada com a galinha dos ovos de ouro. Ela até finge ter liberdade para trabalhar, e criar, e achar sonoridades no chão do estúdio. Mas tudo em torno dela é uma grande máquina de espremer dinheiro. É pena. Se ela voltasse para Nova York e ficasse lá, longe desse espremedor, talvez lhe viessem músicas com potencial de clássicos. Aqui, perto dessa gente de negócios, o máximo que Maria Rita vai conseguir produzir é um lampejo ou outro de boa música e cifras. Muitas cifras. Dessas que não são notação musical.
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