Onde está Kevin Costner? (*)

Por Pedro Alencastro — Sexta, 23 de setembro de 2005

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Imaginem um quadro com os cinqüentões mais badalados de Hollywood. Num primeiro plano, Bruce Willis, Tom Hanks, Mel Gibson e Denzel Washington aparecem seguidos por Pierce Brosnan, Andy Garcia, Dennis Quaid e alguns cavalheiros não tão enxutos como John Travolta ou Ray Liotta. Agora, se fixarmos atentamente os olhos no fundo deste quadro, perceberemos um sujeito que acena despreocupado.

Se usasse gorro, bengala e óculos fundo de garrafa, ele poderia ser perfeitamente confundido com Wally, o rosto mais procurado por dez em cada dez pirralhos que cresceram vendo Chaves & Chapolin. Capaz de usar um figurino boreal até na beira da praia – além da aquarela de cores que sugere um ligeiro daltonismo – este parco personagem dos livros infantis é ainda menos discreto que o indivíduo em questão.

Falo de Kevin Costner, cuja estrela vem gradualmente perdendo o brilho de outrora, talvez ofuscada pelos flashes vizinhos, talvez por vontade própria. Recordar o recente projeto de Costner ou o último boato ao seu respeito é uma tarefa que exige considerável esforço. Na parada de sucesso dos atores nascidos há meio século, ele está longe de ser um Top Ten. Mas nem sempre foi assim.

A vida não começa aos 40

Antes do lançamento de Dança com Lobos (1990), a trajetória de Kevin Costner era semelhante à de tantos ilustres hollywoodianos entre 30 e 40 anos. Depois de alguns títulos inexpressivos, Costner filmou O Reencontro (1983), dirigido por Lawrence Kasdan, porém, teve sua participação sumariamente eliminada no processo de edição. Sentindo-se culpado, Kasdan tentou recompensá-lo com Silverado (1985), contudo, seu ano chave só veio em 1987, quando estrelou Os Intocáveis, de Brian de Palma, e Sem Saída, ao lado de Gene Hackman.

Como sugere o nome, Sem Saída é literalmente uma sinuca de bico. Costner interpreta Tom Farrell, um oficial que testemunha o Secretário de Defesa, David Brice, assassinar sua amante, com quem Farrel também mantinha laços amorosos. Para piorar, Brice ordena que ele comande as investigações, compondo assim uma sinopse de dor nó na cabeça de qualquer um.

Já no filme de Brian de Palma, Costner encarna o algoz de Al Capone, Eliot Ness. Na época da Lei Seca, o incorruptível investigador reúne um grupo de malucos para sair no encalço do mafioso. Os intocáveis são interpretados por Andy Garcia (Giuseppe Petri), versão moderna de Guilherme Tell que não erra um tiro; Charles Martin Smith (Oscar Wallace), contador e pistoleiro nas horas vagas; e Sean Connery (Jim Malone), veterano da polícia e guia espiritual de Eliot Ness, o Dom Quixote que lidera a tropa.

O thriller marcou época, começando pela abertura ao som da alucinante trilha sonora. Outro destaque é a seqüência realizada na Estação Central de Chicago – homenagem ao clássico O Encouraçado Potemkin (1925) – além das memoráveis presenças de Sean Connery e Robert De Niro, este, ostentando um figurino impecável. Não me perguntem que diabo de pesquisa é essa, mas os acessórios para a barba, e até a seda da cueca, eram idênticos aos de Al Capone.

Somando Intocáveis e Sem Saída no currículo, o ator seguiu numa maré Baseball, emplacando os bem sucedidos Sorte no Amor (1988) e Campo dos Sonhos (1989). Contudo, é no início da década de 90 que Costner atingi o ápice de sua carreira. Ao assinar a direção de Dança com Lobos, ele se tornou o primeiro de sua geração a receber um oscar de peso.

Ressalto o termo “peso” por razões óbvias, ao menos, no meu entendimento. Um ano antes do episódio, Denzel Washington havia sido premiado por Tempo de Glória (1989). Porém, acredito que Denzel só tenha conquistado status de soberano através de Dia de Treinamento (2001), quando já contabilizava 47 primaveras. Nosso menino prodígio, por sua vez, sequer arranhava a idade da loba quando foi aceito pela Academia como “um dos nossos”. E ainda na condição de cineasta.

O curioso é que analisando os cinqüentões listados no primeiro parágrafo, somente um fã incondicional apontaria Costner como o mais talentoso. É claro que se tratando de Oscar, existem milhares de ressalvas, começando que careca dourado na prateleira não atesta superpoderes. Esta pomposa e entediante premiação (sobretudo quando apresentada por Whoopi Goldberg) possui três mandamentos básicos:
1) A Academia sofre de um cacoete pra lá de manjado, consagrando aventureiros e revelações
2) Quando o assunto é Oscar, esqueça o termo justiça
3) O prêmio não é garantia de prestígio eterno

Um exemplo destes três mandamentos atuando harmoniosamente é a queda de braço entre Martin Scorsese e Kevin Costner, na cerimônia de 1990. Se não vejamos. Ator desbravando o terreno da direção (1º. Mandamento) é premiado conforme critérios duvidosos (2º Mandamento) e atualmente anda esquecido (3º. Mandamento).

A propósito do 2º. Mandamento, nada contra Dança com Lobos, que tem um papel de suma importância para a cultura norte-americana. Além de satisfazer todos os quesitos que se exige de um grande filme (boas atuações, direção, fotografia, roteiro e trilha sonora), a película foi responsável pelo resgate do gênero Western em sua melhor forma, juntamente com Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood. Sem dúvida é a obra prima de Costner, cujo esforço em tocar o projeto lhe rendeu um Urso de Prata especial.

Se houve injustiça na ocasião (e houve) não foi fruto de deméritos, e sim, da tremenda sacanagem que fizeram com Scorsese e seus Bons Companheiros (1990). No final das contas, o prematuro Oscar de Costner acabou revelando-se um fardo deveras pesado, criando grande expectativa ao redor de suas posteriores expedições, fenômeno que nos leva a um dos mais estrondosos fracassos do cinema contemporâneo: Waterworld (1995).

Ganhei um Oscar!!! E agora?

Vítima desse terrível dilema, nosso marujo de primeira viagem jamais repetiu o sucesso de Dança com Lobos. A primeira tentativa foi Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (1991), no qual encarna o legendário arqueiro. No entanto, quem efetivamente roubou dos ricos para dar aos pobres, foi Sean Connery, que fez uma ponta e doou seu cachê de 250 mil mangos para instituições de caridade.

Nesse ano, Costner ainda participou de JFK - A Pergunta que Não Quer Calar, uma mirabolante teoria da conspiração envolvendo o assassinato de Kennedy arquitetada por Oliver Stone. Bem aceito pelos críticos, mas ignorado pelo público, JFK traz o astro na pele de um franco atirador clássico – função que dominava desde Os Intocáveis. Baseado em fatos reais (segundo Oliver Stone), o filme conta a jornada do teimoso promotor Jim Garrison em desvendar este célebre caso precocemente arquivado. Também em 1992, Costner deitou Na Cama com Madona (1991), virando motivo de chacota no documentário, devido ao seu jeito caxias de ser.

A partir daí, tem início uma série de deslizes imperdoáveis. Num ato de ousadia demente, assumiu a escolta de Whitney Houston em O Guarda-Costas (1992) – missão assaz perigosa, dentro e fora da telona. A diferença entre uma e outra é que no segundo caso, não há colete a prova de balas capaz de resistir ao tiroteio da imprensa.

No ano seguinte, o capanga de Whitney tomou juízo e firmou uma promissora parceria com Clint Eastwood. Um Mundo Perfeito (1993) apresenta o competente Costner na pele dum foragido que seqüestra um piá. A narração, apesar de batida (refém e seqüestrador viram amigos) tem seus bons momentos, mas não agradou o júri popular.

Em 1994, Wyatt Earp enfeiou de vez a situação. Amparado num belo elenco (Dennis Quaid, Gene Hackman, Bill Pullman, Michael Madsen e Isabella Rossellini), o remake marcou a última tentativa de Lawrence Kasdan em ressarcir seu companheiro. Considerando que a película não superou todas expectativas, acredito que, procurando evitar novos riscos, Costner tenha enfim perdoado Kasdan,.

Na medida em que sua fortuna aumentava, a reputação artística do rapaz seguia despencando de maneira alarmante. Sendo assim, a empreitada que se sagrou campeã de lucros foi também a gota d’água. Aliás, litros e litros de água.

Waterworld é certamente o filme mais molhado, caro e chato da história da sétima arte. Num futuro catastrófico, as calotas polares derreteram e o planeta foi completamente coberto de água. No quesito pretensão, tal roteiro só perde para o orçamento que estourava a todo instante, ultrapassando os US$ 175 milhões. Novamente, Costner comprovou ser sinônimo de blockbuster, mas como crítico não vive da grana das bilheterias, a fita foi bombardeada sem piedade.

Aqui Jaz?

Cambaleante e heróico, Costner apelou para um dos poucos rótulos que lhe restavam intactos: sua fama de galã. Para afogar as mágoas, nada melhor que uma enxurrada de água misturada com açúcar: O Jogo da Paixão (1996), Uma Carta de Amor (1999) e Por Amor de (1999). Pela trilogia, nota-se que o bonitão estava cheio de amor para dar. Entretanto, o que lhe sobrava de romantismo nas telas, faltou em afeto próprio quando decidiu produzir O Mensageiro (1997).

Costner parecia insistir na idéia de ser diretor, incorporando aquele espírito Dom Quixote de JFK e Intocáveis, só que agora na vida real. O resultado foi lastimável. Nem mesmo seu inegável carisma conseguiu atrair um bom número de espectadores. A crítica, é claro, deitou e rolou.

Com 13 Dias Que Abalaram o Mundo (2000), confirmou-se a preferência de Costner por temáticas esportivas e políticas – especialmente quando o assunto é John F. Kennedy. Neste, o diretor Roger Donaldson aborda a crise dos mísseis cubanos, no auge da Guerra Fria. Visando acalmar os ânimos globais, o falecido presidente decide engavetar uma intervenção na ilha de Fidel, o que para muitos (inclusive o que vos escreve) desencadeou seu misterioso assassinato. A grosso modo, digamos que 13 Dias Que Abalaram o Mundo é uma prévia de JFK lançada com considerável atraso.

No embalo matemático dos 13 dias, Costner arriscou 3000 Milhas Para o Inferno (2001), mas não obteve igual êxito. Ao lado de Kurt Russel, Kevin bem que podia ter deixado as fantasias de Elvis Presley no armário. Mais tarde, ele tentou desvendar O Mistério da Libélula (2002), que de bizarro, não tem só nome. O roteiro mistura pacientes terminais, espíritos do além túmulo e libélulas – sim, o título não é matafórico - e quem comanda a barca é Tom Shadyac, pai de Ace Ventura (1994), O Mentiroso (1997) e Todo Poderoso (2003). Embora todas as evidências indiquem uma comédia à lá Jim Carey, trata-se de um suspense pra lá de soturno, que dividiu opiniões opostas.

Eis que, disposto a recuperar seu orgulho, Costner voltou a apostar suas fichas no modelo Cownmovie, e como de praxe, se deu bem. Pacto de Justiça (2003) é um Western Clássico, com W e C maiúsculos, no qual podemos apreciar atuações de nomes de peso, tais quais Robert Duvall e Annette Bening. Sumido por uns tempos, nosso estimado cidadão voltou no drama A Outra Face da Raiva (2005), fazendo par romântico (e um tanto quanto alcoolizado) com Joan Allen.

Hoje na casa dos 50, Kevin Costner segue sendo uma incógnita. Seria ele um carismático ator que cansou da fama e resolveu fazer aquilo que lhe der na telha? Ou seria um cineasta de altos e baixos? Quem sabe, talvez, um camarada de vida feita? Enfim, onde está Kevin Costner? Olhando novamente para o fundo do quadro, encontraremos a resposta. Alheio em meio à multidão de celebridades, flashes e cifrões, lá está. De gorro, bengala e óculos fundo de garrafa. Um Dom Quixote bem resolvido.


(*) inauguro uma Nova Era para esta infame sessão intitulada Calçada da Fama. Chama-se Coluna-Passatempo. A moral é a seguinte. Se o leitor não achou a mínima graça no texto e não tem mais nada pra fazer, pode se divertir com brincadeirinhas idiotas.

Passatempo de hoje: Pegue uma lupa, enfie a cara no monitor e procure o Wally na primeira figura do texto.




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27/10 > Rapidinhas do cinema
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03/10 > Pacto de Justiça

 

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