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Produzir Quadrinhos é tomar decisões
Por Eloyr Pacheco — Segunda, 19 de setembro de 2005
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Produzir Histórias em Quadrinhos é tomar decisões e todas elas influenciarão diretamente no resultado da obra, tanto artisticamente como comercialmente.
Permita-me dissertar mais sobre isso: desde o momento em que você pensa no tema que irá abordar você já está tomando uma decisão. O tema é uma das decisões mais difíceis, creio eu. Infantil, juvenil e adulto. Por qual das três linhas básicas você optaria?
No infantil: algo como Disney ou Mauricio de Sousa? (Exemplificação esdrúxula, mas você entendeu a idéia!) Juvenil: super-heróis, paródia, quadrinizar a vida de um roqueiro... Adulto: algo “VertigoCrumb”, algo “Moebius”, algo “Marcatti”, algo “Mutarelli”...
Percebeu quanta decisão precisa ser tomada simplesmente para escolher um tema.
Exemplificando (e “aos quadradinhos”) na linha adulta:
Vertigo: com uma história com terror, umas pitadas de nonsense e erótico; Crumb: dia a dia de personagens complexos e, às vezes, entediantes;
Moebius: etéreo e viajado (estou falando de Garagem Hermética, claro!);
Marcatti, amor sem fronteiras e escatologia para todos os gostos;
Lourenço Mutarelli: personagens complexos em histórias complexas com roteiros complexos.
As diferenças, às vezes, entre os artistas e obras mencionadas podem, à primeira vista, parecerem pequenas, mas não são. (Reflita sobre a linha Vertigo e seus variados estilos.) E aí qual linha seguir?
Agora vem a questão do estilo a ser adotado. Que tal se você tivesse a idéia de fazer histórias como as que o Marcatti faz, mas optasse pelo estilo do desenho de Moebius? Será que funcionaria? (Não comece a divagar e pense em histórias como as do Crumb com desenhos no estilo do Marcatti, ou vice versa. Não vale!) E se você pensasse em histórias como as do Moebius e as quisesse no estilo do Mutarelli. Será que funcionaria?
Decidi: quero uma história erótica (sem apelações) no estilo realista? (Particularmente, acredito que você não estará inovando em nada. Sua história pode passar completamente despercebida.)
Bem, você que está lendo é um cara esperto e percebeu que o autor deste texto está escrevendo apenas sobre quadrinhos autorais e pensa que isso não funcionaria na linha industrial como os quadrinhos de super-heróis, por exemplo.
Ok! Você é um editor e recebe uma HQ do Lourenço Mutarelli para avaliação e possível publicação. Você a publicaria? Decisão difícil?
Não se pode acovardar no momento de se produzir (no sentido de realização ou impressão) uma História em Quadrinhos. E cada decisão terá influência diretamente. Outro exemplo: sua HQ adulta tem cenas eróticas pesadas, isso irá restringir seu público só pelo fato de você ter de vendê-las somente em livrarias ou distribuí-las em bancas ensacoladas, lacradas em saquinhos plásticos. Aí, há um outro problema: você pode ter sua HQ rotulada de pornográfica, mas você não imaginava isso. Você acha que Druuna, de Serpieri, é uma HQ erótica ou pornográfica?
Decidi: quero uma história erótica (com apelações) no estilo realista e com um “Q” de ficção científica? (Particularmente, acredito que você não conhece Druuna. Sua história pode ser considerada simplesmente um plágio da obra de Paolo Eleuterio Serpieri.)
Fazer quadrinhos é tomar decisões. Pense bem, antes de fazer e de imprimir. Mas, não seja covarde: tome decisões.
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