Entrevista com Sandro Garcia

Por André Mansur — Quarta, 14 de setembro de 2005

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Leves texturas em ares densos

Um dia desses, conversando com minha amiga e editora Cláudia Reitberger, da revista Rock Press, eu disse que havia acabado de receber o disco do Continental Combo, no que ela prontamente acrescentou, quase me atropelando: “A banda é foda. Aliás, tudo que o Sandro Garcia se envolve é maravilhoso”. Ela está certíssima.

O marco zero na música deste paulista de 36 anos foi há duas décadas, quando montou a mod Faces & Fases. Com propostas cada vez mais apuradas vieram depois o Charts, de 1990 a 98, e o Momento 68, que contava também com o gaúcho Plato Divorak (ex-Lovecraft). A banda terminou em 2003, dando início ao Continental Combo – uma espécie de continuidade do projeto anterior. Somente agora, depois de dois anos de existência, eles lançam seu primeiro CD, pela Monstro Discos.

Com o título homônimo a banda, o disco passeia pelo folk rock sessentista, com alguma psicodelia e permeado pela estética mod que acompanha o Sandro desde os tempos do F&F – Pete Towshend, influência confessa, é sentido em boa parte do disco. E toma Bufallo Springfield, Byrds e Syd Barret. É possível encontrar também ecos do Violeta de Outono. Natural, já que Sandro tem passagem pela banda paulista.

Entretanto não se espante com a quantidade de referências. Eu poderia citar outras; o Sandro mais ainda: o fato é que o Continental Combo é daquelas bandas que sabem receber influências diretas e dar um passo à frente, e não ser um mero pastiche do que já foi feito por outrem. As músicas possuem o ar denso de uma mega-metrópole como São Paulo em contraponto a sutileza de leves arranjos em guitarras de doze cordas.

Além de Sandro Garcia na voz e guitarra, o baixista Carlos Rodrigues (também ex-Momento 68) e o baterista Rogério Meni completam o trio.

Num papo por e-mail esta coluna conversou com o talentoso Sandro Garcia sobre seus enes projetos.

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SoBReCarGa - Já se acomodou na casa nova?

Sandro Garcia - Me mudei mas estou na mesma rua. No antigo endereço funcionava o estúdio Quadrophenia, onde realizei várias gravações. Ele funcionou durante sete anos. Nesse mesmo lugar morávamos a Consuelo (minha esposa) e eu. Acabamos nos mudando para um apartamento e o estúdio, como estava ficando caro demais, foi fechado provisoriamente e será montando em um novo endereço.

Como está repercutindo o lançamento do Continental Combo?

Poxa, o disco esta indo super bem. Fizemos alguns shows de lançamento que foram super positivos para a banda. Diferente do EPs que o grupo havia lançado e distribuído de uma forma mais modesta, este álbum, lançado oficialmente pela Monstro Discos, deu a possibilidade do Continental tocar em outros lugares e expor o nosso trabalho em um número maior de lojas pelo país.

É praticamente impossível desvincular o fim do M68 com o nascimento do Continental Combo. Qual foi o limite? Como essa separação funciona na sua cabeça -- se é que ela existe?

O início do Continental aconteceu no começo de 2003, quando o Carlos e eu resolvemos chamar o Rogério, para substituir o baterista que tinha acabado de deixar o Momento 68, que na ocasião era o Marcelo Badari. Não tínhamos a preocupação de que o estilo do Rogério tocar pudesse mudar algo no som que o M68 fazia. Ficamos pensando em criar uma nova banda, o que daria um ar novo ao trabalho com o Rogério. Foi o que acabamos fazendo. Em seguida adquiri uma guitarra de 12 cordas que contribuiu para personalizar melhor o estilo.

Você acabou de lançar também um disco solo, mas que contem músicas tanto do Continental Combo, quanto do Momento 68. Por que essa opção de seguir sozinho já que você participa de uma banda da qual é o principal compositor?

O disco foi gravado sem essa intenção de ser um álbum solo. Na verdade ele foi compilado a partir de várias gravações feitas no Quadrophenia em períodos diferentes. No disco há faixas inéditas, experimentações e outras músicas que serviram de demo para faixas gravadas pelo Continental Combo, Momento 68 e o The Charts. Cheguei a fazer um show de lançamento deste disco, onde fiquei só na voz e violão.

Além disso, ainda tem o Dellatrons. Explique um pouco a proposta e me diga como você faz pra se desdobrar em vários projetos.

Não é tão complicado quanto parece. Cada banda ou projeto tem o seu espaço. O Dellatrons, por exemplo (um duo que tenho com o Badari), surgiu das nossas experimentações em estúdio. Não é uma banda para tocar ao vivo. Gravamos faixas cada qual em seu equipamento e depois vamos misturando o repertório até se transformar em um disco. Lançamos três álbuns até agora, e estamos preparando uma coletânea destes discos somada a faixas inéditas. Acredito que basta não exigir tanto de cada banda e tudo vai fluindo. Com o Cadão (Volpato, eterno vocalista do Fellini) toco contra-baixo. Ele traz a música pronta, que recebe um arranjo da banda. O mesmo acontece com o duo Os The Darma Lóvers. Tive o prazer de acompanhá-los em alguns shows em SP, também tocando contra-baixo.

É impressão minha ou a cada estágio na “escala evolutiva Sandro Garcia” (F&F - Charts - M68 - CC) você se distancia, ainda que lentamente, da estética mod?

No início com o Faces tínhamos uma visão mais radical com relação ao som da banda. Queríamos soar como o The Jam ou o The Who. Com o passar dos anos você vai somando outras linguagens musicais mas nunca abandona suas influências. É isso que vem acontecendo. Algumas bandas ficam mais psicodélicas, ou às vezes mais folk, mas sempre há elementos em comum em todas elas.

Você escreve belas letras. Parece ser fácil pra você. Você lê muito?

Obrigado pelo elogio. Tenho uma certa preocupação com as letras. Às vezes uma música empaca por conta de não conseguir elaborar uma letra que combine com o som. Sempre tento deixar as letras distantes de um lugar comum.

Li mais no passado, e isso vale também para as HQs. Depois de montar o estúdio em 98, a minha leitura diminuiu vertiginosamente. O último livro que li no mês passado, foi de poesia coreana chamado "O Pássaro que comeu o Sol". Mas a fonte de minhas influências para as letras também está no cotidiano, em cenas de pessoas que circulam pelas ruas. Há material suficiente para muitas letras. Há cenas no nosso dia-a-dia de pura poesia e nonsense. E uma outra fonte de referências vem de filmes.

O Plato Divorak é uma figuraça, de talento indiscutível, mas que coleciona alguns causos bizarros. Você tem alguma boa história desses dias em que tocaram juntos no Momento 68?

São muitas as histórias em torno da figura do Plato. Ele é, e sempre será, um compositor genial. A gente sempre houve alguém contando uma nova história a seu respeito, um fato bizarro, onde ele marca sua presença em circunstâncias estranhas e enigmáticas. São histórias tão estranhas que chegamos a desconfiar se tudo não passa de ficção criada por um personagem imaginário chamado Plato Divorak.

Acredito que haja alguma verdade em todas estas histórias. É importante salientar que durante o período em que mantive uma proximidade maior com o Plato, isso tudo nunca atrapalhou ou foi sobreposto à nossa vontade de produzir música. O legal, quando se tem oportunidade de compôr em parceria com ele, é perceber a semelhança com que o músico Robin Hitchcock descreve (em um documentário) a respeito do processo de criação do Syd Barret. Ele comenta que Barret não escolhia as palavras nas suas letras, ele não ficava planejando se uma letra estava mais psicodélica ou não. Tudo que lhe vinha a mente era empregado na composição de uma forma natural e o resultado era sempre algo surpreendente. E é exatamente assim com o Plato. ¤



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