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Celebridades - Parte 1
Por Douglas Donin — Terça, 25 de novembro de 2003
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“Pelé flagrado fazendo compras!”
“Conheça os novos azulejos do banheiro da casa de Christiane Torloni!”
“Personal trainer da mãe de Luciano Szafir mostra a sua coleção de tênis esportivos!”
Estas e outras manchetes de utilidade duvidosa são facilmente encontradas em programas de TV, revistas de sucesso e sites populares na internet. Seria muito interessante estudar o porquê de as pessoas gastarem tanta energia, tempo e dinheiro para saber detalhes irrelevantes sobre pessoas que nunca influenciarão sua vida. Daria uma boa tese de sociologia ou psicologia. No entanto, isso fica para outra pessoa: cabe a mim analisar apenas os efeitos que isto traz ao mundo trash.
Vejamos nesta coluna o exemplo do cinema nacional recente (com “recente”, eu digo de dez anos para cá). Já repararam como, tirando algumas obras cinematográficas genuínas (como Cidade de Deus, Carandiru, Lisbela e o Prisioneiro, entre outros), nosso cinema comercial - “cinema para ganhar dinheiro” - é baseado no conceito de “filmes com celebridades”?
Em 2001, o lançamento de A Sociedade do Anel - de longe, o filme internacional com mais força lançado na época - teve que ser atrasado alguns dias para não bater de frente com o horrendo Xuxa e os Duendes, a volta da “Rainha dos Baixinhos” às telas. Anéis foi aclamado, Duendes foi execrado pela crítica - mas ganhou rios de dinheiro.
Um ano depois, O Senhor dos Anéis voltava aos cinemas com As Duas Torres, agora com quatro Oscars na bagagem e uma legião de fãs - e com um nome já consagrado, com muito peso. Ora, a lógica dizia que a prioridade no lançamento deveria ser concedida a ele, não?
Mas quem falou em lógica? As Duas Torres também foi chutado para a frente, para um lugar bem seguro, longe do verdadeiro arrasa-quarteirão do ano, Xuxa e os Duendes 2. As críticas acompanharam a tendência do ano anterior, mas a dona Maria da Graça continuou lucrando.
Este ano, temos o terceiro e último round da briga, com Xuxa: Abracadabra, o novo “filme” da popular loira, enfrentando uma das mais esperadas produções de todos os tempos, O Retorno do Rei. E adivinhem? O Rei vai ter que esperar um bom tempo para retornar, pelo menos até a Rainha fazer o seu saque nos bolsos dos pais de todo o Brasil. De novo, O Senhor dos Anéis - e todos os outros - vai comer as sobras.
Mas o que diabos tem nestes malditos filmes? Serão obras repletas de revoluções técnicas? Teriam um enredo ou uma história sensacional? Atuações marcantes?
Que nada. São puro lixo. São obras descartáveis, que, como filmes, só servem para provocar risadas em trashmaníacos inveterados como este humilde colunista e seus formidáveis leitores. O que torna estes produtos – eu disse produtos – tão fortes?
NOMES. São filmes de pessoas – não sobre pessoas, mas DE pessoas. Ninguém vai ao cinema ver a Kira, Kara ou qualquer outro personagem que a Xuxa interpreta, mas sim, vão ver a própria Xuxa. Se ela aparecer acompanhada “por pura exigência da narrativa” da sua filha Sasha, de Luciano Szafir, de alguém que tirou a roupa no último Big Brother, um ou dois cantores sertanejos canastrões, Gugu Liberato e a Ana Maria Braga – ou seja, qualquer um, menos atores de verdade – mais lucrativo o negócio fica.
Essa é a base do cinema comercial nacional moderno. Entre um ou outro filme artístico sério, o que leva multidões aos cinemas são filmes onde o carro chefe são um ou mais nomes conhecidos – Xuxa, Renato Aragão, Padre Marcelo Rossi e outros. O fato da chamada “retomada” ter trazido de volta do mundo dos mortos o conceito de cinema-arte - cinema enquanto manifestação artística - não muda muito o fato de que nosso comercial - cinema enquanto investimento - é uma completa vergonha.
Para entender a evolução desse verdadeiro gênero, o “cinema-celebridade”, não é necessário que ninguém leia a última edição do “Cinema Nacional para Dummies”. Basta olhar um pouquinho para o passado recente.
O Brasil tinha uma produção saudável – pobre, porém honrada – nos anos 70 e 80. Nada muito grande, apenas o suficiente para dizer que HAVIA um cinema nacional. O fato de a maioria dessas produções trazer a Xuxa, a Vera Fischer e a Christiane Torloni - assim como metade do elenco da Globo - em cenas de sexo explícito e que hoje passam no Cinê Privê da Bandeirantes não importa; o fato é que HAVIA um cinema.
Mas aí, um homem muito cruel e malvado chamado Fernando Collor resolveu acabar com os incentivos ao cinema nacional – isso só por que ele gostava bastante de ser cruel e malvado. Como o meteoro que acabou com os dinossauros, ele conseguiu extinguir a nossa humilde porém constante produção nacional, acabando com a base de toda a cadeia alimentar: a grana.
Seria o fim do cinema no Brasil, se não fosse a intervenção de uma força maior do que qualquer outra na natureza: a Rede Globo. A única entidade nacional capaz de financiar aventuras cinematográficas em tempos de vacas magérrimas continuou tranqüilamente a produzir seus filmes, como se nada tivesse acontecido. O problema é que os antigos filmes da Globo (e a maioria dos recentes) não tinha intenções exatamente artísticas, e sim, intenções de ganhar dinheiro explorando a fama de seus astros – principalmente os Trapalhões e a Xuxa. Para isso, contavam com a improvável cumplicidade do astros de outras emissoras, como Gugu Liberato, Sérgio Mallandro, os grupos Polegar e Dominó.
A situação não mudou muito, e esse gênero se mantém com sucesso: por muito tempo, esses filmes foram sinônimo de “cinema” no Brasil. A tradição estava feita e, por um movimento de inércia criativa, essas obras continuam com a mesma força de antes. E se não fosse pelo exemplo hercúleo de uma valente jovem chamada Carla Camuratti, com seu heróico Carlota Joaquina, ninguém perceberia que produzir cinema com alma no Brasil seria possível.
Embora Carlota tenha sido a pedra da fundação da retomada, a viabilidade econômica só veio com Central do Brasil, adotado pela poderosa Miramax. O filme nem era tão bom assim – aliás, não era nada bom – mas serviu para entreter os gringos e indicar Fernanda Montenegro a um Oscar que não merecia (esta é a parte onde os nacionalistas me jogam pedras), em uma cerimônia a que todos assistimos com a camisa da Seleção.
Cidade de Deus – um filmaço em todos os aspectos – foi a cereja no topo do bolo. É o filme para esfregar na cara de quem gosta de dizer que “cinema nacional não presta”. Mas aí, leitores, já estamos entrando no campo dos “filmes bons”, dos quais a nossa coluna não trata. Nossa especialidade fica no guichê ao lado.
Temos um gênero no cinema hoje que sobrevive à base da exposição de figuras públicas. O que diabos faz Daniel em um filme? E o grupo Fat Family? Talvez o mesmo que o grupo musical pré-fabricado Rouge, presente em Xuxa: Abracadabra, o novo “filme de Harry Potter” da Xuxa. O que teremos no futuro próximo, Kléber Ban-Ban? Jogadores de futebol? Ops, já temos isso...
Esta coluna continua na semana que vem, quando trataremos dos “filmes-celebridade” pelo mundo afora e das consequências trágicas – leia-se, “bombas” – que esse gênero nos trouxe.
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