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Ken Parker é a melhor opção
Por Rafael Lima — Terça, 25 de novembro de 2003
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Tese: Ken Parker é a melhor série contínua editada no Brasil, hoje. Metodologia: demonstrar essa tese traçando um paralelo entre Ken Parker e outra criação italiana, Corto Maltese, um dos melhores quadrinhos de todos os tempos e, não coincidentemente, criado no mesmo ano de Parker, 1974.
Apesar de só ter se convertido em série a partir de 1977, em acertadíssima decisão editorial de Sergio Bonelli, Ken Parker teve sua primeira história publicada em 1974, ano que marca o início da publicação da saga A Balado do Mar Salgado, primeira aparição de Corto Maltese e de toda a mitologia criada ao seu redor por Hugo Pratt. Duas crias, portanto, da década de 70, a década da Métal Hurlant, da Heavy Metal e da Mafalda. O sonho já havia acabado, varrendo junto inocências ou ingenuidades baratas. O noticiário fora invadido por seqüestradores árabes, lavagens cerebrais, seitas suicidas, assassinos seriais e a crise do petróleo. O imaginário cinematográfico passou a ser habitado por tubarões, exorcistas, poderosos chefões e violência de Peckimpah, Scorcese, Siegel. Era razoável que os heróis amadurecessem. Ken Parker é uma versão mais humanizada e adulta do arquetípico caubói de gibi, enquanto Corto Maltese, com suas aventuras passadas no começo do século XX, evoca o último suspiro do romantismo, do tempo em que os rifles só davam um tiro, os vilões eram lombrosianos e as mulheres, mais do que bonitas, eram sedutoras, suaves, misteriosas.
Ken Parker é o melhor western em quadrinhos de todos os tempos, ponto. Nem me venham falar de Blueberry, grande criação de Charlier e Giraud, mas refém do palavrório excessivo e redundante que infesta qualquer criação francesa para gênero de ação, além do fardo da antologia em capa dura e impressão de luxo, onde o preciosismo “artístico” não raro atrapalha a fluência narrativa. Ken Parker nunca teve esse problema, por ter sido desde sempre feita para vender em banca, impressa em preto e branco e reproduzível até em papel vagabundo (ou quase), como nas edições da Vecchi para a maravilhosa técnica aguada de Ivo Milazzo. Também pela necessidade de completar as páginas mensais, o ritmo de Ken Parker é perfeito, ótimo para ler em ônibus e recheado de cenas de ação ininterruptas, brigas de punho e perseguições de tirar o fôlego. O que é melhor: combinadas com diálogos bem escritos, armadilhas de roteiro intrincadas, até mesmo referências culturais cruzadas – novamente, como Corto Maltese.
Ken Parker não é o tal “quadrinho para intelectuais”, como Norman Mailer apodou Sandman. As citações que contém não são o mais importante; pelo contrário: estão diluídas em meio à narrativa, aparecendo como idéia visual base para um personagem (o próprio Parker é inspirado no Robert Redford do filme Jeremiah Jones, inclusive ostentando uma barba que depois foi devidamente raspada; Marylin Monroe inspirou uma atriz para uma edição especial), como um comentário casual na hora apropriada (ao chegar em Washington, sentido o isolamento típico das ruas de uma capital, Ken Parker comenta consigo mesmo: “estar só é estar sozinho numa cidade desconhecida”) ou como uma citação no cenário: um livro que o personagem esteja lendo, um quadro na parede. Exatamente como acontece em Corto Maltese, cujas viagens pelos quatro cantos do planeta empurram a narrativa para a frente, enquanto embalam o leitor com cenários paradisíacos, coadjuvantes pitorescos (para dizer o mínimo) e um sentimento de nostalgia irrefreável. Quando um personagem faz uma referência, você realmente acredita que ele leu o livro ou conheceu a pessoa sobre quem estava falando; há um parentesco visível entre os universos fictícios.
Assim como a publicação em partes obrigou Pratt a recortar suas histórias em capítulos mais curtos, hoje reunidos em álbuns como Sob o Signo do Capricórnio (com as aventuras de Corto no Brasil) ou As Helvéticas, sem no entanto comprometer a qualidade final nem dos desenhos, nem do roteiro (lidos em seqüência, os capítulos mostram a coesão de um projeto maior), a periodicidade mensal das 96 páginas (!) não impediu Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi (com o auxílio dos desenhistas G. Alessandrini e Bruno Maraffa) de criarem pequenas obras-primas do quadrinho. E quando o ritmo cansou, depois de mais de cinco anos, eles puderam se dedicar a histórias fechadas mais bem cuidadas ou experimentais (como a pantomima Um hálito de gelo ou Um príncipe para Norma), em álbuns fechados – exatamente como fez Hugo Pratt quando se viu livre das limitações de espaço, em Fábula de Veneza ou A Balada do Mar Salgado.
Para encerrar, a arte. Agilizada em função da velocidade e estilizada por opção, economizando linhas, Ivo Milazzo o criador gráfico, atiça a imaginação do leitor valendo-se de espaços neutros e formas esboçadas. Dos desenhistas que se ocuparam do personagem, é o que melhor domina a linguagem dos quadrinhos, com cortes rápidos, planos inesperados em boa alternância, quebrando a monotonia visual. Grande fisionomista, define cada rosto com mínimo de traços, sem cair na caricatura. Exatamente como Pratt, por vezes tão instável no traço que alternava as aparências dos personagens de página para página; que diminuiu o peso das páginas, reduzindo as áreas negras, a partir do momento em que elas passaram a ser coloridas e que, com duas linhas, transporta o leitor para uma praia deserta na Micronésia: Milazzo não precisava mostrar o detalhe de cada ripa da parede para levar o leitor a um passeio pela zona perigosa da San Francisco da corrida do ouro, ou fazer cada floco de neve para o leitor sentir o frio de uma tempestade de neve no Alasca. Estava tudo ali, nas manchas, na espontaneidade dos traços.
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