Flatos e Boatos

Por Elias Lascoski — Terça, 13 de setembro de 2005

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Há uma diferença básica que delimita a fronteira entre o ofício de jornalista e sua especificidade mais conhecida, o repórter. O repórter (à exceção dos grandes e consagrados) normalmente entrou na profissão buscando glamour, almejando a credencial para freqüentar altos círculos sociais. Só ele tem saco para agüentar madames, pretensos literatos, políticos espertinhos e empresários ignorantes, além das falcatruas de seus patrões. Desconsiderando suas qualidades, seu maior defeito é ser fútil. O jornalista que não faz reportagens propriamente ditas (com entrevistas e pesquisa de campo) costuma ser curioso (nos dois sentidos). Que o diga Marcelo Duarte. Tem um parafuso a menos, reclama de coisas comezinhas (como legendas sem contraste) e diz coisas que ninguém entende, mas é bastante divertido, apesar de escrever artigos, muitas vezes, inúteis. A preguiça é seu maior defeito e sua maior virtude. Enquanto o primeiro adorava brincar de “É, Não e Porque”* nos idos de sua infância, o segundo já se divertia lendo Kafka, e explicando para os amigos a relação do autor com os Inimigos do Rei. Também é de seu feitio colecionar baboseiras, e tentar convencer os convivas de sua importância. É um tipo de carma.

Alessandro Bender, por exemplo, fez o que se esperava dele. Percebendo aquilo que todos percebem, mas ninguém dá a mínima, coletou em dois livros aquelas notícias difíceis de se acreditar, e que não servem para nada. São notícias que, trágicas ou cômicas, acabam sempre desembocando no riso. E não são notas sensacionalistas nem fatos surreais do tipo “enfermeira dá à luz um macaco” ou “dois carecas brigam por um pente”. São acontecimentos pautados na nossa sempre surpreendente realidade, e se prestarmos atenção, veremos que acontecem a todo momento. Não são poucos os que colecionam recortes deste tipo de notícia extravagante. Lendo o livro de Bender As Notícias Mais Malucas do Planeta notei que não são poucos os apreciadores de uma boa esquisitice. Bender não foi o primeiro a ter vontade de publicar deliciosas ninharias, e tampouco foi o último. Eu também tenho um potpourri de abobrinhas cuidadosamente selecionadas.


Como não tenho muito tino jornalístico, acabei apurando alguns flatos impossíveis de fugirem ao meu faro de repórter. Tratam-se de notícias cinetíficas publicadas em respeitados jornais on-line, todas com o mesmo tema: a flatulência. Tema, aliás, passível de certos, digamos, pruridos, e que raramente tem uma válvula de escape (!). Pouco se fala sobre esse assunto na mídia, à exceção do Casseta e Planeta e do Menino Maluquinho. Aproveito então a lacuna deixada pelo colega Alessandro, para escrever aqui o capítulo que ele jamais publicou. Tape bem suas narinas, porque aí vêm “as dotícias bais fedidas do bundo!”. Leia sem preconceitos, pois peidare humanum est.


Abra bem os olhos e feche bem o nariz. Um jornal chinês afirma: os dinossauros não foram extintos devido a um meteoro ou a qualquer outra catástrofe semelhante, mas sim por causa de suas possantes emissões de gases, que terminaram afetando a camada de ozônio. Segundo o Diário da Juventude de Pequim, os flatos dos dinossauros continham uma grande proporção de metano. “Os animais, pesando entre 80 e 100 toneladas, devoravam em média entre 130 e 260 quilos de alimentos por dia. Eles soltavam gases sem parar”, explicou o jornal.

Aperta que ele peida. Em abril de 2002, um dinamarquês sofreu várias queimaduras graves nas nádegas e nos órgãos genitais após um ataque de “puns” durante uma cirurgia. Isto ocorreu justo quando um médico usava uma faca elétrica para retirar uma verruga das nádegas do paciente, que estava desacordado. Uma fagulha causou uma pequena explosão. "Quando eu acordei, meu pênis e testículos estavam queimando como o inferno", disse o homem ao jornal dinamarquês BT.

Gases nocivos. O Governo neozelandês anunciou no ano passado a criação de um imposto sobre os peidos dos animais. A medida estudada e descartada propunha taxá-los entre US$ 2 e US$ 30, respectivamente, por cada ovelha (que são mais de 43 milhões no país) e vaca (12 milhões). O imposto seria cobrado como forma de reparação pelo gás metano expelido pelos animais durante o processo digestivo, que representa a metade do total de gás metano que a Nova Zelândia emite, e que causa o efeito estufa.

Fashion. Quem pensa que carvão serve apenas para fazer churrasco, certamente nunca ouviu falar da Under-Ease, uma roupa íntima com filtro que anula o mau cheiro dos peidos (malodorus flatus). Buck Weimer, 62, de Denver, Colorado, EUA, idealizou a roupa numa noite de 2001 em que sua esposa peidorreira estava lançando terríveis "bombas" gasosas. Trata-se de uma cueca ou calcinha com uma espécie de almofada, semelhante a um absorvente íntimo feminino, que age como um filtro contra o mau cheiro. É feita de náilon e poliuretano, sendo o filtro com uma parte central de carvão ativado e duas camadas de lã de carneiro.

Saúde! Há uma doença conhecida como Síndrome do Intestino Irritável. Acredita-se que alterações nos movimentos que propagam o alimento desde a boca até o ânus (motilidade intestinal) e nos estímulos elétricos, responsáveis pelo movimento peristáltico, estejam envolvidos. O sintoma mais comum dessa doença é a distensão abdominal, seguida de sensação de estufamento e excesso de gases. Contra esse mal, cientistas indianos desenvolveram uma tecnologia que usa radiação. Já no Brasil e em outros países da América Latina toma-se o chá de Borututu. “É tiro e queda”, afirmou um índio de uma tribo no Acre.

Houston, temos um problema. A NASA tem proibido há um certo tempo que astronautas enviados ao espaço ingiram certos alimentos conhecidos pela produção de gases que provocam a eructação (como ovos e feijões). A alegação é de que os gases, se expelidos no interior do traje hermético, danificariam o material de que são feitos, podendo comprometer a segurança dos viajantes espaciais.

Piada de português. Segundo Mário Prata, em Portugal o peido também é conhecido como “breque”.


*“É, Não e Porque” é uma divertida brincadeira que consiste em articular uma série de perguntas induzindo o desafiante a mencionar qualquer uma das palavras do título em suas respostas, situação que dá a vitória ao inquiridor. Em um nível avançado, pode-se tentar fazer o depoente mencionar as três palavras em uma única sentença. Ninguém jamais conseguiu essa façanha.
Direcionar o entrevistado a dar somente respostas pré-concebidas pela pauta é a principal incumbência dos repórteres, daí o jogo infantil ser um ótimo treino para eles.

No jukebox: Redemption Song - Bob Marley; e What I like About You – The Romantics.



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