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E Spielberg, infelizmente, acertou de novo
Por Gustavo Ferraz — Sexta, 9 de setembro de 2005
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Em 2002, o diretor Steven Spielberg lançou Minority Report – A Nova Lei, aquele que talvez seja seu filme mais político. Em pleno verão americano, o longa discutiu o sacrifício de liberdades individuais em nome da segurança. Preocupados apenas com o recorrente otimismo dos finais de Spielberg, os críticos observaram timidamente o teor provocativo da obra. E mesmo assim sublinharam somente o problema específico da perda de privacidade – trata-se de um tema relevante, mas subjacente no filme.
As tensões preliminares e finalmente o estouro da guerra contra o Iraque, em março do ano seguinte, deram à produção um assustador caráter profético (e profecias, curiosamente, são o mote do roteiro). Baseado em um conto do escritor de ficção científica Philip K. Dick, Minority Report se passa no ano de 2054, em Washington, D.C., onde os assassinatos são previstos por três paranormais a serviço da polícia. Com isso, os acusados são presos antes de cometer o crime, e condenados normalmente. Sérios questionamentos éticos surgem daí, é claro.
Quando George W. Bush declarou guerra a Saddam Hussein, estava colocando em prática o conceito de guerra preventiva. “Atirar primeiro e perguntar depois”, em termos diretos. Bem parecido com o que acontece no filme de Spielberg, não? E, agora sim, parecido com o tema principal do filme. Ganho o conflito (embora ao preço que vemos todos os dias nos noticiários), a invasão do Iraque mostrou ser uma grande mentira, já que as tropas americanas e aliadas não encontraram as armas de destruição em massa que os senhores da guerra juraram existir.
Isso no plano macro. No micro, o “sistema preventivo” analisado em Minority Report pode ser exemplificado pela morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um dos terroristas de 7 de julho pela polícia de Londres. Um fato que, na desesperada luta contra o terrorismo, certamente não é um caso isolado. Quantas pessoas de origem árabe não enfrentam barreiras inaceitáveis no mundo Ocidental, sob o argumento sujo da “prevenção”? Nas democracias liberais, há pouco tempo para pensar se há alguma diferença entre uma vigilância justa nos aeroportos e as medidas que passam além da conta.
Três verões depois
Spielberg dirigiu três filmes depois de Minority Report (e já está trabalhando no quarto, Munique): a aventura Prenda-me Se For Capaz, a comédia O Terminal e, este ano, a ficção científica Guerra dos Mundos. No último, uma adaptação do clássico de H.G. Wells, publicado em 1898, acompanhamos a história de um homem divorciado que passa o fim de semana com os filhos quando, subitamente, tempestades atingem a Terra e máquinas de guerra alienígenas emergem do chão.
Durante a ansiosa espera pelo lançamento, uns apostaram que Spielberg usaria a trama como uma alegoria crítica dos EUA pós-11 de setembro. Outros defenderam que ele exaltaria a sede de retaliação ianque. Quando o filme estreou, cada lado confirmou sua tese – isto é, a obra possibilita as duas visões, ou em outras palavras, não defende nenhuma das duas.
A opção de Spielberg por não transformar o filme em um editorial é completa, não se restringindo às leituras políticas. Em toda a projeção, o público tem as mesmas experiências do protagonista, filmadas quase como um documentário. Há ações dos extraterrestres sobre as quais o personagem só pode especular. Aos espectadores é fornecido pouco mais que isso, portanto também a eles só resta imaginar. Aí está a beleza dessa enésima versão da obra de Wells.
O realismo impresso no roteiro de David Koepp só assume seu lado mais sombrio, contudo, quando os homens passam a lutar não contra os ETs, mas contra os próprios homens. Essa visão hobbesiana já estava presente no livro, e pode ser sintetizada na cena em que a multidão toma o carro do protagonista, o único a funcionar no meio daquele caos. Há momentos de altruísmo, mas são raros. A câmera de Spielberg é especialmente irônica no plano em que desce de uma placa de doação de sangue para uma corrida desleal pela sobrevivência (repare, na cena da balsa).
A passagem do furacão Katrina, na última semana, por cidade americanas no Golfo do México, como Nova Orleans, desembocou em um cenário semelhante. No bojo da destruição, os desabrigados saqueiam o comércio, que por sua vez eleva absurdamente os preços. A polícia responde com tiros, os civis também. Alguns se suicidam. Gangues aproveitam a calamidade para se enfrentar. A solidariedade existe, a ajuda humanitária internacional e as equipes de salvamento estão aí para provar. Mas até os suprimentos de emergência se tornaram meio de chantagem. Já foi dito que se não houver ordem, a ajuda não será entregue.
Como a história se passa nos Estados Unidos, é impossível não pensar em Guerra dos Mundos. Na tese de que “o homem é o lobo do homem”. Ao final do filme, o pai consegue chegar à casa da ex-mulher, área nobre de Boston. A casa está intacta, um desses milagres spielberguianos que tanto irritam a crítica e parte do público. Até pelo contraste com a humilde casa de nosso personagem central, que logo no começo fora pelos ares.
Espantosamente, entretanto, o mesmo acontece na tragédia real de Nova Orleans, onde negros, hispânicos e os mais pobres em geral são as principais vítimas. Ou Spielberg é um vidente de mão cheia, ou tem a sofisticação artística que muitos lhe negam. Consegue, três verões depois, fazer de novo da ficção científica uma alegoria assustadora do mundo real.
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