Nós vimos: A Luta pela Esperança

Por Gustavo Ferraz — Quinta, 8 de setembro de 2005

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Primeiras impressões

Os primeiros segundos de A Luta pela Esperança exibem fotografias reais do boxeador James J. Braddock, que se sucedem lentamente enquanto sobe uma trilha dramática ao fundo. É assim que começa mais uma biografia protagonizada por Russell Crowe, dirigida por Ron Howard e escrita por Akiva Goldsman? A impressão é de que a equipe está tentando repetir a fórmula de Uma Mente Brilhante, ganhador do Oscar em 2002.

Era só impressão. Um corte inesperado pula de uma das imagens em preto-e-branco e estáticas de Braddock para o rosto raivoso de Crowe, o gladiador romano usando luvas de boxe, procurando o rosto de um adversário no ringue. O filme começa de verdade, e o que vemos nos 140 minutos seguintes é uma síntese dessa abertura: um filme correto enquanto narra a vida pessoal do protagonista e outro filme, muito melhor, que registra sua trajetória esportiva.

O primeiro filme, portanto, mostra o Braddock pai de família, com as dificuldades que podemos esperar se o contexto é a Grande Depressão dos anos 30. Ele tem a esposa (Renée Zellwegger) e três filhos para sustentar, mas mal consegue trabalho nas docas de New Jersey, sua única opção desde que uma contusão o tirou das lutas. O segundo narra exatamente o retorno de James ao boxe, revelando-se um azarão das antigas que inesperadamente vence luta atrás de luta.

Os dois filmes, contudo, se unem quando a volta vitoriosa de Braddock passa a simbolizar para o povo americano a esperança de triunfar sobre a miséria (razão de seu apelido na época, "Homem-Cinderela"). Aí está a originalidade maior de sua biografia, e a razão de existir de uma produção cinematográfica envolvendo artistas tão fortes na indústria americana. Na verdade, a biografia é original, mas a cinebiografia, nem tanto: em 2003, o drama de jóquei Seabiscuit – Alma de Herói trazia o mesmo raciocínio.

O mesmo, porém, com um esporte diferente. Nesse aspecto, Ron Howard garante o valor do seu ingresso ao filmar – e principalmente editar – cenas de luta arrepiantes. E aqui ele realmente inova, favorecido, é claro, por equipamentos de última geração. A câmera do diretor vê a luta de muito perto. Ora está no meio dos desafiantes, ora funciona como o ponto de vista de um deles (e neste caso é bom a platéia se preparar para tomar alguns socos).

O melhor achado aparece na mesa de edição, cargo dividido por Mark Hill e Daniel P. Hanley. A dupla aproveita os flashes de máquinas fotográficas nos ginásios e estádios para congelar os principais golpes durante frações de segundo. O recurso potencializa inacreditavelmente a tensão que o cinema, de Touro Indomável a Menina de Ouro, sempre extraiu do boxe e, ao mesmo tempo, torna as estratégias de luta mais compreensíveis para o público – Ron Howard é por excelência um cineasta preocupado com o público, em primeiro lugar, embora este longa tenha sido excepcionalmente um fracasso nas bilheterias.

Se as seqüências esportivas são fantásticas, o “drama-anos 30” é apenas burocrático. O filme aparenta bem menos que suas 2 horas e 24 minutos, mas só depois de uma apresentação da vida miserável da família Braddock. Uma apresentação didática demais, diga-se de passagem. Russell Crowe, apesar disso, surpreende (repare na cena em que ele chega de uma luta e conta o resultado aos filhos, ansiosos), mas Renée Zellwegger se destaca menos que os atores-mirins.

O problema, certamente, não é displicência do diretor, que dá sinais de um cuidadoso desenvolvimento do roteiro. Não é à toa que a fotografia de Salvatore Totino carrega de tons sombrios as cenas ambientadas no pobre lar dos Braddock, em contraste com a claridade da área nobre de New Jersey, onde vivem os chefões das apostas – o empresário de Jim, interpretado por Paul Giamatti (o escritor de Sideways), também mora na região, mas aparenta mais do que possui, fato revelado numa das poucas seqüências brilhantes do filme-fora-dos-ringues.

A burocracia está no texto, certinho em excesso. Na comparação com Uma Mente Brilhante, desta vez o roteirista Akiva Goldsman (que deu o ponto final numa obra conjunta de Cliff Hollingsworth e C. Gaby Mitchell) não tinha consigo o diferencial do filme – que em 2002 era uma reviravolta no enredo, mas em 2005 são as cenas de luta, mérito da direção e da montagem. E acabou escrevendo diálogos, situações e personagens expositivos demais, que funcionam apenas na medida do necessário.

Outra característica do roteiro, mais complicada de se analisar, é a estrutura narrativa incomum. O filme se chama Cinderella Man. A maneira clássica de desenvolver a trama seria narrar, em no máximo uma hora, a transformação de Jim Braddock no tal "Homem-Cinderela"; no resto da projeção, o herói já devidamente apelidado enfrentaria vários obstáculos até um conflito final. O que acontece na tela é diferente: todo o filme é um percurso até que Braddock se torne o "Homem-Cinderela". O país só se encontra verdadeiramente mobilizado por ele na última luta. É como se a fábula de Cinderela contasse os preparativos do grande baile e terminasse à meia-noite.

Ao contrário da burocracia dos diálogos, essa estrutura atípica não é facilmente condenável. O fim da carreira do boxeador, apresentada nos letreiros habituais dos docudramas, justifica a escolha. Trata-se muito mais de uma polêmica, que pode agradar a alguns e incomodar outros. Claramente, uma das vantagens é a fluência da história. A principal desvantagem é a sensação de um filme homogêneo, monocórdio: tendo chegado ao fundo do poço, o protagonista só tem a melhorar. Ao menos, nos resta torcer por ele quando o cinema se transforma em uma arquibancada, digna da que Rocky Balboa teve a seu favor na década de 80. ¤




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