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Nós lemos: Rolando
Por Felipe Meyer — Quinta, 8 de setembro de 2005
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Uma obra primorosa para os amantes dos quadrinhos e os aficionados por contos épicos. 
Os premiados irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá podem comemorar aos risos. Rolando, a primeira obra da dupla a ser publicada, chega finalmente aos leitores brasileiros pela Via Lettera numa edição belíssima e de acabamento primoroso, num formato de luxo raro entre os quadrinhos criados neste país.
Para quem nunca teve contato com os autores de Dez Pãezinhos, é um perfeito primeiro contato. Para aqueles que já são fãs dos gêmeos, é uma ótima oportunidade de avaliar a evolução de seu trabalho. A dupla ainda está, em Rolando, bastante distante de seu melhor momento, insistindo em alguns vícios narrativos e em um conjunto de quadros bastante heterogêneo. As últimas dez ou quinze páginas parecem ter sido desenhadas com anos de diferença, apresentando um estilo muito mais conciso do que se vê no restante do livro.
Isso não diminui, de forma alguma, a beleza da história, que mesmo nas mais sangrentas cenas de batalha consegue emitir um apanhado de cores e emoções que prendem o olhar do leitor. O maior ponto fraco de Rolando está exatamente em suas palavras.
Como fica claro na introdução de Shane Amaya - o escritor norte-americano que de certa forma descobriu Bá e Moon e os encarregou de dar vida a Rolando -, a história do orgulhoso general franco surge de uma antiga narrativa que passou 300 anos sendo transmitida pela tradição oral antes que fosse eternizada no papel. Fica a dúvida se Amaya transcreveu de forma exageradamente fiel a Canção de Rolando para as páginas do livro ou se a dificuldade de entendimento de certos trechos é culpa da tradução para o português. Independente dos motivos, é fato o exagero de narração numa obra gráfica tão detalhada. Muitas cenas falam por si só. E em alguns momentos, sequer coincidem com o que está sendo narrado em texto.
É no conto em si que Amaya mostra todo o seu talento como roteirista, com diálogos carregados de paixão e sentimentos puros - como fraternidade, honra e vingança - que talvez só possuam significado verdadeiro nas antigas histórias sobre heróis que ajudaram a mudar e mover o mundo. A relação entre Rolando e Olivier conquista e emociona, sem chegar a sugerir uma ligação efeminada entre os irmãos de batalha. Se de um lado Carlos Magno representa a figura do pai carinhoso mas de pulso firme, do outro Ganelão representa o arquétipo perfeito do vilão, o irmão traiçoeiro que acredita estar fazendo o melhor para seu senhor e acaba se cegando frente às suas próprias ambições. Marsilo, senhor da Espanha, e Baligante da Babilônia são meros peões no tabuleiro do traidor, que é constantemente representado com a cabeça abaixada, como que ciente de sua vergonha.
Rolando é uma obra primorosa que deve ser desfrutada não só pelos amantes dos quadrinhos mas também pelos aficionados por contos épicos e boas histórias de aventura, pois reúne os principais elementos da Jornada do Herói, fórmula presente em todas as épocas e culturas e que pode inclusive ser identificada em sucessos modernos como Matrix e Guerra nas Estrelas. ¤
Rolando. Texto: Shane Amaya. Arte: Fábio Moon e Gabriel Bá. 128 páginas. Editora: Via Lettera.
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