Uma exaltação perigosa do machismo. Feita por mulheres.

Quando um cineasta homem realiza um filme machista, é claro que estamos diante de uma atitude detestável. Contudo, tal atitude consegue ser mais destestável ainda quando o filme machista é escrito e dirigido por mulheres, e, pior, julgando-se feminino e até mesmo feminista (!!). Esse é o caso do primeiro filme produzido pelo SBT,
Coisa de Mulher, uma inacreditável exaltação do machismo escrito pelo grupo de mulheres humoristas do
Grelo Falante e dirigido por
Eliana Fonseca (que também auxiliou no roteiro, assim como um único homem, o ator
Evandro Mesquita).
Mesquista, aliás, é também o protagonista do filme e o único homem do elenco a ter um papel importante - ele interpreta Murilo, cronista que, sob o pseudônimo Cassandra, escreve para uma revista feminina e está prestes a ser demitido (seus textos não conseguem penetrar na alma da mulher). Com a situação financeira apertada, ele vai morar de favor em um prédio cujas demais moradoras são todas mulheres - a exceção dos maridos e filhos destas, completos coadjuvantes na trama, e que aparentemente só existem para configurar a condição de "casada" de algumas e criar alguns relacionamentos afetivos sem muito vigor para a estória.
As moradoras do prédio são as próprias humoristas do
Grelo Falante e roteiristas do filme: Catarina (
Lucília de Assis), Dora (
Carmen Frentzel), Graça (
Cláudia Ventura) e Mônica (
Suzana Abranches). Há mais uma moradora, Mayara, vivida por
Adriane Galisteu. E talvez a única boa surpresa do filme seja o fato de que a apresentadora obteve um bom desempenho, compondo uma personagem leve, despachada e bem divertida. Quanto às humoristas, o resultado é desigual, com um certo destaque para
Lucília de Assis. Ventura nos oferece uma Graça inteiramente estereotipada, Abranches apresenta-se apagada, Frentzel até que está bem e o próprio Evandro Mesquita está muito fraco.

Desempenhos à parte, o que é realmente indesculpável em
Coisa de mulher é exatamente a já dita exaltação velada ao machismo, disfarçada de feminismo. Ao se mudar para o prédio, Murilo vira praticamente um objeto do desejo das "damas", que, por sua vez, já são estereótipos por natureza - a dona de casa submissa (Catarina), a recém-descasada inútil que vive às custas de pensão de ex-marido (Dora), a virgem trintona (Mônica) e a recém-chegada do interior (Graça). Além, claro, da esposa desesperada para engravidar (Mayara). Com esses personagens em mãos, as roteiristas ("as" porque, afinal, foram cinco mulheres e um homem na criação do texto) passam a achincalhar o personagem masculino sem saber que, assim, o que estão fazendo é repetir nas personagens mulheres a conduta machista que muitos homens têm no plano da realidade.
Por isso mesmo, é constrangedor assistirmos a cenas como a que Dora está prestes a ter um ato sexual com seu advogado, vivido por
Juan Alba - não pelo ato em si, porque, inegavelmente, a proposta do filme não é a de mostrar o sexo, o problema de
Coisa de mulher não é esse. Mas, na cena, Juan Alba tira a camisa e levanta os braços - Dora e o espectador percebem, então, que ele está com as axilas tão depiladas quanto a moça que o acompanha; uma vingança das roteiristas pelo fato de os homens não precisarem encarar sessões de depilação? Mais: ao tirar o sapato e a meia, vê-se que o advogado - o homem - tem as unhas do pé pintadas. Situação parecida repete-se no final do filme, quando Murilo (que, como dissemos, assina seus textos na revista com o pseudônimo Cassandra, o que faz com que todos pensem ser uma mulher), para dar uma entrevista ao vivo, é obrigado a se disfarçar e, assim, tem as pernas depiladas. São cenas que sugerem uma intenção de vingança e rancor por parte das roteiristas mulheres contra os homens, levando a estes situações típicas do universo feminino. E observem que não foi mencionado o mais grave dos problemas dessa estrutura: o comportamento das personagens mulheres - que são a grande maioria do elenco - é inteiramente movido a sexo. Não há um momento de amor, de generosidade, por parte das personagens. Tudo o que elas querem é um homem na cama.
Por todos esses percalços,
Coisa de Mulher ultrapassa as fronteiras do mau filme para se tornar, acima de tudo, um filme irritante. Agressivo e chato, a realização tem tudo para ofender homens e mulheres - e teria sido bom se as meninas do
Grelo Falante percebessem que ofender as pessoas não é coisa de mulher. Nem de homem. Porque, afinal, não é coisa de gente. ¤