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Hendrix segundo Sienkiewicz
Por Rafael Lima — Quarta, 31 de agosto de 2005
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De quando em quando algum editor resolve colocar alguém famoso para homenagear alguém mais famoso ainda. Na indústria da música pop, deu-se a isso no nome genérico de tributo, e tome de reunir banda obscura para fazer versões estranhas de músicas obscuras de bandas um pouco menos obscuras. Nem sempre é assim; há momentos em que um talento genuíno presta reverência a outro, como quando Anthony Burguess escreveu o perfil de Ernest Hemingway. A surpresa pode ser grata se homenageado e tributário vêm de áreas diferentes. Foi o que aconteceu quando Bill Sienkiewicz quadrinhizou Voodoo Child: The Illustrated Legend of Jimi Hendrix.
Bill Sienkiewicz já tinha mostrado do que era capaz – colagens, caricaturas, carimbos, xerox, mistura de técnicas – com Elektra Assassina e Stray Toasters, quando assumiu a tarefa de ilustrar o roteiro de Martin I. Green. Como tratava-se de uma biografia fidedigna, por mais lendária e obscura que tenha sido a passagem do músico sobre a terra, os delírios visuais teriam que ser cortados ou, pelo menos, enquadrados para servir à narrativa. Melhor assim: Sienkiewicz com objetivos a cumprir não traria o risco de produzir imagens lindíssimas que ninguém consegue dizer direito o que são. Às vezes até decepciona pela maneira banal que escolhe para resolver visualmente certos problemas; a mais evidente delas a marcação de passagem do tempo, quando limita-se a empilhar nomes de bandas e eventos que ficaram famoso num determinado ano para dar o contexto histórico, quando uma mera colagem faria o serviço melhor. Além dessa, tem pelo menos mais um momento onde a falta de inspiração visual (e do roteiro) fica evidente: quando a morte aparece como uma bela mulher, ansiada por toda a vida – não podia ter caracterizado de maneira mais criativa? Quem sabe chupando alguma coisa da mitologia nativa norte-americana, aproveitando a ascendência cherokee do músico?
Felizmente, a falta de inspiração é soterrada por inúmeras splash pages belissimamente pintadas, sobretudo quando Sienkiewicz tenta reproduzir visualmente o impacto de seus blues na audiência; são inúmeras as cenas em que, depois de detonar na guitarra, uma coleção de caras apáticas fica boquiaberta. Quando ele consegue colocar seus delírios visuais a serviço narrativa, é só festa: após alistar-se no exército, quase meia página é ocupada pela cabeça de um sargento em fúria gritando, "Your heart may belong to our mama, but your ass belongs to me!". Está tudo ali: a tipografia bem escolhida, casando perfeitamente com a caricatura, para dar idéia da truculência militarista, o conflito entre os pendores artísticos de Hendrix e as necessidades da disciplina militar – "My Heart belongs to Mama" é uma canção que ele devia ficar repetindo à exaustão, à ponto de ter merecido a descompostura.
Outro efeito que dá a impressão de render menos do que podia é o uso de motivos visuais sobrepostos ao desenho das cenas, como carimbos, criando o clima: rótulos de discos se intrometem nos seus primeiros dias de melomania e desenhos de infância lembrando a iconografia índia interferem em várias imagens de sua vida. Nessas horas, é notório o uso de computador, bastante bem explorado e que se tornaria o instrumento principal de Bill S., anos depois.
A arte de Sienkiewicz não sobressai apenas nos quadros grandes; há vários exemplares de perfeito controle do andamento dos quadrinhos conduzido de forma a despertar uma certa reação no leitor. A reconciliação entre Jimi e seu pai, quando este volta da guerra, feita totalmente sem palavras e baseada nas expressões visuais do garoto é um primor pela ternura;. a ligação telefônica na qual seu empresário avisa que abririam os shows da banda The Monkees é hilariante. E a noite em que ele descobre a música carrega todo o sentimento de descoberta e revelação.
Mas é nos momentos de maior sutileza que a história cresce, sobretudo no primeiro terço do álbum, quando Hendrix completa sua formação musical. Há que se destacar uma página em particular: ele está sendo avaliado e mandando ver, quando entra no estúdio Muddy Watters, e todo mundo pára para ouvir – inclusive o próprio Hendrix que, num momento de flashback, lembra-se de sua avó lhe ensinando a ser livre. Aprendizado, reverência, influências, sucesso: é a linguagem dos quadrinhos usada com maestria, condensando tudo sob uma narrativa de imagens.
Ler Voodoo Child é constatar que a vida de Hendrix segue o padrão clássico de qualquer ídolo do rock: filho de lar desfeito, a incompreensão inicial, o desbravamento artístico, a inconsequência comercial, as brigas com advogados e empresários, a loucura das turnês, o assédio das groupies, as prisões por posse de drogas, o fim abrupto. A arte pintada de Sienkiewicz dá conta do difícil recado de expressar em quadrinhos o impacto que a música de Hendrix provocou em seu tempo. Dez anos de idade e ter perdido o Harvey Awards de melhor álbum para Stuck Rubber Baby não diminuem em nada a pujança da obra.
E ainda vem com um CD de sobras de estúdio encartado.
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