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Batman, Novo Testamento
Por Rafael Lima — Sexta, 26 de agosto de 2005
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Na capa da revista que a Panini mandou para as bancas, aproveitando a maré do filme Batman Begins, está escrito: edição definitiva. Acertaram. Já era rara a chance de encontrar uma edição nacional do Ano Um encadernada, quanto mais dessa qualidade.
O histórico é narrado por Denny O'Neill na introdução: meados da década de 1980, editores da DC Comics encontraram poeira sobre seus mais caros ícones e elegeram novos talentos para revitalizá-los. Ninguém queria pegar o Batman, porque sua origem ainda tinha gosto, mesmo depois de 40 anos de quadrinhos e uma versão televisiva totalmente camp. Frank Miller voluntariou-se, David Mazzuchelli foi escalado para desenhar e fez-se a luz: o melhor roteiro que o primeiro escreveu encontrou o segundo na melhor forma para desenhar super-heróis. Já tinham feito tabelinha antes, em Demolidor, quando destruíram a vida desse personagem, numa leitura ainda mais radical do que na temporada anterior de Frank Miller no título. Mas o Demolidor era um personagem obscuro e com pouca história pregressa. Batman era um símbolo mundial.
Um dos truques por que Batman: Ano Um funciona tão bem é a narrativa em off, pontuada por datas, como num diário. A voz em primeira pessoa já tinha sido utilizada por Miller antes no Demolidor (o repórter Ben Urich) e, extensivamente, no Cavaleiro das Trevas. Mas nunca com o gume tão preciso e afiado, tão curto e grosso. As elipses são feitas na medida para situar o leitor em relação a cada personagem e, ao mesmo tempo, fazer a trama evoluir – domínio narrativo completo. Para que funcionasse assim, e esse é o segundo truque, foi preciso retirar o centro das atenções do personagem principal e pulverizá-lo sobre vários coadjuvantes: a prostituta Selina Kyle, o promotor público Harvey Dent, o detetive Flass e, especialmente, o tenente James Gordon. Por tabela, Miller dá uma visão diferente de vários personagens conhecidos, sem deslocá-los de suas identidades – uma espécie de "antes da fama" da Mulher-Gato, Duas Caras e do futuro comissário de polícia de Gotham City. O terceiro e definitivo truque é, na verdade, um equilíbrio instável, que encontrou sua melhor equação no Ano Um: o difícil balanço entre fantasia e realismo em histórias de super-heróis.
Em termos de coerência e conceito, Batman: Ano Um é uma obra-prima, abrindo frentes para um sem número de desdobramentos, o mais famoso deles o filme, feito quase 20 anos depois. Se Gordon e Dent acabam roubando a cena, o leitor mais xiita não deixa de ser satisfeito por imagens clássicas como a do morcego invadindo a sala da mansão Wayne ou a do milionário fazendo pose de playboy para distrair a imprensa. Tem ação e violência para quem quer (sobretudo o terceiro capítulo), mas o tema central é a corrupção: Batman surge para limpar a corrupção de Gotham, Gordon passeia o tempo todo sobre a fronteira da ética, atravessando-a de vez em quando – como faria muitas vezes no futuro, para encobertar a atuação do Homem-Morcego – e gerando as melhores cenas da série, sobretudo no relacionamento extra-conjugal com a sargento Essen.
A arte é um capítulo à parte. David Mazzuchelli não se limitou a encontrar o meio termo perfeito entre realismo e caricatura no retrato dos personagens: utilizou planos de câmera expressivos, escolheu com detalhes que enriquecessem a composição cênica e, cereja do doce, fez citações a pinturas famosas, a mais descarada delas, Nighthawks, de Edward Hopper, batizando como Hopper's o bar onde Essen e Gordon se encontram. Richmond Lewis utilizou combinações de cores incomuns, estourando cores quentes e frias, especialmente na cena em que Batman é encurralado num prédio condenado: o amarelo-ovo do nascer do sol faz os olhos do leitor doerem como se vissem os primeiros raios de luz. Para a encadernação, Lewis refez todas as cores, adicionando semi-tons e motivos estampados em colchas, tapetes e cortinas.
Além da introdução de O'Neill e do posfácio de Frank Miller, a encadernação traz as capas originais de cada uma das 4 partes da mini-série e um belo dossiê contendo folhas do roteiro datilografado de Frank Miller, estudos à nanquim de Mazzuchelli (enquanto experimentava visuais para o Batman), reprodução isolada das páginas à lápis e das artes-finais, sem cores; exemplos da aplicação de cores de Richmond Lewis, miniaturas das capas e sobrecapas de encadernações e peças promocionais e uma história em quadrinhos de David Mazzuchelli inédita, em preto e branco, cheia de samplers e pastiches, na linha de Art Spiegelman ou Scott McCloud, onde ele fala sobre sua relação com o personagem e como alcançar o complicado equilíbrio entre realismo e fantasia. E ainda vem com um pôster encartado.
Ou seja, para quem só contava antes com a edição da Abril, sem as cores novas de R. Lewis e que quebrava na lombada, um lançamento imperdível.
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