Tom Cruise enlouqueceu?!

Por Pedro Alencastro — Sexta, 26 de agosto de 2005

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Exilados pelo maligno tirano intergaláctico Xenu, os espíritos dos thetans vagaram pela Terra por milhares de anos. Gradualmente, esses espectros ganharam a forma humana e perderam consciência de sua imortalidade. Hoje, cada um de nós carrega dentro de si uma alma extraterrânea e todas as dores que a humanidade já sofreu. Para se livrar desse mal, a cientologia é o caminho que leva ao domínio completo da mente...

Se o texto acima viesse precedido de “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante...” poderia perfeitamente introduzir um episódio da série Star Wars. Mas o que para alguns cheira a conto do vigário, para outros é coisa séria. A baboseira virou pauta obrigatória depois que Tom Cruise resolveu dar um de messias da cientologia. Fatalmente tragado por uma enxurrada de informações sobre a seita, não pude deixar de estranhar.

Vá lá que tal doutrina seja difundida entre figuras do naipe de Michael Jackson (na dispensável foto ao lado), cuja crença em almas alienígenas não me causa espanto algum – afinal, desconfio seriamente de sua natureza terráquea. Agora, Tom Cruise?! Logo ele, um exemplo de boa índole, boa praça, boa cabeça e boa saúde, na pele de garoto propaganda desta picaretagem?!

A pergunta título da coluna que vos escrevo começou a martelar em minha cabeça. Soube então que Tom Cruise não havia enlouquecido de uma hora para outra. Ele só deixará sua piração aflorar publicamente, como comprovam as constrangedoras macaquices que promoveu no programa da Oprah Winfrey, em uma embaraçosa seresta para a namorada Katie Holmes.

A propósito, existe nos EUA uma ampla campanha com os dizeres “Save Katie”. Presa fácil do messias Tom Cruise, ela deverá ser a próxima vítima desse fenômeno que se alastra feito praga pelo globo terrestre, contabilizando oito milhões de adeptos, segundo as mais pessimistas estatísticas.

Já deu para notar que não sou um grande simpatizante da cientologia. Ora bolas! Que julgamento posso ter sobre uma religião cujo fundador é rotulado pelo próprio filho como “um dos maiores trapaceiros do século XX”? Em parte, discordo dessa afirmação. Não há sombra de dúvidas que Ron Hubbard seja um tremendo charlatão, contudo, meu desprezo por ele não me permite classificá-lo como “um dos maiores” em absolutamente nada, seja lá o que for. Seus seguidores, esses sim, é que são fortes candidatos ao posto de “maiores babacas do milênio”.

Tom, por que me abandonaste?

Eis que para minha estarrecedora surpresa, descubro que o bom samaritano de Hollywood é um deles. E o que é pior, na qualidade de líder! Carismático dentro e fora das telas, o astro, ao contrário de muitos dos seus iguais, raramente se envolvia em vexames. Apesar dos inevitáveis efeitos colaterais a que se sujeitam os famosos, ninguém jamais teve motivos para difamá-lo. Uma vez que outra ele estampava tablóides com seu par e, certa feita, chegaram a suspeitar de sua masculinidade; porém, nada comprometedor.

Esta infalível blindagem era fruto do trabalho de sua ex-relações públicas, Pat Kingsley, que soube desviar os holofotes dos confusos mandamentos de seu cliente. Todavia, com a substituição de Pat Kingsley pela irmã de Tom Cruise, Lee Ane De Vette – acometida por um mal de família é outra fervorosa carola da cientologia – inverteu-se o quadro, resultando numa sucessão de episódios catastróficos.

1- Tom Cruise anunciou seu namoro com Katie Holmes durante uma espalhafatosa sessão de fotos que, na concorrida Categoria Breguice, só perde para o casório Cicarrelli-Ronaldo;
2 - Protagonizou lamentáveis bate-bocas, seja na função de advogado da sua nobre causa ou para aplicar corretivos num boçal estilo Repórter Vesgo;
3 - Queimou a língua ao censurar a vida alheia, especificamente a de Brook Shields, que duramente criticada por usar antidepressivos, mandou ele catar coquinho;
4 - Sem esquecer, é claro, do memorável mico no programa da Oprah Winfrey;
Não deu outra. O intocável astro acabou caindo na boca de Matildes.

Seu presente projeto, Guerra dos Mundos, é certamente o mais vulnerável trabalho de Steven Spielberg nos últimos anos. E pela primeira vez, Tom Cruise sofreu uma saraivada de críticas que podem tê-lo atingido de forma irreversível. O filme seria ruim de qualquer jeito e ele teve atuações piores anteriormente? Esse não é o maior abacaxi de sua carreira? Guerra dos Mundos tem qualidades inegáveis?

Opiniões particulares à parte, a verdade é que Tom, quando não conquistava honrarias, sempre saía ileso de qualquer empreitada. Embora fácil de cicatrizar, Guerra dos Mundos ficará marcado em sua jornada como um profundo arranhão.

Começo promissor

A estréia de Tom Cruise no cinema veio em Amor Sem Fim, no início da década de 80. Com o divertido Negócio Arriscado (1983) poderia ter se tornado um Matthew Broderick da vida (Save Ferris!), mas foi além disso. Após uma participação num filme de Francis Ford Coppola, intitulado Vidas Sem Rumo, também de 1983, Cruise estrelou A Lenda (1985).

Em 1986, com o eletrizante Asas Indomáveis, o cara definitivamente estourou. Suas piruetas a bordo de um caça do exército americano alcançaram a maior bilheteria do ano. Em Cocktail (1988), novos malabarismos, só que agora, com garrafas e misturadores. Depois de arrancar elogios por A Cor do Dinheiro (1987) e contracenar com Dustin Hoffman no premiado Rain Man (1988), Cruise já havia adquirido uma considerável respeitabilidade.

Foi neste instante que tomou uma decisão deveras arriscada. Sentou numa cadeira de rodas e meteu o dedo na perene ferida ianque: a Guerra do Vietnã. Para quem vinha de um recente sucesso sob a farda do típico herói das forças armadas norte-americana, era como nadar contra a corrente. Se isso não bastasse, o responsável pela fita era ninguém mais ninguém menos que Oliver Stone, provavelmente o cineasta que melhor sintetiza a expressão “Ame-o ou Deixo-o”.

Contrariando todas as expectativas, Nascido em 4 de julho (1989) transformou-se num dos filmes mais assistidos e premiados da temporada. Irreconhecível com seu visual à lá Easy Rider, Tom Cruise interpreta Ron Kovic, um soldado ferido na guerra que volta para casa paraplégico. Num papel em que são costumeiras as pieguices, se deu bem e acabou conquistando sua primeira indicação ao Oscar.

De lá pra cá, Cruise não parou de filmar, seguindo em franca ascensão – mesmo que alguns de seus projetos não tenham vingado. A cinebiografia desse período pode ser resumida em dois gêneros: os filmes lights e os filmes cabeça (*)

E agora José?

Os filmes lights, capitaneados por Jerry Maguire (1996), são os de indicação livre, para assistir com a sogra, os bisnetos e o hamster. Embora lhes falte conteúdo, alguns são tecnicamente perfeitos, caso dos Missões Impossíveis (1996 e 2000) e Dias de Trovão (1990) - xerox terrestre de Ases Indomáveis, com carros de corrida. Nos bastidores deste, aliás, Cruise conheceu Nicole Kidman, com quem casou e descasou anos depois. Coloco também nessa categoria o recente Colateral (2004) – que não chega a ser light, mas que pra cabeça não serve – onde podemos ver o bom moço incorporar um vilão sanguinário, outro risco que soube administrar com autoridade.

Ainda sobre Jerry Maguire (na foto gritando “show me the money!!!”), é disparado um dos filmes mais legalzinhos da década de 90. Tom Cruise nasceu para esse tipo de personagem, “o cara bem sucedido que resolve rever seus conceitos e dar uma virada em sua vida”. Os trejeitos de Maguire (leia-se gestos e olhares por demais exagerados) são a sua cara. Ao perceber isso, a Academia conferiu-lhe a segunda indicação ao Oscar.

Apesar do roteiro inteligente e atuações inspiradas (destaque para Cuba Gooding Jr.), a película de Cameron Crowe não possui um argumento da profundidade de Um Domingo Qualquer (1996), que também versa sobre futebol americano e tem a assinatura de Oliver Stone. Sim, entre os dois grupos do ame-o ou deixe-o, encaixo-me no primeiro, com a ressalva de “Alexandre o Grande Desapontamento”.

No segundo gênero estão os filmes cabeça, conduzidos por Magnólia (1999), que lhe rendeu a oportunidade de disputar o Oscar de melhor ator coadjuvante e, como de praxe, perder. Tratam-se de fitas complexas, com roteiros cheios de reviravoltas, mensagens subliminares e personagens rebuscados. Na curiosa obra de Paul Thomas Anderson, Tom Cruise faz um guru de auto-ajuda machista.

Encaixam-se nesse grupo, além de Magnólia, A Firma (1993), dirigido por Sydney Pollack; Entrevista com o Vampiro (1994), compondo a trinca de galãs Cruise-Pitt-Banderas; De Olhos bem Fechados (1999), contracenando com Nicole no derradeiro trabalho de Stanley Kubrick; Vanilla Sky (2001), com o rosto totalmente desfigurado, para decepção das fãs da Capricho; Minority Report (2002), editando a primeira parceira com Spielberg; e O Último Samurai (2003), aqui incluído devido ao seu tímido caráter político-social.

Diferente dos filmes lights, são títulos que viraram tema de debates, dividindo opiniões contrárias e favoráveis – alguns mais contrárias do que favoráveis e vice-versa. Alheio a falação, Cruise manteve-se distante da alça de mira. As únicas vezes em que levou chumbo de raspão, foi quando a autora de Entrevista com o Vampiro demonstrou-se insatisfeita com sua escalação para o longa-metragem e, principalmente, no que tange as supostas orgias sexuais durante as filmagens de De Olhos bem Fechados. Ainda assim, Tom Cruise sobreviveu.

Porém, para infelicidade geral da nação, essa impecável trajetória pode ter sido maculada em nome de uma duvidosa fé. Protegida das turbulências por mais de duas décadas, a (in)abalável reputação do galã está na corda bamba. A opinião pública é cruel e não dá colher de chá para ninguém. Nesse ritmo, em alguma futura entrega de prêmio honorário, Tom Cruise será lembrado pela platéia como o velho matusquela que outrora foi um rapaz com os pés no chão.

Em tempo, mando meu humilde recado. To Katie. From Pedro. Salve-se antes que seja tarde demais...

(*) Classificação capenga sem nenhuma base teórica concreta, quanto menos uma relés migalha de credibilidade ou consideração com os atores e cineastas envolvidos. De exclusiva autoria do acima assinado, que assume total responsabilidade por qualquer falta de decoro.




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