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O calvário de uma aranha
Por Edvaldo Filho — Terça, 23 de agosto de 2005
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Um dos maiores personagens das HQs, querido por milhões e popular mesmo entre os que não consomem quadrinhos, o Homem-Aranha possui um histórico carregado de momentos tristes e por isso, pelo menos para este que vos escreve, irritantes.
Há alguns anos, numa das minhas costumeiras remexidas em minha modesta coleção, percebi que o personagem que possuía o maior número de revistas nela era o Homem-Aranha. Tinha me tornado inconscientemente fã do aracnídeo. Havia mais revistas dele do que da LJA, grupo do qual sou fã confesso. O Aranha é o personagem mais humano das HQs do gênero de super-heróis, sendo praticamente impossível não se identificar com ele. Aquela cabeça de teia vive cheia de problemas comuns a todo super-herói e... a todo estudante, a todos os que ajudam no orçamento doméstico, a todos os que cuidam de um ente querido idoso, a todos os maridos... e por aí vai.
Quase que o azar do nosso herói manifestava-se logo na sua concepção. Ao mostrar a sua idéia para Martin Goodman, o dono da Marvel no início dos anos sessenta, Stan Lee percebeu que o sujeito não se entusiasmou muito com ela. “As pessoas detestam aranhas. Um personagem assim não será acolhido pelo público”. Ledo engano, conforme atesta o estrondoso sucesso do nosso aracnídeo preferido.
A origem clássica do Homem-Aranha, contada por Stan Lee e desenhada por Steve Ditko, já nos conta que Peter Parker já sofria as suas agruras mesmo antes de adquirir seus poderes. Quem abriu a edição quinze da revista Amazing Fantasy (estréia do Aranha) em agosto de 1962, deu de cara com um sujeito franzino, jeito de cdf, sendo marginalizado pelos colegas de escola logo na primeira página. Peter só tinha vez com os seus professores e com os queridos tios Ben e May (que a esta altura do segundo tempo da final do campeonato já deve ser tia de todo super-herói. Por que não casá-la com o Jarvis? Não, melhor casá-la com o Alfred para ver se tira de vez o estigma gay da mansão Wayne. Aliás, não dá. Ele é da Distinta Concorrente. Se bem que seria um partido melhor do que o vilão Otto Octavius, que em algumas histórias demonstrou uma queda pela tia de Peter). A história transcorre, vemos o rapaz sendo picado por uma aranha radioativa e tal, mas não é isso que interessa aqui. O que eu quero trazer à tona é que aquelas primeiras páginas que apresentaram o amigão da vizinhança ao público prenunciaram o que viria nos próximos quarenta anos: dor e sofrimento.
Já em sua estréia ele perde o seu tio Ben, assassinado por um ladrão que Peter, antes de se tornar super-herói, mas já com super poderes, deixou escapar. O sentimento de culpa foi inevitável. O fardo pesou nos ombros do personagem durante anos, dando-lhe motivação para combater o crime.
Lá vai o nosso herói tentar arrumar emprego para ajudar nas despesas. Conseguiu como fotógrafo freelance do Clarim Diário, ficando à mercê do antipático e mesquinho J.J. Jameson (antipático, mas querido também, é bom que se diga. Há inúmeros momentos hilariantes e comoventes envolvendo J.J. nas histórias do Aranha), que em seus artigos criticava severamente o alter ego de Parker, ignorando as evidências que mostravam que, sob a máscara, seu fotógrafo era um autêntico super-herói. As severas críticas de Jameson influenciavam os leitores do Clarim a fazer o mesmo.
Acompanhando a carreira do Aranha, observamos também a perda de uma série de personagens do seu universo: a primeira namorada, Gwen Stacy, assassinada pelo Duende Verde numa história que foi às bancas sem a aprovação do Comics Code Authority. Antes dela, o seu pai e capitão de polícia George Stacy foi vitimado pelos ataques do Doutor Octopus, mas adivinhem quem levou a culpa pelas mortes?
Só vou citar estas duas perdas para poupá-los de uma lista enorme de entes queridos que o Aranha perdeu ao longo de sua carreira, mas ouso dizer que ele talvez seja o personagem que mais freqüenta cemitérios. Como se isso não bastasse, amigos tornaram-se inimigos perigosos (Harry Osborn, por exemplo) e, pasmem, não foram raras as vezes em que Peter, após encarar sua dura rotina, deu de cara com uma geladeira vazia em seu muquifo.
Há quem goste do sofrimento do herói. Quando paro para conversar com leitores que encontro em minhas idas às bancas de revistas de Soterópolis, muitos expõem sua predileção pelas amarguras do coitado. “As melhores histórias do Aranha são as depressivas”, disse-me um colega leitor uma vez. Outros já acham que não: “Por mim, o cara usava os seus poderes para ganhar fama e fortuna. Não seria nada de mais”, mas, convenhamos, perderia toda a graça, embora tenha deixado de comprar as revistas do aracnídeo já há algum tempo justamente porque, na maioria das histórias, ele não tinha vez. Depois da (aaarrrgghhh! eca!) Saga do Clone, que ao meu ver ressuscitou desnecessariamente Norman Osborn (o Duende que matou Gwen) e trouxe mais desgraceira, achei melhor só ler Homem-Aranha esporadicamente (leia-se: visitar um velho amigo de vez em quando). Eis que este mês dou de cara com a última edição em bancas, a de número 44, que traz revelações surpreendentes sobre o passado do primeiro amor de Peter (vou adiantar o que você, se for um pouco esperto, já deve saber: lá vem mais desgraceira. Já folheei a publicação. Talvez eu compre). Como se não bastassem as tragédias que ocorrem no presente, os cada vez mais criativos escritores tratam de procurar (leia-se inventar) obscuridades no passado.
Desnecessário dizer mais uma vez que todo mundo gosta do Aranha. É o personagem mais carismático, mais simpático das HQs. É paradoxal: sua sina de desacertado, embora incomode muito às vezes, tem deixado satisfeito o público ao longo dos anos. Embora muitos queiram um alívio para o aracnídeo, é quase certo que perpetuá-lo seria estranho e, mais à frente, cansaria. Não deixa de ser inspirador que, mesmo com todo o seu sofrimento, ele ainda tenha a incrível capacidade de superação, evidenciada também pelas piadinhas que ele usa para tirar sarro dos vilões durante as lutas. Mas seria confortante se os escritores das histórias do Aranha servissem ao personagem algo melhor do que o pão que o diabo amassou mais do que só de vez em quando (e olhe lá!).
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