Sharon Stone - Essa não troco por duas de vinte

Por Pedro Alencastro — Segunda, 22 de agosto de 2005

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1954. Marilyn Monroe tenta conter sua teimosa saia, mas é vencida pelas borrifadas de um respiradouro do metrô. O evento é assistido por uma caravana de marmanjos aglomerados na Lexington Avenue. Entre cotoveladas e pescoços espichados, duas célebres exceções: Joe DiMaggio (o maridão angustiado) e Billy Wilder, que por motivos técnicos, reprovou o take. Refilmada num estúdio fechado para o clássico O Pecado Mora ao Lado, esta famosa cena tornou-se um marco da sétima arte.


Décadas depois, os tempos são outros. A loira da vez não faz o mínimo esforço em esconder o que guarda debaixo de sua minúscula saia, e naquele tal de cruza e descruza as pernas, acaba mostrando o necessário para matar Joe DiMaggio de um ataque cardíaco. A moça não estava usando calcinha, no entanto, jura de pé junto – jamais imaginou que as câmeras pudessem descobrir a dita cuja.

Ao contrário de Billy Wilder, Paul Verhoeven, encarregado pela fita, resolveu inserir a tomada na edição final de Instinto Selvagem (1992). Para convencer a protagonista, deu uma dica: aquele flagra poderia ser sua galinha dos ovos dourados.

Sharon Stone não se contentou apenas em aproveitar o conselho de Verhoeven, exibindo na capa Playboy as demais partes não expostas no filme. Com uma estratégia de marketing dessas, Instinto Selvagem, que tinha também no elenco Michael Douglas, virou um verdadeiro imã de curiosos, alcançando a maior bilheteria de 1992. Estampada na parede do quarto de uma malta de adolescentes, Sharon Stone, por sua vez, acrescentou generosos zeros no seu cachê.

Uma cruzada de pernas milionária

Antes machista do que hipócrita. Tratando de alguém que leiloou um beijo de língua pelo preço de 75 mil mangos, dizer que Sharon Stone chegou onde está sem dar créditos ao seu sex appeal é uma tremenda bobagem, que sua cinebiografia desmente de forma catedrática. Se não vejamos.

Sua estréia cinematográfica foi no papel de “garota bonita do trem” em Memórias (1980), de Woody Allen, que, aliás, não descobriu Sharon num palco de teatro, e sim, numa de suas empreitadas como modelo. A tal garota bonita do trem era, de fato, muito bonita, porém, não falava uma palavra.

Ela só foi abrir a boca em Deadly Blessing (1981), assinado pelo mestre dos filmes B, Wes Craven – assinatura que vazou a caneta e virou uma enorme mancha no seu currículo. Ex-funcionária do McDonald's, Sharon, que ainda não tinha nenhuma reputação a zelar, seguiu com sua improvável carreira de atriz, filmando uma seqüência de películas que me prestei a recordar nesta insólita lista:

- Diferenças Irreconciliáveis: se não é tão esquecível, afinal, você já deve ter ouvido um título parecido entre as opções do Intercine;

- O Assassinato da Garota da Capa: Stone fazendo uma gostosa no único Made for TV que mereceu ser citado nesta lista, graças ao título estilo Agatha Christie que não pude deixar passar em brancas nuvens;

- As Minas do Rei Salomão: ao lado de um Indiana Jones de araque que tá mais pra Crocodilo Dundee – Sessão da Tarde na veia;

- Loucademia de Polícia 4: Tá, esse todo mundo lembra;

- Alan Quatermain e a Cidade Perdida de Ouro: primeira indicação de Pior Atriz no Framboesa de Ouro;

- O Confronto Final: Acho que já ouvi falar desse filme em algum lugar...;

- Action Jackson: era só colocar Michael ao invés de Action que faria um sucesso tremendo;

- Nico - Acima da Lei: responsável/culpado por lançar Steven Seagal;

- Sangue & Areia: ... Será que chove?;

- e finalmente Além das Estrelas: Pra fechar com chave de ouro.

Depois de uma década negra, eis que surge O Vingador do Futuro (1990), com Arnold “Governador da Califónia” Schwarzenegger e direção de Paul “Antônio Conselheiro” Verhoeven, um clássico recheado de efeitos especiais ultra-avançados para a época (lembram do Arnold saindo de dentro daquela gorda?). Como a esposa do fortão, Sharon abriu sua primeira janela para o sucesso, sendo que o status de estrela só foi efetivamente conquistado quando abriu as pernas.

Sharon, que até então havia gravado com Wes Craven, Woody, Schwarzenegger e Varhoeven (o que, diga-se de passagem, não é pouco), começou a trabalhar com gente de gabarito como: Phillip Noyce e um dos irmãos Baldwin (eles são todos iguais!) em Invasão de Privacidade (1993); Richard Gere e o diretor Mark Rydell em Intersection — Uma Escolha, uma Renúncia (1994); Sylvester Stallone (vá lá, está longe de ter gabarito, mas merece ser lembrado) em O Especialista (1994), (protagonizando a cena de sexo mais patética de todos os tempos); além de Sam Raimi, Russel Crowe, Gene Hackmann e Leo DiCaprio, em Rápida e Mortal (1995).

“Vocês vão ter que me engolir!”

Foi justamente quando o curriculum vitae dos colegas pesou mais, que a dona matou no peito. Dessa vez, os companheiros de set eram Martin Scorsese e Robert De Niro, dois monstros consagrados que fariam qualquer veterano tremer nas bases. A loira, no entanto, não tomou conhecimento de Bob e Marty. Sua naturalidade ao contracenar com De Niro é espantosa. Numa atuação memorável, dobrou até os velhotes da Academia, que lhe deram uma indicação ao Oscar.

Cassino (1994) traz Sharon no papel da prostitua/trambiqueira Ginger McKenna, carinha carimbada de Las Vegas que numa de suas malandragens, conquista o coração mole de Sam "Ace" Rothstein (De Niro). Ele se apaixona à primeira vista, pelo circuito interno de TV do cassino que dirige, e os dois casam. Famoso por não se meter em negócios de risco, Sam confia a esposa toda sua fortuna, como prova de seu amor incondicional. Daí em diante dá para imaginar a tremenda cilada na qual se mete o infeliz. Como diria minha irmã “a Sharon Stone gurizeia afu na do De Nirão”.

Sim. Ginger revela-se uma megera da pior laia. Quando não está alcoolizada ou distribuindo a grana de Ace ao seu antigo cafetão, promove escândalos de acordar a vizinhança. Não bastasse isso, arruma um caso com o melhor amigo do marido, interpretado por Joe Pesci. Este dá a impressão de não ter ouvido Scorsese gritar o último “Corta!” de Bons Companheiros, encarnando o mesmo tipo que lhe rendeu um Oscar, o que não é demérito algum, até porque o próprio Scorsese classificou Cassino como uma espécie de Bons Companheiros – O Retorno. Exceto a cena em que ele e Sharon transam (ERRATA: diferente do que foi escrito anteriormente, esta é a cena de sexo mais patética de todos os tempos), Pesci esteve muito bem, obrigado.

Mas voltando ao que interessa, com o reconhecimento da Academia e da crítica, enfim, Sharon superou o fardo de boazuda sem talento. Em 1996 fez Diabolique e A Ultima Chance, arriscando-se dois anos mais tarde na função de produtora executiva de Sempre Amigos, quando também embarcou na barca furada A Esfera e dublou um personagem de animação no agradável Formiguinhaz.

Simpático, de 1999, não é tão aprazível quanto Formiguinhaz, mas Sharon não comprometeu. Neste ano, ela ainda deu as caras na comédia A Musa – pela qual recebeu indicação ao Globo de Ouro – e foi dirigida por Sidney Lumet em Gloria. Depois de um longo tempo fora das telas, reapareceu em Garganta do Diabo (2003) contracenando com Dennis Quaid. No ano passado, além de Questão de Lealdade, ela e Halle Berry dividiram o fiasco de ter seu nome nos créditos de Mulher-Gato.

Em breve, nos cinemas mais próximos de você, Sharon atacará novamente na pele da femme fatale Catherine Tramell. Instinto Selvagem 2 (que será ambientado em Londres, com direito a Scotland Yard e Cia. Ltda.) deve estrear em março de 2006. Por enquanto, os fãs de Sharon Stone aguardam seu terceiro ensaio fotográfico na Playboy norte-americana.

Aos 47 anos, Miss Pensilvania 1975 é o típico exemplo de panela velha que faz comida boa. Se veremos cruzadas de pernas reveladoras nesta seqüência? “Você pode pagar e descobrir sozinho” recomenda a musa. Resta saber se valerá a pena. Para mim, o investimento na aquisição da Playboy já é o bastante. ¤




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