Os quem?

Por Elias Lascoski — Sexta, 19 de agosto de 2005

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Neste espaço já falei sobre TV, literatura, ficção científica, games, quadrinhos, cinema... Não faltou quem me pedisse para falar um pouquinho sobre música, um assunto que estou longe de odiar, mas ainda mais longe de dominar. Aí o bicho pegou. Não entendo nada de música, e acredito que quem tem um gosto musical tão restrito quanto o meu não pode brindar os leitores com informações úteis ou opiniões pertinentes. Meu conhecimento musical é medíocre. Sou do tipo do cara que sempre sonhou em dedilhar o tema do Top Gun na guitarra e ainda chora ao ouvir Carmina Burana, mas nunca aprendeu a tocar qualquer instrumento.

A bem da verdade, não entendo de nada, e apesar de ter o nome de um escritor famoso (Elias José), não sou escritor, nem famoso. Não sei nem direito o que sou. Um picareta, talvez. É usando da minha capacidade de conhecer quase nada sobre quase tudo que resolvi tecer alguns comentários fuleiros e reticentes sobre o mundo da música (no meu jeito gilette press de ser). Nada técnico, por favor – não entendo o que quer dizer uma “base constante” e não faço a mais leve idéia do que signifique um som “visceral”, nem mesmo sei ditinguir um “poser” de um “virtuose”. Portanto, ladies and gentlemen, para não decepcionar nenhum dos meus leitores-amigos-bajuladores, preparei uma coisinha só para constar nos autos, ao alcance da minha competência: a origem dos nomes das bandas.

O nome de uma banda é um mistério quase impenetrável, mais intrigante que tentar saber o que acontece com a bala quando alguém dá um tiro para cima. É um maldito tabu que atormenta críticos e repórteres, receosos das já previsíveis respostas evasivas, quando não mal-educadas (Ah! Os músicos e suas línguas ferinas...). Poucos são os que revelam suas inspirações sem que a resposta venha acompanhada de uma saraivada de palavrões. Geralmente os brasileiros são mais generosos (ou mentirosos). É o caso da banda gaúcha Bidê ou Balde, cujo nome tem várias histórias, uma delas de rolar de rir (leia a entrevista aqui). Outros nomes são mais evidentes, como por exemplo Franz Ferdinand - nada mais que o arquiduque austríaco assassinado em 1914, no que viria a ser o início da primeira Grande Guerra. Outros acabam alvo de interpretações que só um espírito de porco poderia conceber: já li que System of a Down seria uma alusão a Syndrome of Down. Tsc, tsc...

Interessantíssimos são os nomes de bandas de garagem. Tidos como “criativos”, não passam de criações despreocupadas e livres de autocensura. A maioria é impublicável, muitos homenageiam o seu Madruga (que Deus o tenha), e poucos conseguem ser verdadeiramente originais (como “37 não é Febre”). O problema é quando essas bandas mudam das garagens para os estúdios das gravadoras – aí a escolha do nome fica sujeita a palpites inoportunos dos mecenas de plantão, em geral bastante apegados a questões burocráticas e administrativas. Resultado: uma avalanche de siglas – números e letras invadindo a mídia, parecendo mais um bando de agências de publicidade do que bandas de rock. (Justiça seja feita, entretanto, às antigas e inaugurais L7 e B52, que nada têm a ver com essa moda).

Bandas que não devem todo o seu sucesso a lobby e jabá acabam sendo mais felizes na escolha do nome. Elas parecem seguir uma das mais instigantes leis de Murphy, aquela que reza que toda idéia revolucionária passa por três estágios de avaliação, a saber: a) “Ninguém vai gostar. Não perca seu tempo”; b) “Até que é legal, mas não vale a pena”; c) “Eu sempre disse que era uma boa idéia”. Não são poucas as amostras bem sucedidas que persistiram e venceram as três etapas, e que podem ser separadas em algumas categorias.

Primeiramente temos as sempre presentes homenagens. Steppenwolf (lobo da estepe, da obra de Herman Hesse), Uriah Heep (personagem de David Copperfield, de Charles Dickens), White Zombie (obscuro filme B, com Bela Lugosi), Creed (nome da família protagonista de O Cemitério Maldito, de Stephen King), Pennywise (o palhaço assassino de A Coisa, do mesmo autor), Golden Earring (do filme Golden Earrings), Joy Division (do livro sadô A Casa de Bonecas), Misfits (filme com Clark Gable e Marilyn Monroe – a pinup também foi lembrada por Marilyn Manson, que divide uma forma de retribuir a beleza da moça com uma “homenagem” ao maníaco Charles Manson.), Pretenders (baseado em uma canção dos Platters), Judas Priest (de uma música de Bob Dylan), Radio Head (de música do Talking Heads), Rolling Stones (de uma letra do Muddy Waters)...

Ainda no primeiro grupo, mas com inspirações especiais, enquadram-se as bandas que provam sua admiração a grandes nomes do Blues, como Deep Purple (velha música de Bing Crosby) e Pink Floyd (em respeio a Pink Anderson e Floyd Council).

Depois temos os nomes de significado conhecido, mas não menos dignos de nota: Dead Kennedys, Bauhaus, Anthrax, Metallica, Queen, Red Hot Chilli Peppers, REM, Nirvana, New Order e os jogos de palavras INXS, U2, Beatles e The Who (banda que melhor captou a essência da escolha do nome). A contraparte destes seriam os que não têm significado algum, tais como Aerosmith, Smashing Pumpkins, Chubby Checker, Pearl Jam ou Creedence Clearwater Revival, colagens sem sentido com explicaçãoes vazias (geralmente os integrantes destas bandas despistam a imprensa, fazendo declarações contraditórias sobre a origem dos nomes), mas bastante sonoros e até mesmo “visuais”.

Há também o grupo dos equívocos. Por exemplo: é notório o significado do nome Iron Maiden: aparato medieval de tortura e blá, blá, blá, aquela balela que todo fã tem na ponta da língua. Na realidade a escolha do nome inspira-se em motivações políticas, e sua conotação faz proveito de um nome em voga na política na década de 80. Para quem não lembra: Margareth Tatcher, a Primeira Ministra inglesa chamada pela imprensa de “A Dama de Ferro”. Os punks do Clash também não perderam a oportunidade da visibilidade proporcionada por embates sócio-políticos, e tiraram seu nome de uma manchete de jornal bastante comum na mesma década : “Clash with Police” (Confronto com a Polícia). Um pouco menos idealistas e libertários, os membros do Police fizeram uso da mesma tática, mas não para fins de guerrilha cultural, e sim de marketing (usar um nome que estaria todos os dias em todos os jornais de todo o mundo era uma forma de se sobressair em qualquer análise de conteúdo). Jethro Tull soa imponente, mas é uma idéia insossa: simplesmente o nome do cara que inventou o arado.

O Rock Progressivo introduziu uma espécie de mantra na escolha dos nomes – amenos ou sibilantes para aliviar a agressividade e realçar as passagens mais harmoniosas das canções. Há inclusive uma coincidência: Led Zeppelin e Iron Butterfly são nomes que tentam representar algo pesado mas que flutua com suavidade (uma borboleta de ferro e um zepelim de chumbo). E por falar em peso, uma grande parte dos nomes das bandas de Heavy Metal, que costumam ser os mais pedantes, são retirados da obra de J.R.R. Tolkien, de terras lendárias ou de mitos cristãos (merecem cumprimentos os que conseguem fugir à regra). Mitos cristãos também estão presentes na interpretação de uma simbologia supostamente oculta em nomes de grandes ícones pop. O AC/DC, que deve seu nome unicamente ao princípio da corrente elétrica (contínua e alternada, como se pode verificar em qualquer aspirador de pó), já levou a pecha de satânico por incutir subliminarmente nas pessoas a mensagem Anti-Christ / Dead-Christ (Anticristo / Cristo morto); da mesma forma que o Kiss já foi acusado de bolar uma sigla para Knights In Service of Satan (Cavaleiros a serviço de Satan). Haja imaginação!

Vou contar agora a história da origem dos dois nomes mais legais.

Quem assistiu à microssérie Hoje é Dia de Maria da Globo deve se lembrar de um trecho onde um cadáver putrefato está exposto ao ar livre, sem poder ser enterrado por ter morrido devendo dinheiro. A menina Maria paga a dívida do morto para que ele possa ser enterrado, e a partir daí conta com a ajuda do espírito do defunto em suas enrascadas. Porém, a história do morto agradecido não faz parte do enredo de Pedro Malasartes ou outra coleção de histórias brasileiras à la Câmara Cascudo. Trata-se de um conto folclórico originário da velha Inglaterra que se difundiu pelo mundo e inspirou o nome da banda Grateful Dead (morto agradecido).

“Se as portas da percepção fossem abertas, todas as coisas se mostrariam ao homem tais como são: infinitas”.

Estes versos são do poeta maldito William Blake. Aparentemente são baseados em um princípio filosófico elaborado por Platão, para quem o corpo é a prisão da alma. O escritor aristocrata Aldous Huxley (autor de A Ilha) ampliou o escopo da hipótese platônica e, emprestando o termo de Blake, escreveu As Portas da Percepção, na década de 50, onde relata algumas experiências lisérgicas com as quais tenta comprovar que nosso cérebro funciona como uma válvula redutora, e não expansora do conhecimento. Segundo ele, o cérebro filtra apenas informações essenciais à sobrevivência e as organiza (como na divisão do tempo), evitando um colapso que poderia ser causado pela absorção de dados “irrelevantes”. As drogas amenizariam esse efeito redutor, abrindo as portas da percepção, segundo ele. Estas experiências serviram de modelo para vários gurus da contracultura, como o psicólogo Thimothy Leary e o pagão Jim Morrison, líder da banda conhecida como The Doors (As Portas). This is the End. ¤


No toca-discos: Rotomusic de Liquidificapum – Pato Fu




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