Fagin - O judeu da prestação

Por Rafael Lima — Quinta, 18 de agosto de 2005

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A partir de seus últimos álbuns, fica evidente que, a partir de certo momento, caiu uma ficha definitiva na cabeça de Will Eisner: a identidade judaica. É certo que ele nunca esteve muito distante dessa condição, mesmo nos anos de The Spirit, mas só rasgou a fantasia com No Coração da Tempestade, em 1991. De lá para cá, fez uma quantidade de histórias urbanas, dramáticas, comoventes – e povoadas por judeus. Se sua biografia foi o grito do excluído, somente no final da vida Eisner assumiria o debate de frente, fazendo anti-propaganda, se necessário. Seu último livro, publicado postumamente, The Plot, é uma tentativa de desmascarar a anti-semita Os Protocolos dos Sábios de Sião. O penúltimo, Fagin, o Judeu, editado no Brasil pela Cia. das Letras, é uma releitura de um personagem coadjuvante de Oliver Twist.

Fagin, o judeu – com esse exato vocativo – é o líder de uma gangue juvenil que age nas ruas da Londres de Charles Dickens, em quem o órfão Oliver Twist vai buscar abrigo após fugir do trabalho numa funerária. Retratado em cores fortes, Fagin personifica o mal encarnado para os fins folhetinescos de Dickens: feio, repulsivo, pérfido; ao passo que Oliver personifica o bem. O protesto de Will Eisner é quanto ao fato de que o livro, mesmo que não-intencionalmente, tanto no texto quanto nas ilustrações originais de George Cruickshanck, ajudou a disseminar um estereótipo negativo dos judeus, qual fosse o do negociante usurário, sovina e narigudo, que muito atrapalhou essa etnia no século seguinte. Para tal, Eisner escolheu uma técnica em voga: revisionismo com base em fatos históricos, e utilizou um arsenal perigoso.

Na primeira metade do álbum, Eisner contextualiza a situação dos judeus na Londres liberal do começo do século XIX e inventa uma origem possível onde Fagin passa o diabo em seus anos de formação. É um argumento espinhoso porque tenta justificar os atos criminosos através das dificuldades sociais – troque a etnia judaica pela classe proletária e você terá a exata explicação que muitos intelectuais dão para o tráfico nas favelas cariocas, daí seu perigo. Eisner não parece notar que, ao tentar explicar a suposta esperteza dos judeus através da necessidade de superar percalços ao longo da vida (exemplificadas como a ascensão social barrada pela discriminação étnica, a dificuldade em arrumar empregos, a proibição legal de certo tipo de comércio), só reforça o preconceito contra essa esperteza. Numa das passagens mais notórias do livro, quando Fagin pede ajuda após seu pai ser espancado, um casal desvia porque "poderia ser um truque desses judeus de rua" – só que, páginas antes, era o próprio pai de Fagin quem pregava um desses truque num passante para arrumar dinheiro...

Se a primeira metade é centrada no histórico pessoal de Fagin, a segunda é praticamente uma recriação de eventos da novela de Dickens, narradas do ponto de vista dos marginais. Aqui, o impressionante é ver o domínio narrativo de Eisner, que diminui o número de quadros por página, acelerando a ação e enchendo-a de situações limite, exatamente como o folhetim original deveria ser para prender a atenção do leitor dia a dia. Depois de saber o diabo por que Fagin passou – orfandade, pequenos delitos, falta de oportunidades, degredo em colônia penal caribenha com trabalho forçado – o leitor já está suficientemente amaciado para ver com outros olhos a atividade econômica dele, a receptação de objetos furtados. Além disso, Will Eisner dá uma relativizada na pintura de Dickens, acentuando o lado bom da figura do judeu, que acolhia menores abandonados, dava-lhes proteção e sempre optava por truques criminosos que privilegiassem a malandragem, e não a violência, preferida por seu parceiro Sikes.

É a melhor tentativa de Eisner, que sempre soube dar luz aos dois lados de qualquer questão (atitude que, afinal, levou-o a registrar os direitos de The Spirit, atitude inédita entre seus pares), e nem assim definitiva: se Fagin mereceu uma revisão histórica, Sikes só não é o cão em pessoa porque se arrepende depois de matar a cadeiradas uma personagem. Aliás, Fagin o Judeu é uma das obras mais violentas de Eisner, com umas 3 ou 4 cenas de mortes por espancamento. De certo modo, Eisner faz com Sikes o que Dickens fez com Fagin. Isso não compromete seu argumento inicial exatamente pela capacidade de olhar os dois lados da questão, e a suposta propaganda de "seu lado" é desfeita numa das cenas mais tocantes: após uma tentativa fracassada de subir na vida convertendo-se ao cristianismo quando criança, Fagin responde o seguinte, ao ser questionado sobre qual religião era a melhor: "Para os necessitados, todas as crenças são iguais".

Mesmo que não te convença do argumento de Eisner, Fagin o Judeu deve ser lida por pelo menos três motivos. Primeiro, a elaborada reconstituição de época: nunca é demais lembrar que o autor tinha 80 anos quando desenhou, em média de uma por dia, cada uma das 120 páginas do álbum, tijolo por tijolo em brilhante técnica aguada. Segundo, porque poucos são os autores de quadrinhos capazes de construir uma dramaturgia sólida para defender um argumento; é a técnica narrativa em sua melhor forma. Terceiro, porque ao fazê-lo em histórias em quadrinhos, Will Eisner põe esta forma de arte para dialogar com a Literatura, desdobrando significados e adicionando camadas de compreensão onde a segunda, em seu entender, possa ter sido falha. ¤




COMPRAS
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DVD > DVD Oliver! - Edição Especial (Oliver Reed, Ron Moody, Jack Wild)
Livro > Quadrinhos e Arte Sequencial: Compreensão e Pratic (Will Eisner)
Livro > Nova York: A Vida na Grande Cidade (Will Eisner)
Livro > O Complô: a História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião (Will Eisner)
Livro > Pequenos Milagres (Will Eisner)
Livro > Combo Especial HQ (Will Eisner)
DVD > DVD Sahara (Penelope Cruz, Breck Eisner, Steve Zahn, Matthew Mcconaughey)

 

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