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Fixação Científica - Parte 2
Por Elias Lascoski — Sexta, 12 de agosto de 2005
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Chegamos agora ao momento mais empolgante da Ficção Científica – a contemporaneidade. A FC "moderna" (por mais que isso soe redundante) foi inaugurada na década de 60, abrangendo também alguns escritos anteriores, como os de Bradbury. Histórias mais loucas monopolizaram a alucinada e "turbinada" década dos hippies e da quarta revolução codjuvante de nossa história: a Revolução Social.
Foi na tumultuada década de 60 que o nome de Philip K.Dick ganhou o mundo. A bem da verdade, poucos o conhecem, mas sua contribuição para a FC foi das mais generosas e significativas. O escritor recebeu o prêmio máximo da categoria a que se dedicou. O Homem do Castelo Alto foi laureado com o Hugo Awards, contando sua versão alternativa da II Guerra. A criação dessa obra nos revela a perturbação mental do escritor, bastante recluso, pois foi elaborada com o auxílio do I-Ching, método chinês meio filosófico e meio mágico. Só pra variar um pouquinho, Dick também plantou uma semente de desesperança em suas crias, a exemplo de Do Androids Dream With Electric Sheeps?, de 68, que inspirou o filme oitentista Blade Runner, uma das poucas adaptações cinematográficas dignas de nota, dirigido por Ridley Scott (depurando a experiência adquirida em Alien, de 79 e provando de novo o quanto o mundo é pequeno), e também do conto curto que inspirou o recente Minority Report, com Tom Cruise (que anos mais tarde voltaria a se aventurar pelo gênero sci fi, como veremos). Parecendo atormentado e influenciado pelos primórdios das novelas radiofônicas de alienígenas (cuja história mais célebre também tem a ver com algo que comentaremos), Dick dizia ouvir notícias de um rádio desligado, dentre outras pirações.
É da mesma década um livro bastante comentado e pouco lido: Laranja Mecânica. Neste livro, Alex e sua gangue sórdida praticam violência por puro prazer. O romance é de Anthony Burgess, mas adivinhe quem adaptou para o cinema? Kubrick! Foi em 71, e sem carregar nas tintas, mantendo-se fiel à mídia de origem, humildemente (tornando a produção outra das poucas adaptações dignas de nota). Infelizmente, para a maioria das pessoas o termo Laranja Mecânica refere-se à alcunha da seleção holandesa de futebol. E para um outro tanto, a obra de Burgess não deve ser encarada como FC. Felizmente, Kubrick amortiçou tais preconceitos e ignorâncias, realçando ainda mais o ponto de viragem onde mostra as cenas que descrevem o antológico método de lavagem cerebral, marcando bem os olhos arregalados da personagem Alex (assistindo incomodado a cenas de extrema violência, ao som da nona de Beethoven) e realçando os resultados da artimanha do governo. Obviamente, a leitura do livro é muito mais prazerosa, pois se viaja livremente pelo mundo das atitudes repugnantes de Alex e seus "druguis" (dentro da rica linguagem das ruas criada pelo autor). Não é à toa que um deles se chama Tosko. Destaque para o trabalho de tradução, merecendo inclusive uma nota introdutória do tradutor e um glossário na edição brasileira.
Na década de 70 foram exauridos quaisquer sentimentos de culpa pelo passado, e, percebendo que a ciência só é prejudicial se “cair em mãos erradas”, ressurgem os entusiastas das ciências aplicadas, depois do fiasco dos EUA no Vietnã. Os clássicos mais recentes da FC são dessa época. Neles tiveram origem o termo “robô” e as três leis da robótica, que já fizeram muitos autômatos e andróides entrarem em parafuso, e são respeitadas pela maioria das criações atuais. Isaac Asimov é o nome por trás de tudo isso, e também o pai legítimo de O Homem Bicentenário e Eu, Robô. Desculpem, mas os filmes conhecidos pela maioria são bem “menores” que sua obra – nem tanto na interpretação de Robin Willians, que soube captar a essência humana transmitida por Asimov, mas de forma homicida na atuação de Will Smith, aplacando a sede alienada de “ação” dos novos cinéfilos. Neste caso, o nome foi a única coisa aproveitada dos escritos originais. É importante deixar isto bem claro, para que não se tome Asimov pelo que ele jamais foi.
Mais tarde, quando se começou a falar a linguagem binária mais do que qualquer outra, parecia não haver outro caminho a se seguir. O cinema, logicamente, com Fritz Lang em uma ponta e os irmãos Wachowski em outra, não sentiu tanto o impacto. Seus roteiros originais servem muito bem a um meio que passa a falar mais alto que as letras impressas, em surround sound e alto volume. Vivemos uma época de saturação da comunicação, de mídias novas criadas e alteradas a cada instante, em plena “era da informação”, mais invocada que os summons de Final Fantasy. Não tendo para onde ir, ou não sabendo, coube à maioria dos criadores, fruidores, produtores e financiadores trilhar o rumo inverso. E o flashback, que parecia estar chegando ao fim, renasceu, e tudo indica que irá se perpetuar. É a era do resgate.
E não é que a mídia impressa encontrou sua galinha dos ovos de ouro na retomada do modelo da FC de outrora? E ainda repartiu sua descoberta com seus parentes diretos. Para eu ficar aqui discorrendo sobre cada uma das produções atuais, seriam necessárias ainda várias partes para este artigo. Vamos então apenas conversar sobre uma obra bastante significativa, abrangente e representativa das tendências mais recentes, mas que ao mesmo tempo traça seu próprio histórico paralelo.
Tudo começou com H.G Wells. Lembra que dissemos aqui que houve uma época em que ele produziu vários livros em um curto espaço de tempo? Um desses livros era Guerra dos Mundos, onde descrevia uma hipotética invasão de marcianos ao planeta Terra. Muito antes do filme de Spielberg, a história já passava por seu segundo grande momento*. Em pleno Halloween do ano de 1938, o ator Orson Welles (o mesmo que mais tarde viria a se consagrar com o festejado Cidadão Kane) levou mais de um milhão de pessoas sugestionáveis a saírem em disparada da cidade de Nova York. Foi uma simples adaptação de Guerra dos Mundos narrada e adaptada por ele, e difundida pelas ondas do rádio, que deixou a população em polvorosa. Muito mais do que isso – os assustadinhos desencadearam reações de pânico e histeria coletiva. Até hoje esta experiência é considerada uma prova inquestionável da força do rádio, e do poder subjetivo da comunicação; e, porque não dizer, da força da Ficção Científica, inclusive em quem se encontra alheio à sua existência. Se, no entanto, a experiência fosse levada a cabo nos dias de hoje, a receptividade e a reação poderiam ser muito diferentes, e a idéia poderia ser tachada de irresponsável...
O terceiro grande momento desse métier que conta boa parte da história da FC é bem mais recente, e por isso ainda fresco em nossa memória e sujeito a análises mais apaixonadas. Não, não é o filme de Spielberg. Estou falando de uma das grandes obras de Alan Moore: a excelente, malcompreendida e pouco respeitada Liga Extraordinária – talvez a história em quadrinhos mais irônica de todos os tempos. Neste primor de arte seqüencial, Moore utiliza o velho truque da apropriação de personagens de domínio público, mas não pelo caminho mais fácil do aproveitamento de suas virutdes heróicas, e, sim, pelos seus defeitos menos evidentes e falhas escamoteadas pelos autores originais, revelando facetas surpreendentes de respeitáveis gentlemen.
Nas páginas da Liga Extraordinária - Volume 2, somos postos diante de uma Londres sitiada por marcianos em fúria no comando de devastadores tripods (sim, é o que você está pensando!): prato cheio para Alan Moore destilar a tinta de sua pena. As sirenes disparadas pelos invasores antes de cada foco de destruição e a correria ensandecida dos cidadãos locais lembram um momento presente na dimensão da realidade: os atentados terroristas contra Londres. Fascínio seguro de um lado, ações mórbidas e desespero do outro, em uma triste coincidência. Mas a linha mestra que conduz essa história, como a anterior (o Volume 1) é mesmo a unificação de diversas criações artísticas e literárias da Inglaterra por um ângulo pouco conhecido. Nela ficamos conhecendo mais a fundo Mina Harker de Drácula e sua luxúria, Mr. Hyde de O Médico e o Monstro e sua perspicácia calculista, Alan Quatermain d’As Minas do Rei Salomão e sua fraqueza de espírito, Capitão Nemo das 20 Mil Léguas Submarinas e sua eterna desconfiança, e Hawley Griffin de O Homem Invisível e suas condenáveis motivações opotunistas.
Além deste último, é atribuição também de H.G. Wells a criação do famigerado Dr. Moreau, que na sua história Alan Moore sugere ter criado, através de uma técnica de “açougueiro”, o urso Rupert** e outros seres antropomorfos, fazendo uma mistura genial de ficções, como se tentou fazer em Van Helsing (aquele filme que já virou idéia fixa por aqui) em que o sr. Hyde era um gigante. O leitor mais astuto vai verificar facilmente que o tamanho do monstro na Liga também destoa da obra de Robert L. Stevenson (como já comentado aqui há duas semanas). Só que na Liga, o tamanho descomunal do monstro tem um motivo plausível: “Quando entrei em cena, eu era praticamente um maldito anão. Mas, desde então, meu crescimento tem sido irrestrito, enquanto Jekyll foi definhando até o nada”. Hyde é, portanto, a materialização dos pecados de Dr. Jekyll, seu alterego. Tá achando o que?! Moore pensou em tudo! Muitos “não entenderam as piadas” da HQ, considerando literalmente as citações capciosas de Moore, e não alcançando a riqueza dos referenciais contidos na coleção; nem mesmo os idealizadores da ridícula adaptação para o cinema, um filme entre aspas, primo rico e burro da história em quadrinhos. É por essas e outras que este relato vai ficar incompleto, com um abrupto ponto final, sem as considerações sobre o quarto grande momento - Guerra dos Mundos do cinema. Como não assisti ao filme, não posso cooperar. Me desculpem pela negligência, e até a próxima! ¤
*São classificados neste artigo, para fins “didáticos”, quatro grandes momentos de Guerra dos Mundos. Pelo menos dois deles são frutos de uma decisão arbitrária, visto que trata-se de uma história que rendeu milhares de sub-produtos de todas as formas, cores e tamanhos.
**Rupert é um personagem de tirinhas cômicas infantis bastante popular na Inglaterra. Foi criado há quase 50 anos pelo jornal “Daily Express”, e logo se tornou tão famoso por lá quanto Garfield. Em 2004 foi leiloado um livro de histórias de Rupert pertencente a Paul MacCartney (ele faz uma aparição também no vídeo We All Stand Together). Os brasileiros nunca tiveram muito contato com o urso, exceto por um desenho animado exibido pela TV Cultura, baseado nas histórias em quadrinhos. A relação desta personagem com a que aparece nas páginas de A Liga Extraordinária, apesar de evidente, é apenas uma dedução não confirmada, baseada nas roupas dos personagens. E como todo raciocínio dedutivo, pode estar equivocado.
No gramofone: The Scientist - Coldplay
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