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Rapsódia em Agosto
Por Tiago Cordeiro — Sexta, 12 de agosto de 2005
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Akira Kurosawa não é apenas o mais importante cineasta japonês que já existiu, mas também uma notória influência para o cinema comercial. George Lucas se inspirou em cenas de Os Sete Samurais para compor as cenas de ação com os Ewoks em O Retorno de Jedi e esse mesmo filme foi readaptado para o faroeste Doze homens e uma sentença, dirigido por John Sturges. Kurosawa conseguiu que seu filme Sonhos (talvez sua maior realização) recebesse o apoio de um certo Steven Spielberg, admirador confesso do diretor de Rashomon, entre outros filmes e foi o primeiro e único diretor japonês a receber o Oscar.
Por isso, quando estamos em agosto, mês que as bombas de Hiroshima e Nagasáki completam 60 anos, é quase impossível não recorrer ao mestre Kurosawa na árdua tarefa de tentar entender o que pode significar ter uma cidade de seu país arrasada por uma bomba atômica, obra-prima da estupidez humana.
Se em Sonhos Kurosawa conjeturou alguns de seus temores que o fenômeno se repetisse, foi apenas em Rapsódia em Agosto que o cineasta conseguiu tecer um panorama do que a bomba ainda significa no inconsciente (e consciente) coletivo japonês. O filme possui entre seu elenco Richard Gere, um dos ícones do star system norte-americano, representando o parente norte-americano de uma família japonesa, cuja avó Kane (Schiko Murase), a mulher mais velha da família, viu a bomba explodir e sofreu os efeitos da radiação. Os quatro adolescentes da família vão morar com a avó durante as férias, em Nagasáki enquanto seus pais viajam para o Havaí visitar um tio-avô doente. Após ouvirem o relato da avó a respeito da bomba, os adolescentes recebem a visita de seu primo norte-americano (Gere) que conta o outro lado da história marcado pelo arrependimento. Um arrependimento que se limita aos norte-americanos (certamente não todos) e não aos EUA, como república (uma das cenas mostra os adolescentes percebendo que entre todas as esculturas criadas para homenagear as vítimas da bomba de vários países do mundo, não há uma sequer do tio Sam).
Mais do que contar a percepção dos dois lados, Rapsódia em Agosto é o aviso de que o tempo - assim como a vida, mente e o perdão humano – é efêmero e que o perdão, declarações e pedidos de respeito e amor devem ser feitas o quanto antes. Na verdade, como diria Morrissey, vocalista da banda inglesa The Smiths em Ask: if is not the love/ than it´s the bomb/ Than it´s the bomb/ that bring us together (Se não for o amor/ Então será a bomba/ Então será a bomba/ que nos manterá juntos). Música que, assim como o filme, permanecem malignamente atuais, nos tempos da doutrina Bush.
Toda a história passa pelo drama de se decodificar não apenas a fragilidade de laços familiares, mas a sua vulnerabilidade perante tragédias como as de Nagasaki e Hiroshima. Para nós, ocidentais e orientais, fica a imaginação e o conhecimento de que hoje possuímos poder para repetirmos aquela mesma destruição várias vezes e em escalas muito maiores. Rapsódia em Agosto narra a explosão atômica não através de efeitos especiais ou com imagens de arquivo. É a história recontada não através de fatos – estes de conhecimento geral – mas através do olhar de quem viu as bombas caírem. Da cor triste de um episódio que deve ser lembrado não apenas para sabermos o quão longe podemos chegar, mas o quão perdidos ainda podemos estar.
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