10 anos da 2ª Bienal HQ

Por Rafael Lima — Quarta, 19 de novembro de 2003

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O pôster na parede do quarto não deixa esquecer: há 10 anos, eu vivia alguns dos dias mais felizes da minha curta vida. Tivesse um pouco mais de idade e poderia compará-los àquele final de ano em que o Flamengo foi campeão do mundo, mas era um tipo de alegria diferente, a que permeava o pavilhão do Centro Cultural dos Correios, onde acontecia a segunda edição da Bienal Internacional de Histórias em Quadrinhos do Rio de Janeiro.

Pensar que a convenção quase não sai, com os organizadores ainda na esteira das dívidas da primeira edição e a retirada do patrocínio pela então secretária de cultura da prefeitura, Helena Severo, a meio caminho andado, ameaçando tudo. Não fossem os apoios da UERJ e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que cedeu o espaço principal e ainda lançou selos comemorativos, além das empresas privadas, o evento não sairia.

Mas saiu, e, ao invés da enormidade de locais abrangidos na bienal anterior, o público ganhou com a concentração de exposições (e autores) num só quartel-general, o Centro Cultural dos Correios, no centro do Rio de Janeiro, a alguns metros da Candelária. Lá, estiveram expostos originais de Moebius (para o Major Blueberry), Liberatore (Ranxerox III), Julio Shimamoto, Flavio Colin, do belga Charles Jarry, do cubano Cecílio Alves Montalvo, de Bill Sienkiewicz, dos argentinos Carlos Nine e REP, do holandês Theo Van Den Boogard, dos paulistanos Laerte, Lourenço Mutarelli e Maringoni, de Joe Kubert (Tarzan), dos gaúchos Guazzelli, Fabio Zimbres e Adão Iturrusgarai, além dos vencedores do concurso promovido pelos organizadores e uma exposição muito comédia sobre os 30 anos da Mônica, na qual autores consagrados davam suas versões para a balzaquiana dentuça de Maurício de Souza.

Além dessas, no Museu Nacional de Belas Artes, duas salas foram ocupadas pelos novos da vanguarda do quadrinho espanhol (os da El Víbora, como Daniel Torres e Martí Riera) e pelas pranchas de Bill Sienkiewicz (na graphic novel Brought to Light e na biografia em quadrinhos de Jimi Hendrix, sendo feita na época). O Paço Imperial recebeu uma retrospectiva da revista italiana Linus (onde era possível ver os personagens de Angeli e de Johnny Hart falando italiano) e uma mostra temática de Veneza, com histórias desenhadas por Milo Manara, Hugo Pratt (lindos painéis gigantes da Fábula de Veneza) e outros, para não falar nas mostras dedicadas a São Paulo e Porto Alegre - o tema da bienal era "as cidades" - e nos desenhos de Jacques Tardi e Jano, na Casa França-Brasil: Tardi retratando a Paris dos romances de Céline, os quais vinha transformando em bandas desenhadas, e Jano registrando sua passagem pelas cidades da África e da Índia. Enfim, para um jovem apreciador de quadrinhos, era assim como se ele tivesse ido para o céu.

E se ele fosse suficientemente cético para não acreditar nos milagres, poderia se converter ao esbarrar em alguns dos próprios santos, circulando por ali, ou ao ser atropelado pelas verdadeiras procissões que seguiam Joe Kubert (que deu a palestra mais lotada da Bienal), David Mazzuchelli (o cavanhaque mais ridículo) e Bill Sienkiewicz (a fila de autógrafos mais longa). É nessas horas que os mitos se desfazem, e você acredita que Tanino Liberatore não pode ser um cara tão violento quanto as histórias que faz, ao vê-lo sair dum botequim empunhando, ao invés da dose de cachaça esperada, uma inofensiva garrafinha de guaraná diet... E restabelece as proporções do universo ao constatar que os franceses Jano e Wolinski passam mais tempo bebericando na birosca em frente ao pavilhão do que dando autógrafos. Como no livro O Menino Quadradinho, lançado anos antes pelo Ziraldo - cujas ilustrações, ampliadas, decoravam o saguão de entrada - era como se o leitor tivesse passado para o lado de dentro do mundo dos quadrinhos e visse, ao seu redor e em movimento, o que antes só existia em duas dimensões, no papel. Kim Deitch alertando sobre as dificuldades da auto-publicação; Lorenzo Mattotti destilando mistério e misantropia nos modos e na fala; Luiz Gê elucubrando por que a maior parte dos leitores era masculina; Veríssimo e Laerte num canto conferindo originais; Sergio Bonelli todo agrados... Fizeram forfait somente Alberto Breccia, muito doente, que acabou por falecer durante a Bienal, merecendo uma tocante homenagem durante a cerimônia de premiação; Hugo Pratt (também severamente adoecido, seguiria Breccia anos depois) e Jordi Bernet, fujão, que correu na última hora.

Só pude ter noção real da relevância daquela convenção anos depois, ao visitar outras exposições, mostras e museus, inclusive fora do Brasil, e o tempo, ao contrário do costume, só fez reforçar a excelente impressão que tive em termos de valor artístico e abrangência. Não se deve entendê-la como uma feira, apesar dos muitos álbuns e revistas vendidos, de alguns lançamentos de ocasião (como a Revista do Ota e a Cerol, ambas pela editora que o Ota tinha começado para relançar a Spektro, e que naufragou no ano seguinte) e independentes, como a Quadrinhos Tristes e única edição da Grimoire. Também houve espaço para os aspirantes contatarem editores, ainda que quase nada tenha saído dali (o país encontrava-se em séria crise pré-real) e aquele local de congraçamento não fosse exatamente o melhor local para negócio, como bem lembrou Ota, aliás, protagonista de um dos momentos inesquecíveis, o qual mudo de parágrafo para contar.

Justo na cerimônia de premiação da Bienal, um daqueles momentos especiais em que o mundo dos quadrinhos brinca de adulto com premiações e cerimoniais, o Ota, exausto pelo cansaço, desabou na única cadeira existente no palco e dormiu, à vista de todos, enquanto o Ricky Goodwin fazia as vezes de apresentador da cerimônia... Além da homenagem a Breccia, foram conferidos prêmios a Luiz Gê (o troféu máximo pela história Avenida Paulista) e Joe Kubert (o homenageado). É meio triste, ao ler os nomes dos agraciados, notar como praticamente todos as revelações do concurso sumiram de lá para cá, exceção perene a Marcelo Gaú – vejam como o mundo dá voltas: hoje, finalizando um álbum sobre a cidade de Salvador, a pedido de Roberto Ribeiro, um dos organizadores da Bienal, que teve a idéia de fazer álbuns sobre as cidades brasileiras depois de ver os trabalhos expostos de Jano sobre a Índia e a África.


Frutos? Em vista do triste estado em que o país se encontrava, seria utopia imaginar que um aquecimento do mercado, apesar da maravilhosa cobertura que Leandro Luigi fez na da edição de Sandman, para a editora Globo, na época. O mercado nacional claudicou e nem a estabilidade econômica a partir de 94 conseguiu produzir uma revista nos moldes da Animal, Circo ou Mil Perigos. Bill Sienkiewicz, George Pratt e Mazzuchelli vieram ao Rio nos anos seguintes, em eventos menores, e, devido a um problema com a prefeitura, não houve Bienal Internacional em 95. Nem em 97. Nem depois.

Mas numa boa história em quadrinhos, o final nunca é triste: abraçada pela prefeitura de Belo Horizonte, a proposta de Roberto Ribeiro e Emanuele Landi se mudou para Minas Gerais em 97, onde um festival – o FIQ, Festival Internacional de Quadrinhos - é realizado a cada dois anos, contando com a presença de autores como Paolo Serpieri, Kyle Baker, David Loyd, Jacques de Loustal, além dos melhores nomes brasileiros.




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