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Um livro essencial
Por Rafael Lima — Quinta, 11 de agosto de 2005
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Eloyr já andou falando por aqui, mas não vou me furtar a comentar de novo: o livro A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Junior (Cia das Letras, 2004), é a melhor reportagem histórica sobre histórias em quadrinhos no Brasil.
Roteirista e jornalista com bela passagem pelo suplemento Fim de Semana da Gazeta Mercantil, Gonçalo avisa na abertura que é uma história real, com mocinhos e bandidos.
Ao longo de todo o texto sobressai a figura de Adolfo Aizen, imigrante judeu russo que falsificou uma identidade baiana para contornar uma lei que impedia estrangeiros de possuírem empresas jornalísticas, lançou o primeiro suplemento jornalístico dedicado exclusivamente aos quadrinhos no Brasil (Suplemento Infantil, depois Suplemento Juvenil, como ficou mais conhecido), fundou a maior editora dos anos 1950 e 60 e foi incansável defensor das histórias em quadrinhos. A história de Adolfo Aizen, de editor falido ao sucesso definitivo da Ebal, culminando na lenta derrocada ao fim do século, atravessa toda a narrativa, ancorada também nas trajetórias de Roberto Marinho, Assis Chateubriand e Alfredo Machado.
É curioso, inclusive, ver como esses nomes se entrelaçam desde o começo: Machado fora repórter-mirim das edições de Aizen antes de se tornar distribuidor dos direitos de publicação de editoras estadunidenses e fundar a editora Record. Marinho recusara a idéia de editar um suplemento proposta por Aizen, seu ex-funcionário, e voltaria atrás com O Globo Juvenil, disparando uma inimizada só aplacada décadas depois, ao unirem forças contra a censura. Apesar do alerta inicial, Gonçalo deixa claro pela exposição dos fatos que não há mocinhos ou bandidos nessa história; mesmo um empresário implacável como Roberto Marinho é capaz de atos de magnanimidade para salvar a imagem dos quadrinhos. Do mesmo modo, é possível encontrar distintos defensores da nacionalização da produção como Ziraldo, Maurício de Souza ou José Geraldo Barreto defendendo abertamente a censura e o estabelecimento de cotas de mercado para os importados. O próprio Aizen não hesitava em se valer da ajuda governamental de seu protetor João Alberto toda vez que sua empresa ia mal. Nada é trivial, nada se resolve em 4 quadros.
O livro começa a pegar fogo mesmo a partir do crescimento empresarial de Roberto Marinho, quando donos de jornais que competiam pelo mercado começam a dirigir seus ataques aos quadrinhos, com o objetivo final de derrubar o empresário – o que não é de se estranhar, quando se olha para os números daquela época e descobre-se que chegavam a 20 milhões os exemplares vendidos por mês, números avassaladores mesmo considerando-se que jornais e revistas cumpriam o papel que seria ocupado por televisão, videogame e internet nos anos vindouros. O resultado teve um efeito colateral de tiro pela culatra: seus negócios não foram abalados, mas a imagem das HQs junto à opinião pública ficou seriamente comprometida.
Os ataques principais vinham de Orlando Dantas, em cuja garganta entalara uma disputa antiga, onde Marinho propôs que jornais fossem proibidos de distribuir prêmios em dinheiro (exatamente o estratagema comercial de maior sucesso de Dantas), que traduzia e publicava em primeira página os ataques aos quadrinhos norte-americanos; de Carlos Lacerda, defensor de uma linha moral que também servia para golpear seus inimigos políticos e dono de jornal adversário de Marinho e de Samuel Wainer, igualmente adversário de Marinho, e geralmente se centravam na obscenidade, incitação à violência e à delinqüência juvenil e à estrangeirização (leia-se americanização) dos costumes promovida pelos quadrinhos publicados por Adolfo Aizen e Roberto Marinho. Entre o fim da segunda guerra e o período militar, esses ataques ocorriam de maneiras tão difusas e violentas que não se furtavam nem a forjar fotografias ou propor a proibição sumária da publicação no Brasil.
Também é bastante instrutivo ler o livro para conhecer o posicionamento de diversas personalidades do meio cultural em relação aos quadrinhos, ao apenas pela curiosidade de saber que alguns futuros grandes homens de letras começaram suas carreiras ligados aos quadrinhos: Nelson Rodrigues traduziu (mal) e roteirizou para Alceu Penna, assim como Antonio Callado (autor de Quarup), em O Globo Juvenil; já Lúcio Cardoso (de Crônica da Casa Assassinada) trabalhou na redação de O Guri, a revista de Chateubriand. Interessante sobretudo porque uma das acusações mais comuns vindas de Dantas ou Wainer era a da ausência de conteúdo cultural nos quadrinhos. Por outro lado, o sociólogo Gilberto Freyre sempre se mostrou favorável à linguagem, defendendo seu valor educativo em discursos como deputado, contra os de Ary Barroso, e apoiando a adaptação de seus livros para quadrinhos. Foi exatamente essa idéia de adaptar romances e narrativas famosas para álbuns em quadrinhos uma das grandes sacadas de Aizen, que angariou o interesse de políticos, escritores como Jorge Amado – que reconheceu a importância para a divulgação de suas obras – e Cecília Meirelles, protagonista de uma virada de casaca exemplar: de anti-propagandista a defensora, ao conhecer as Edições Maravilhosas da Ebal. Nada como se informar um pouco, antes de dar opinião...
Gonçalo Junior ainda acha espaço para contar o surgimento de editoras menores ainda que relevantes para o mercado, como a La Selva e a Abril, em São Paulo e a Vecchi, no Rio; para recapitular os tempos da 1ª Exposição Didática Internacional de Histórias em Quadrinhos, feita pela turma de Miguel Penteado, Jayme Cortez, Reinaldo de Oliveira e Álvaro de Moya e dos catecismos de Carlos Zéfiro; dedica um capítulo aos episódios da guerra norte-americana dos gibis desencadeada pelo livro Seduction of the Innocent, de Frederic Wertham e encerra a história com o terrível desenlace do fogo cruzado entre artistas defensores da nacionalização, tubarões da imprensa, raposas políticas e editores entrincheirados, no qual quem perdeu, claro, foram as histórias em quadrinhos.
Uma leitura essencial e de referência definitiva para quem pretende entender como se formou o negócio de importar, produzir e vender histórias em quadrinhos no Brasil.
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