Nós vimos: Água Negra

Por Ederson Nunes — Quinta, 11 de agosto de 2005

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Solidão e angústia assustam mais do que fantasmas

Estreando em quarto lugar nas bilheteiras norte-americanas, Água Negra é o primeiro trabalho do brasileiro Walter Salles em Hollywood. Remake de um filme japonês de 2002, do diretor Hideo Nakata, por sua vez baseado num conto de Koji Susuki (os mesmos nomes envolvidos no sucesso O Chamado), tem roteiro de Rafael Yglesias (Sem Medo de Viver). E é justamente pelo roteiro e sua profundidade psicológica que, no material de divulgação, todos dizem que se apaixonaram. A história, então, inicia com Dahlia Williams (Jennifer Connelly) divorciando-se litigiosamente de seu marido insensível com quem discute a guarda da filha Ceci (Ariel Gade). Abalada com a separação, desempregada, vítima de crises de enxaqueca, ela vai procurar um novo apartamento. O mais barato que consegue achar fica em Roosevelt Island, um lugar que faz parte de Manhattan, mesmo parecendo não ser mais Nova Iorque: é um bairro decadente, triste, com complexos residenciais de arquitetura duvidosa. É também onde fica uma das melhores escolas da cidade, e esse é o ponto decisivo para que Dahlia resolva mudar para lá, apesar dos protestos do ex-marido, Kyle (Dougray Scott).

Seu novo lar é um apartamento de apenas um quarto num prédio escuro e cheio de problemas, a começar pelo porteiro, Veeck (Pete Postlethwaite), a própria personificação do edifício: um sujeito estranho, calado e mal-humorado. Logo coisas ruins começam a acontecer: uma infiltração escura sobre a cama, uma goteira que cada vez piora mais, passos no apartamento superior que deveria estar desocupado; Ceci com problemas na escola, porque só quer se relacionar com sua amiga invisível, Natasha; Dhalia tendo que procurar um advogado para se defender de Kyle, que a acusa de ser emocionalmente instável. E realmente, ela não é das pessoas mais sãs do planeta, devido à sua infância difícil: foi vítima de abusos por parte de seu pai, enquanto sua mãe vivia bêbada e a detestava. Isso tudo fez com que se apegasse muito a Ceci e vai fazer com que compreenda o motivo de estarem sendo importunadas pela presença de Natasha.

O mérito do roteiro está, basicamente, em não transformar o material japonês num amontoado de sustos e fantasmas terríveis. A água do título não é o que mais importa, já que não é um líquido assassino que sai atacando as pessoas, como em A Bolha Assassina. A água é apenas a representação de um espírito infeliz e solitário. Yglesias consegue fazer com que entendamos o mundo complicado de mãe e filha, numa vida completamente nova, para que, pouco a pouco, também possamos participar da sua aflição com os acontecimentos. Tudo vai se dando sutilmente: uma infiltração, uns passos, uns sussurros, o elevador, o apartamento 10-F, o terraço...

Se eu quisesse definir o roteiro com um sentimento apenas, eu diria: solidão. Todos os personagens são solitários, oprimidos pela cidade que gira em torno deles e isso, em certos momentos, é o que mais assusta. Num filme assim, em que o que importa não são os gritos nem o número de cadáveres, mas sim a interiorização dos medos e e angústias, os atores se tornam peça-chave e Walter Salles tinha um elenco primoroso, a começar por Jennifer Connelly. Acostumada com papéis dramáticos que beiram a tragédia (Réquiem por um Sonho, Casa de Areia e Névoa), ela se sai muito bem até debaixo d'água, literalmente. Reafirmando seu talento para dirigir crianças (como em Central do Brasil e Abril Despedaçado), Salles faz com que a menina Ariel Gade enriqueça cada cena. John C. Reilly (Chicago) como o corretor de imóveis que vende o apartamento é surpreendente, assim como Pete Postlethwaite (Em Nome do Pai), cuja expressão facial diz o que suas poucas palavras não revelam.

A direção de fotografia de Affonso Beato e a direção de arte de Therese DePrez são tão apropriadas que fazem com que o prédio pareça mais assustador do que qualquer fantasma, dando o clima perfeito para o suspense ir se desenvolvendo. E também a música de Ângelo Badalamenti, costumeiro colaborador de David Linch, ajuda o filme nos momentos mais dramáticos ou assustadores.

Segundo a revista Veja, Walter Salles não ficou contente com a edição final do filme, comandada pelos produtores. Não sei até que ponto essa afirmação está correta, mas concordo que a edição de cenas importantes ficou bastante insuficiente. Na seqüencia de maior impacto, tudo acontece, o desfecho (realmente aterrorizante) se dá, e já na próxima cena tudo está normal. A angústia dos personagens, que foi a base de todo o filme, de repente é substituída pela ânsia de acabar logo a história com um final bonitinho. Mas, como não é uma comédia romântica, um final bonitinho não é o mais apropriado e pode decepcionar um pouco. ¤




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