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Opiniões ao vento
Por Leonel Dorkboy — Terça, 18 de novembro de 2003
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Dia após dia, aqui no Sobrecarga, eu relato notícias do mundo das HQs, em geral destilando opiniões e gostos pessoais, sem tentar disfarçar isto muito bem. Mas e você, leitor, quando deve levar minhas opiniões em conta? E quando que elas são apenas um monte de bobagem? Quando dois fãs de quadrinhos se encontram pela primeira vez, é normal perguntas do tipo “o que você está lendo?” ou “quem são seus preferidos?” para evitar ofender o argumentista favorito do outro e acabar naquelas discussões intermináveis do tipo “Rob Liefeld não é picareta não, ele é um gênio mal-compreendido!”. Para este tipo de discussões, deixamos os fóruns de quadrinhos da internet...
Portanto, assumindo que algum de vocês, leitores, tenha feito mentalmente essas perguntas, eu vou dar o meu “relatório” sobre o que estou lendo e quais são meus favoritos dos gibis publicados no Brasil hoje em dia. Tenham em mente: isto não é uma lista completa (pois o meu bolso não permite que eu acompanhe tudo) nem absoluta (pois eu não sou o Messias para dizer quais quadrinhos vocês devem ou não ler), mas apenas um relato dos meus gostos, para que vocês saibam com quem estão lidando quando eu voltar a emitir opiniões. Caso alguém se interesse, também pode servir como um “guia de leitura de HQs no Brasil segundo Leonel Dorkboy”, mas isto fica por sua conta e risco...
Vamos aos gibis, então!
Começando pela melhor, podemos dizer que Preacher, publicado por aqui pela Brainstore, é talvez a melhor HQ do Brasil atualmente. Depois de uma trajetória de trancos e barrancos passando por diversas editoras, a história de Garth Ennis e Steve Dillon parece ter estacionado mesmo na Brainstore, que vem fazendo um trabalho de qualidade com o reverendo Jesse Custer. Preacher, para quem não sabe, conta a história de um pregador de uma pequena cidade no Texas (o Jesse Custer mencionado acima) que recebe o “espírito” Gênesis, um ser meio-anjo meio-demônio com poderes divinos. Após uma série de acontecimentos, Custer decide sair pelo mundo à procura de Deus, para fazê-lo responder pelo que está errado no mundo. Contudo, o misticismo e religiosidade são apenas um pano de fundo para uma história western moderna, com heróis durões à moda antiga e um estranho senso de honra. Preacher não é para todo mundo: o excesso de palavrões, violência e referências religiosas fazem com que só maiores de idade (e maiores de idade bem-humorados) sejam o público do gibi. Mas, para quem souber ver a qualidade dentro da história, existe um elemento humano muito forte (com talvez a melhor personagem mulher das HQs, Tulipa) e ação divertidíssima. Fica a minha recomendação e o meu aviso. Na verdade, comecei “roubando”, pois eu li Preacher no original importado, e não estou comprando o nacional...
Continuando na Brainstore (que faz um excelente trabalho com quadrinhos), vamos dar uma olhada em outro ótimo título, Transmetropolitan. O gibi conta a história do jornalista renegado Spider Jerusalém, que escreve colunas ferinas no jornal The Word que o tornam uma das figuras mais amadas e odiadas da cidade onde vive (chamada somente de “A Cidade”). Eu já falei de Transmetropolitan em uma coluna passada, então não vou me alongar muito. Basta dizer que o tema do gibi é política, e este tema é tratado de uma forma divertida e mordaz. Uma eleição se torna muito mais emocionante do que um conflito de seres super-poderosos. A única crítica que se pode fazer é o preço: por R$ 7,90, bem que poderiam vir duas histórias por edição, não é? Mas, como eu sei que as editoras brasileiras (principalmente as que ousam e publicam títulos adultos) passam por sérias dificuldades, não vou criticar muito.
Ainda pela Brainstore, temos o fantástico Hitman, um título inteligente e original mas que prima mesmo pela diversão. Hitman é a história de Tommy Monaghan, um assassino de aluguel especializado em matar super-heróis. Monaghan vive em Gotham City (isso mesmo, ele é oficial no universo DC), e, após uns probleminhas com demônios, adquiriu os super-poderes de visão de raio X e ler pensamentos. Novamente é Garth Ennis quem escreve as histórias, e o excelente John McCrea as desenha. O forte de Hitman é a ação (tiroteios homéricos!) e o bom humor com que o autor (e o personagem) vê o universo dos heróis. Monaghan já vomitou nas botas de Batman, usou a visão de raio X para ver por baixo da roupa da Mulher-Gato e chamou o Lanterna Verde de burro. Contudo, a seriedade está ainda muito presente nas histórias do assassino de aluguel (que, segundo ele mesmo, só mata “caras maus”), em seus relacionamentos, medos a na morte das pessoas que ama. Interessante ver como o personagem teme mais (muito, muito mais) os soldados ingleses das forças especiais S.A.S. do que o próprio Lanterna Verde...
Além destes, não deixe de conferir Os Invisíveis, de Grant Morrison (que, novamente, eu li no importado, e portanto estou trapaceando ;) ) e Hellblazer.
Vamos agora dar uma analisada nos títulos da nossa “gigante dos quadrinhos”, a editora Panini.
A Panini encarou a bronca de trazer qualidade (finalmente!) para o mercado brasileiro de super-heróis, e, ao que parece, está tendo um bom retorno (isto é, eu não tenho nenhum dado oficial, mas quando uma empresa expande sua linha de produtos isto é um bom sinal, não é?). Começando primeiramente pela Marvel, a Panini em seguida abraçou também a DC (com a saída da editora Abril do páreo), e vem não apenas mantendo um padrão, mas melhorando-o.
Começando por um dos carros carros-chefes: Homem-Aranha é um título que, surpreendentemente, está ótimo. O “mix” da revista conta apenas com histórias do Aracnídeo (já que ele tem trocentos títulos nos States), e, apesar de contar com diversos argumentistas e artistas, mantém um padrão elevado. O ponto alto do gibi são, sem dúvida, as histórias de J.Michael Straczynski e John Romita Jr.. O impronunciável escritor cria histórias simples, divertidas e inteligentes, e o pequeno Romita está na sua melhor forma, desenhando os personagens com elegância e originalidade. Straczynski (o criador da série Babylon 5) já teve vários temas em suas histórias, mas a linha mais interessante (e para a qual ele segue voltando) é a exploração das origens “ocultas” dos poderes do Aranha. Misturando a origem que nós já conhecemos (científica) com especulações sobre poderes totêmicos do animal aranha, da proteção do “espírito da aranha” e outras maluquices, o escritor joga uma nova luz no herói sem contudo estragar o que já foi feito no passado. Ao invés de uma revisão que bagunça com toda a história do personagem, Straczynski formula especulações pela boca de diversos personagens (em especial Ezekiel, um novo aliado do Aranha), que podem ou não estar certos sobre suas opiniões. Os novos vilões que ele apresenta também seguem, em sua maioria, este tema, apresentando-se como predadores para a aranha dentro de Peter Parker, e provocando o lado mais animalesco do personagem tão “cerebral”. Além disso, os diálogos de J.M.S. e a maneira como ele lida com os personagens (em especial Mary Jane) são magistrais, divertidos e engraçados. Uma pérola. Ainda nas páginas de Homem-Aranha, temos as histórias de Paul Jenkis (escritor) e Mark Buckingham (artista), que nem chegam aos pés dos seus companheiros de revista. Jenkins opta por fazer tramas absurdas ou previsíveis (um vilão com todos os poderes do universo Marvel enfrenta o Aranha! Oooh...), mergulhando no chavão de fazer o herói amargurado e violento. Totalemente dispensável. Além disso, temos as histórias de vários times criativos da revista americana Tangled Web, que nos apresentam tanto jóias como a engraçadíssima Quinze Minutos de Vergonha, de Zeb Wells e Jim Mahfood quanto as histórias sem-sal de Ron Zimmerman (e seu horrível personagem-fetiche, o filho do caçador Kraven). No geral, um saldo bastante positivo, e um gibi que vale a pena.
Como isto aqui já está longo demais, espere pela semana que vem, quando nós continuaremos analisando a minha visão arbitrária, pessoal, incompleta e cheia de falhas das HQs sendo publicadas no Brasil atualmente. Até lá!
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