Quadrinhos como trampolim para a leitura?

Por Eloyr Pacheco — Sexta, 5 de agosto de 2005

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Eu já discuti aqui na CMYK que quadrinho é arte é ponto final. Agora voltei a me deparar com um discurso que conheço há muito tempo e ainda é recorrente: as Histórias em Quadrinhos servem com trampolim para a leitura. Esse discurso, que sempre critiquei, eu já encontrava em salas de aulas quando, nos idos da década de 1990, ia às escolas divulgando a arte seqüencial, época em que dava palestras para professores mostrando que os quadrinhos poderiam ser úteis na educação.

Esse tipo de colocação ainda me incomoda, e muito. Quadrinho também é literatura. Lembro-me que fiz um anúncio para a divulgação da Spirit Magazine, lançada pela hoje extinta Metal Pesado, onde eu batia na tecla: literatura em quadrinhos. E não é somente a obra do mestre Eisner que é merecedora desse jargão. Não preciso dizer de novo que quadrinho é a conjunção de várias formas de expressão: literatura, ilustração...

Há pessoas que dizem que começaram a ler quadrinhos e depois que tomaram gosto pela leitura foram ler livros. Mas, pararam de ler quadrinhos? Por quê? Se uma pessoa lê apenas quadrinhos ela não deixa de ser um leitor e está absorvendo uma forma de literatura. Está lendo, o que é muito importante. Por que é que ela tem que ir para os livros como se os quadrinhos fossem apenas uma forma de encaminhamento para a leitura “formal”?

É claro que, assim como na literatura, nos quadrinhos também temos que “separar o joio do trigo?” Imagine: se um cara lê somente best sellers (como se necessariamente um best seller tenha de ser ruim, outro preconceito...) e nunca leu um clássico da literatura, então ele também não é leitor?

Eu como produtor (e consumidor) de Histórias em Quadrinhos, defendo que as HQs são uma opção de leitura e não um trampolim para a leitura. Todas as colocações contrárias têm um ranço de preconceito que vem de colocações como: as Histórias em Quadrinhos deixam o raciocínio lento. Há pessoas que ainda defendem que os quadrinhos tolhem a imaginação do leitor porque oferecem imagens para narrar a história. Lendo um livro o leitor tem espaço para “exercitar” sua imaginação. Bem, se os quadrinhos tolhem a imaginação, então podemos dizer o mesmo das pinturas, da fotografia... O que o artista quer, ao pintar um quadro (independente do estilo) ou fazendo uma fotografia, não é passar uma visão sua?

Creio que os quadrinhos então, nesse caso, passam uma visão dos artistas que você pode concordar ou não. Filosofando um pouco, imagine uma foto da sua cidade ao entardecer. Preto e branco. O sol no horizonte projetando muitas sombras. Embora seja um retrato da realidade, também é algo que pode ser pura imaginação, fantasia, para você que nunca viu tal cena. E você pode até questionar o ângulo das sombras, achando que aquilo não é real, que é somente uma “reprodução artística da realidade”, só porque você nunca viu tal cena. O que o fotógrafo está fazendo é compartilhar com você uma visão que ele teve da mesma cidade que vocês co-habitam. Nos quadrinhos, o artista está lhe passando uma visão que ele tem dos personagens e você pode questionar sua posição, porque o personagem é mais forte e que ele o desenhou muito franzino, que ele não reagiria assim em tal situação, mas de outra forma... Aliás, os quadrinhos suscitam, e muito, esse tipo de discussão. Isso é um dos motivos que os tornam tão atraentes.

Bem, tudo não passa de um exercício imaginativo, retratando a realidade ou compartilhando “viagens”.

Finalizando por hora, ler quadrinhos é uma opção de leitura. Ninguém deve coibir esse tipo de leitura ou obrigar alguém a passar a ler livros porque já se acostumou a ler através dos quadrinhos. ¤




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