Lendo à luz de velas

Por Elias Lascoski — Sexta, 29 de julho de 2005

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Existia um apreciado ramo da arte que encontrava nos sentimentos humanos, muitas vezes no medo, o combustível para criar as situações mais absurdas ou horripilantes. Chamava-se literatura. Até hoje não se sabe o que Dante, no Inferno da alegórica Divina Comédia, quis dizer com Pape Satan, Pape Satan, Allepe, emitido pelos lábios do demônio Pluto. Não é preciso dizer que existem milhares de palpites sobre o teor da mensagem, todos bastante funestos. Goethe também sabia lidar com esse sentimento primário e instintivo das pessoas, e criou uma atmosfera macabra para contar a história de um homem, Fausto, que vendeu sua alma a Mefistófeles, e conheceu todas as agruras de um pacto dessa natureza.

Até mesmo os contos de fadas de Esopo, La Fontaine, Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen são bem assustadores se vistos bem de perto. Os inocentes Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, são histórias repletas de cenas bem mais bizarras do que aparentam (não os desenhos da Disney, é óbvio). Quanto a Lewis Carrol e sua Alice, basta dizer que ele era um pedófilo assumido, e até hoje é um dos suspeitos de ter cometido os crimes de White Chapel. Em suas histórias, muitos cogumelos e a descrição de cores inexistentes, além de metáforas a cultos pagãos (como ele mesmo admitiu em algumas cartas).

Edgar Allan Poe nos ensinou que, ao contrário do que se diz por aí, a ficção pode ser muito pior que a realidade. No fundo, ele era um otimista. Visionário que era, estabeleceu as bases da especulação científica, e fundou um dos alicerces da ficção como a conhecemos. Fez pousar em nossa soleira o corvo do medo, e a dúvida que ele projeta sobre nossa percepção do mundo à nossa volta não nos abandonará nunca mais.

H.P. Lovecraft, muito antes de qualquer estadista, provou que uma mentira bem contada, e repetida muitas vezes, transforma-se na mais pura e cristalina verdade. O engodo do Necronômicon perdura até hoje (não que isso fosse sua intenção). Os mitos de Cthhulhu, apesar de impronunciáves, povoam as mentes de seus admiradores, e apesar das monstruosidades imensas, cabem certinho em produtos de consumo bem mais prosaicos (Alone in the Dark, saga dos games e filme, é só um dos tantos exemplos).

Bram Stoker seria um nome esquecido, não fosse sua inspiração para o aclamado Drácula. Ali nasceram as histórias de vampiros. O próprio termo “vampiro”, com a denotação que conhecemos, nasceu ali. Também germinaram nas páginas de Drácula os chavões vampirescos mais conhecidos, como estaca no peito, alho e ausência de reflexo, e também o modelo do qual fizeram uso os produtores do cult movie Nosferatu, além dos afixionados por RPG (A Máscara, em especial). Frankenstein, de Mary Shelley e O Médico e o Monstro, de Robert L. Stevenson (surpreendentemente o mesmo autor de A Ilha do Tesouro) são conhecidos hoje pelas suas aparições em desenhos animados, mas também já assustaram muita gente. Estes personagens serviram também a uma tentativa tacanha de popularizar o terror, transformando-o em “terrir” com a superprodução Van Helsing, onde todos os monstrengos coexistiam desarmonicamente. Pra começar, o personagem-título não é o mesmo do livro de Bram Stoker. O Frankenstein do filme é inofensivo de dar pena, e o Mr Hyde é enorme, bem diferente do anão que Stevenson descreve em seu livro. Mas até que é divertido ver tanta aberração reunida.

Voltando à vaca fria: quem soube, com maestria, dar vazão e amplitude aos nossos medos latentes mais superficiais, foram os escritores contemporâneos, e já consagrados. Clive Barker instituiu novos mitos que têm o efeito de um gélido sopro na nuca: seres infernais conhecidos como Cenobitas, liderados pelo medonho Pinhead (tais esquisitices foram levadas ao cinema na série Hellraiser). Neil Gaiman é outro que lida de certa forma com medos, não através do terror, mas de uma fantasia sedutora e perturbadora ao mesmo tempo, bem ao gosto dos ingleses. Basta lembrar que a história do bruxinho mais famoso da atualidade tem tudo a ver com um personagem criado por ele, mas bem menos “engraçadinho”. Mas o melhor (ou o pior), está reservado para o final: Stephen King.

Nascido em 1947, e já aposentado, é reconhecido como um dos mais notórios escritores de horror e ficção de sua geração, o que já garante um acalorado debate. E se prestarmos bem atenção, podemos pescar elementos recorrentes em toda a sua obra. Ele mesmo admitiu, a seu modo, ter escrito “apenas um livro” em toda a sua vida. E não se referia a um livro específico, e sim ao modelo padrão que desenvolveu, e que integra o âmago de todos os seus livros. Isto pode ser encarado, não como comodismo ou oportunismo, mas como a determinação de um estilo muito bem definido, uma marca que faz com que paremos para pensar por apenas um segundo, para logo em seguida emitirmos o veredito: “isto é coisa do Stephen King”.

Só que ninguém diz uma coisa dessas sobre si mesmo e sai impune. A falsa modéstia de King, que ao longo da carreira assumiu alguns pseudônimos, foi encarada por muitos como prova de inépcia. Harold Bloom foi um dos tantos críticos ferrenhos, sem papas na língua, a disparar contra a obra do mestre do horror e seus admiradores: “Stephen King é literatura de terceira categoria. Se acreditam que existe em sua obra algum valor literário, realização estética ou sinal de inteligência humana criativa, estão dando o testemunho da própria imbecilidade."

Alguns de seus fãs, pelo menos os mais espertos, discordam da assertiva. Isto porque, para eles, King nunca fez literatura - assim como punk rock não é música clássica. Os livros de King são como Coca-cola: feitos para vender. É puro marketing, mas, diferentemente de Paulo Coelho, King sempre criou pautado no pleno entretenimento do leitor, jamais alegando “crescimento interior” ou coisa parecida, revestido de uma aura de superioridade forjada. Nada disso o impediu de banhar-se na luz dos holofotes da fama, desafiando nosso senso crítico.

Sua obra-prima é O Iluminado, sem a menor sombra de dúvida, ainda que lá ele utilize a mesma munição de sempre. Merece a medalha de ouro. Como na maioria de seus contos e romances mais conhecidos, lá tem um personagem afrodescendente bastante carismático e forte: Dick Halorrann. Tem também um lugar isolado: o hotel Overlook. E tem também o clichê máximo do horror: um menininho meio paranormal, bastante tímido e inseguro, no caso, Danny. Mas cabe a essa obra o pioneirismo da fórmula copiada por filmes de diversas épocas, como O Chamado e O Sexto Sentido (do novo mestre M. Night Shyamalan). O Iluminado também virou película, pelas mãos do “imbecil” Stanley Kubrick (outro nome bastante citado por aqui), com Jack Nicholson (!) interpretando Jack Torrance, e Tommy, o menino imaginário, sendo interpretado pelo dedo do menino que faz o papel de Danny. O filme trouxe ao grande público (não que o livro tenha vendido pouco, muito pelo contrário) os mesmos dramas psíquicos e o terror não tão evidente e escancarado do livro, com estranhas visões e um mundo paralelo que em muito lembra o do game Silent Hill (breve nas telonas).

Mas algumas outras criações suas também merecem registro. E como já vimos que tudo acaba virando filme, vamos coferir as dispersas obras adaptadas de Stephen King agrupadas por sua característica comum de movimento quadro a quadro. E, como diria Lewis Carrol, vamos por partes.

O cinema sempre esteve de olho nos livros de Stephen. cerca de 50 de seus livros (ou contos) já foram levados à telona. Boa parte desses filmes promissores acabou revelando tremendos fracassos - como Fenda no Tempo (dos comedores de passado, langoliers) Às Vezes Eles Voltam, Sonâmbulos (homens-gatos à la Nightcrawler dos X-men), e Christine, o carro assassino (um Plymouth Fury 58 vermelho, que tem vida própria e persegue todos os desafetos do dono, provando que a paixão entre homem e carro não é exclusividade dos brasileiros. O filme há muito tempo não pinta na TV, mas o livro é a coqueluche dos sebos). Não fosse a pretensão de superproduções, seriam dignos representantes do cinema trash. Outras são obras-primas relativas e não unânimes, como Carrie, a estranha, de 76 (primeira adaptação da obra do autor, por Brian de Palma).

Muito embora sua obra se destaque na literatura de terror/horror, as grandes obras que fogem a este gênero foram as responsáveis pela divulgação de seu trabalho nos cinemas, salvando a reputação do escritor. Conta Comigo, de 86, é a adaptação de um conto de Stephen King chamado O Corpo, presente no livro As Quatro Estações. O filme durou uns 15 anos, com exibições regulares na Sessão da Tarde (talvez superando a marca de Curtindo a Vida Adoidado e Os Goonies, apesar de não tão rememorado), e deve seu sucesso ao caráter intimista do conto, que explora um campo mais humano, focando a ternura da amizade e cumplicidade entre quatro meninos que andam pelos trilhos e contam histórias em torno da fogueira. A descoberta de um cadáver é o pretexto para que eles aprendam valiosas lições que levarão para o resto de suas vidas. Frases inesquecíveis: “Pega no saco, Bocarra!” e “Boom, baba, boom, baba, boom”. Medalha de prata.

Um Sonho de Liberdade , de 94, é adaptado do conto homônimo (no original) The Shawshank Redemption, também de As Quatro Estações, e igualmente atípico, se comparado ao estilo usual de King. Trata-se de um excelente drama que conta a história de Andy Dufresne (Tim Robbins), um jovem banqueiro que é condenado à prisão pelo assassinato de sua esposa e seu amante. No rastro de seu sucesso, foi lançado em 99 À Espera de um Milagre, filme predileto de 9 entre 10 candidatas a miss. O filme é muito fácil de ser digerido (não que se espere mais de Hollywood, mas aqui o caso é sério), e é baseado em uma série de libretos intitulados O Corredor da Morte (The Green Mile). O filme retrata o relacionamento especial do policial Paul Edgecomb (Tom Hanks) com o condenado John Coffey (Michael Clark Duncan), um amável brutamontes limitado intelectualmente, mas com um grande coração e muitos mistérios, condenado injustamente à cadeira elétrica. Emocionante e com cenas fortes, mas superficial e maniqueísta, adequado ao público médio. No todo, uma coleção ambulante de chavões e personagens bonzinhos e malvadões. Para uma maior compreensão do tema “pena de morte”, o melhor mesmo é ler o romance A Sangue Frio de Truman Capote. Bronze.

Temos ainda obras mais recentes, como O Apanhador de Sonhos (2003), uma história bastante confusa sobre extraterrestres, com duas fases bem distintas, onde se retoma o assunto do valor das amizades e se repete também a fórmula do personagem com deficiência mental e poderes sobrenaturais, além, claro, das manjadíssimas lendas indígenas. Merece uma menção “honrorosa”. Outra é o quase autobiográfico Janela Secreta, cuja adaptação levou aos sets o ator... Johnny Depp, onde é resgatado outro tema batido: escritor em crise estranhamente acusado de plágio, por um caipira que diz ser o verdadeiro autor de um de seus contos. No melhor estilo Clube da Luta (adaptado da obra de Chuck Palahniuk, mais um doidão), no final descobre-se que... Bem, se você já viu, conhece o desfecho da história; se ainda não viu, não vai ficar querendo saber o final agora.

Amado ou odiado, é inegável a participação de Stephen King na cultura, e sua contribuição, mais do que para a “literatura”, para a sétima arte. É um autor que volta e meia pisa na jaca, mas com estilo. Vida longa ao rei. ¤




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