Ficção que (quase) se confunde com a realidade

Uma das mais bem sucedidas adaptações dos quadrinhos até hoje não foi nem
X-Men, nem
Homem-Aranha e muito menos
Hulk, ou
Demolidor. A fidelidade dos quadrinhos foi alcançada por
Sin City. Tudo bem que o espectador pode pensar que fazer mutantes com poderes extraordinários, ou pessoas que escalam prédios e soltam teias pelas veias, ou homens que se transformam em feras verdes seja muito mais complexo e custoso e, portanto, bem mais difícil do que a simplicidade dos personagens dos quadrinhos de
Sin City, mas esse tipo de comparação não é uma justificativa.
No item “orçamento”
Sin City também está muito longe dessas produções citadas acima com “apenas” US$ 45,5 milhões, mas onde, por esse orçamento, alguém conseguiria reunir celebridades como:
Mickey Rourke (Marv);
Elijah Wood (Kevin), que prova que bons atores nem precisam falar para aparecer;
Carla Gugino (Lucille);
Bruce Willis (Hartigan), mostrando seu personagem um herói maduro, que não pensa que é indestrutível;
Jessica Alba (Nancy Callahan);
Benicio Del Toro (Jackie Boy), com participações sempre marcantes;
Clive Owen (Dwight);
Michael Madsen (Bob), matador já quase profissional, já tendo feito
Kill Bill 1 e 2,
Cães de Aluguel,
A Experiência 1 e 2, entre outros;
Michael Clarke Duncan (Manute), que já fez “O Rei do Crime” de
Demolidor;
Rutger Hauer (Cardeal Roark);
Powers Boothe (Senador Roark). Tudo isso, claro, sem contar com a direção de
Robert Rodriguez e uma pitada de
Quentin Tarantino, por que, afinal de contas, diretor também ganha, não é mesmo?

A participação de Tarantino, inclusive, é bastante curiosa, pois uma vez que Robert Rodriguez compôs a trilha sonora de
Kill Bill - Volume 2 (2004) pelo preço simbólico do US$ 1, Tarantino resolveu retribuir ao amigo dirigindo um dos segmentos do filme pela mesma quantia. Nos créditos Tarantino aparece como “Diretor Especialmente Convidado”.
Aquilo que Ang Lee tentou fazer com
Hulk, no que diz respeito a um filme com “cara” de revista, foi atingido de forma quase que impecável por Robert Rodriguez na adaptação dos quadrinhos de
Frank Miller. O filme, assim como nas revistas é quase 90% em preto e branco, tendo o vermelho do sangue, ou do vestido, o amarelo do personagem
Yellow Bastard interpretado por
Nick Stahl e a cor dos olhos de uns poucos personagens como as únicas cores que aparecem.
Sin City – A cidade do Pecado foi inteiramente rodado sob uma tela verde com os atores contracenando e a ambientação sendo posteriormente incluída, processo semelhante usado em
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (2004). Os carros usados no filme são reais.
Frank Miller ainda faz uma pequena ponta interpretando um padre e algumas cenas do filme usaram as próprias revistas como
story board.
O filme situa-se na fictícia e corrupta cidade de Sin City e interliga três histórias, cada uma tendo um personagem principal, que são: Hartigan, um policial prestes a se aposentar, que deve proteger a stripper Nancy; Marv, um brutamontes psicótico, que vive à base de remédios para manter a lucidez e que quer vingar a morte da única mulher que realmente amou; e Dwight, que defende Gail e suas garotas da mira de Jackie Boy, um policial corrupto e violento. Essas histórias são todas baseadas em
graphic novel, sendo elas:
O Assassino Amarelo (
That Yellow Bastard),
A Grande Matança (
The Big Fat Kill) e
A Cidade do Pecado (
Sin City).
O filme é extremamente violento, deixando-se muitas vezes chegar na banalização, como Marv, que faz questão de torturar suas vítimas até quase não agüentarem mais antes de matá-las, ou como Junior/Yellow Bastard, que é um pedófilo e estuprador de crianças. A censura com certeza deve atuar de forma rigorosa, não sendo liberado para menores de 16 anos, mas nunca se sabe.
Diferente também dos seus antecessores,
Sin City - A Cidade do Pecado não segue uma ordem cronológica simples, com começo, meio e fim, como estamos acostumados, o que dá um ritmo forte ao filme. O começo não necessariamente é o começo e o fim não necessariamente é o fim e acabamos a sessão com um gostinho de “quero mais”. As cenas mostradas no filme são tão passíveis de serem verdadeiras, que ficamos imaginando se pode existir uma metrópole onde ricos e pobres dividem quase que o mesmo espaço, com guerrilhas urbanas, policiais corruptos, senadores que compram votos, violência banalizada... Ficção e realidade quase se confundem por algumas horas... mas
Sin City é só um filme, hein!
Bom filme... e paz e amor! ¤