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Nós vimos I: Sin City - A Cidade do Pecado
Por Alexandre Sivolella Barreiro — Quarta, 27 de julho de 2005
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"Metralhadora em estado de graça"
Para os fãs de histórias em quadrinhos (HQ), a indústria cinematográfica tem sido bastante generosa nos últimos anos. Esse fenômeno das adaptações, no entanto, não é recente, bastando lembrar que no fim dos anos 70 e início dos anos 80 o Homem de Aço estrelou quatro filmes nas mãos de três diretores diferentes, com resultados igualmente diversos.
Parece que essa flutuação de qualidade é a marca do diálogo entre HQ e cinema. Com exceção das tentativas de fazer dinheiro pura e simplesmente, sem nenhuma consideração pela qualidade do produto final, os poucos bons filmes que surgiram fizeram história. Só para citar alguns, ficamos com o Batman de Tim Burton, o próprio Super-Homem de Richard Donner e o Conan, o Bárbaro de John Milius.
Sin City, A Cidade do Pecado, o novo filme do irregular diretor tex-mex Robert Rodriguez (de El Mariachi, Desperado, Spy Kids, Era Uma Vez no México), em co-direção com o autor da HQ original, Frank Miller, se encaminha para fazer história. Os co-diretores resolveram utilizar como base para esta adaptação três dos livros da série, o que certamente confere mais agilidade e impede que o projeto se perca na pretensão de exaurir os diversos desdobramentos da história original. Uma certa concisão não faz mal a ninguém.
A essência de Sin City, a série em quadrinhos, está ali. O clima noir, o desenho magnífico, as tramas e subtramas que chegam a confundir o espectador desavisado, a fragilidade dos valores morais e éticos numa sociedade corrompida, os personagens multifacetados. O filme tem alma. E isso é muito. O resultado alcançado consegue ser uma perfeita combinação entre a concepção de Miller, orgânica e profundamente visceral, e a realização de Rodriguez, que se valeu das mais avançadas técnicas digitais, especialmente em termos de fotografia e cenografia, para criar um universo particular e altamente expressivo. Se os ortodoxos podem até torcer o nariz, os mais inebriados pela experiência vão poder certamente experimentar momentos de grande júbilo.
Sin City vem com grande elenco: Bruce Willis (Hartigan), Mickey Rourke (Marv), Jessica Alba (Nancy), Clive Owen (Dwight), Nick Stahl (Roark Jr./Assassino Amarelo), Rutger Hauer (Cardeal Roark), Elijah Wood (Kevin), Rosario Dawson (Gail), Benicio del Toro (Jackie Boy). Um ou outro ator parece não ter entendido muito bem o seu papel na história, especialmente o elenco de apoio que não segue à altura o elenco principal.
Em relação aos atores, aliás, vale ser elogiada a interpretação de Mickey Rourke, que a grande imprensa nacional e internacional menciona como ressurgido das cinzas com esse novo trabalho. Sem dúvida, Rourke parece renascer como o carismático anti-herói brutamontes Marv, que envereda por um caminho de vingança total contra os homens que contribuíram para a morte da única pessoa que amou em toda a sua vida, a única que o tratou como ser humano, a prostituta Goldie. A questão, no entanto, é que Rourke está tão bem que é espinhoso descobrir se foi alguma coisa antes de ser Marv.
Sin City é uma “metralhadora em estado de graça”, como diria o poeta Roberto Piva. Aponta para todos os lados e não poupa nenhuma de suas vítimas. Não teme em envolver no mar de lama que é o microcosmo em que vivem seus personagens a Igreja, o Estado e os mais diversos representantes da sociedade. Ninguém escapa, nem mesmo as prostitutas, os bêbados e os desocupados. ¤
Crédito das imagens comparativas entre a HQ e o filme: Film Rotation
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