Maus, obra-prima de Spiegelman

Por Rafael Lima — Quarta, 27 de julho de 2005

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Talvez nem Art Spiegelman imaginasse o vulto do resultado, quando começou sua tentativa de elaborar o "Grande Quadrinho Americano" (analogia ao "Grande Romance Americano"), iniciando uma série de entrevistas com seu pai, sobrevivente de Auschwitz. Uma história curta, em 3 páginas, já havia tangenciado o assunto anos antes, mas dessa vez Spiegelman estava decidido a tocar acordes mais graves sobre a perseguição nazista a judeus. Horas de conversa gravada foram transcritas, decupadas e convertidas em páginas de um dos mais extensos trabalhos de adaptação que se tem notícia: 280 páginas ao longo de 13 anos. Maus, a primeira história em quadrinhos a ganhar um prêmio Pulitzer, pela terceira vez publicado no Brasil, pela Cia das Letras.

Maus – rato, em alemão - é a narrativa dos fatos ocorridos com Vladek Spiegelman desde antes do casamento com Mala até o reencontro pós-Auschwitz, entremeada por episódios ocorridos durante seu processo de criação, do ambiente em que as conversas se deram, do complicado relacionamento entre pai e filho, das mudanças na vida pessoal do autor durante a produção da história, tudo naquele tom confessional-neurótico típico de qualquer judeu novaiorquino.

Um instante: rato? Sim, ou melhor: ratos. A metáfora visual já empregada, naquelas antigas 3 páginas, de registrar os judeus como ratos, e os alemães como gatos - tão simples quanto universal para a idéia de opressão - seria resgatada e ampliada à perfeição: nem quando Artie visita seu psiquiatra, que mora com vários cachorros, a idéia se perde. Assim, poloneses viram porcos, suíços viram linces e os americanos, obviamente, cães.

O que faz dos dois livros de Maus (Maus - A História de um Sobrevivente e Maus II - E aí Começaram meus Problemas, ambos reunidos nesta edição) um trabalho único em quadrinhos é a combinação de dois fatores intimamente ligados entre si: o relato fidedigno e detalhado sobre o Holocausto (na inequívoca e dura voz de quem esteve lá), e a história particular de um sobrevivente, costurados na linguagem que transmite a maior taxa de informação por centímetro quadrado: a história em quadrinhos.



Em Maus há mapas explicando como ficou a Europa invadida pela Nazismo, diagramas relacionando o valor de troca de cigarros em um campo de concentração, fotos de família, esquemas didáticos explicando como consertar uma bota rasgada, tudo inserido numa narrativa linear, apesar dos flashbacks, que nunca perde o fio condutor – nem quando a coerência histórica é questionada. Páginas inteiras de diálogo, mortais em termos de dinamismo, viram brincadeira com metaliguagem; detalhes de fundo criam ambientação sutil e natural; a composição das páginas tem a elegância de quadros clássicos.



Mais do que a eterna grita de perseguição dos judeus, que todo ano coloca um concorrente ao Oscar de melhor documentário a lhe bater o bumbo, há que se ressaltar a respeitabilidade conquistada para os quadrinhos como meio de comunicação, expressão, e, ora bolas, Arte. Em meados da década de 1980, quando o primeiro livro foi lançado, outras histórias de igual teor estavam aparecendo e sacudindo a percepção média que se tem sobre quadrinhos, e Art Spiegelman foi fundamental nesse processo de reduzir a distância entre alta cultura e baixa cultura, ao observar o esvaziamento das Artes Plásticas nas últimas décadas, em contraposição à crescente riqueza de possibilidades que eram exploradas nos quadrinhos. Que alguém que já esteve internado em um hospital psiquiátrico por excesso de uso de LSD na adolescência seja um dos principais responsáveis por essa mudança soa apenas particularmente significativo; que sua principal obra tenha se tornado objeto de estudos sérios e referência entre a comunidade semita, ainda mais.



Maus é referência definitiva em qualquer lista que se preze das histórias em quadrinhos mais importantes, mais bem executadas ou que melhor explorem o potencial expressivo desse meio de comunicação. Tipo de reputação que nem a indicação de leitura por acadêmicos, os mesmos que há 40 anos culpavam as Hqs pela delinqüência juvenil, consegue arranhar. Obra-prima cujos reflexos se percebem até hoje, quando Spiegelman se retrata como um rato nos cartuns que faz, a título de autógrafos. Melhor lançamento de material não-inédito do ano, até agora.




COMPRAS
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