
Há menos de um ano, o astro
Mel Gibson deu sua contribuição eterna para a Sexta-feira Santa ao dirigir uma versão crua de
A Paixão de Cristo, onde o idioma falado pelos atores era o aramaico e as agruras sofridas por Jesus Cristo (Jim Caviezel) eram mostradas com detalhismo milimétrico.
O longa, que tanto chocou como encantou os entusiastas da história bíblica, não era exatamente um filme que “qualquer um” poderia dirigir. Além de uma nova versão deste marco histórico ser sempre vista com polêmica (o Vaticano sancionou e proibiu o filme diversas vezes), a produção em si era, de longe, das mais complexas. Tanto trabalho precisaria de alguém que não fosse apenas um nome forte na indústria cinematográfica, mas sim uma pessoa gabaritada também para dirigir este projeto que já nasceu complicado.
Pouca gente sabe (ou se toca) mas Mel Gibson também é diretor, e mais: um diretor oscarizado. Onde o australiano, famoso por protagonizar franquias de ação como
Máquina Mortífera e
Mad Max, foi arrumar cacife para emplacar atrás das câmeras e, de quebra, levar o mencionado Oscar para casa?
Voltemos ao ano de 95, onde chegava às telas a história do escocês William Wallace e sua luta pela liberdade no épico
Coração Valente (
Braveheart). O longa, protagonizado e dirigido por Gibson, foi baseado na história real de Wallace, um camponês do século 13 que iniciou sua luta contra a opressão dos senhores feudais da Escócia e estendeu a peleja até o Rei da Inglaterra, que teve de suar a camisa para conter a revolta dos homens de saia (o famoso “kilt”).

Tudo começa quando William retorna à sua terra natal, depois de muitos anos viajando e aprendendo de tudo (de etiqueta à táticas de combate), para trabalhar na agricultura e constituir família ao lado da bela Murron (
Catherine McCormack), o grande amor de sua vida. Parece um sonho, mas como a vida na futura terra do whisky não era um mar de rosas, as coisas não aconteceram bem assim.
Como, naquele tempo, a Escócia era uma colônia da Inglaterra, a monarquia Inglesa dava total autonomia aos Senhores Distritais (ou feudais). Dentre os inúmeros abusos sofridos pelos trabalhadores rurais nas mãos dos senhores feudais, um dos mais revoltosos era justamente o que dá nome ao título deste texto: a “Prima Nocte” (ou Primeira Noite)

era o “direito” que o dono das terras tinha de passar a lua-de-mel com as recém casadas camponesas, no lugar dos esposos. Graças a este fetiche burguês, William se vê obrigado a casar escondido, fato descoberto pelo dono da região. O Senhor Feudal não deixa a desfeita barato, abatendo Murron como gado apenas para chamar a atenção do noivo.
Nem preciso dizer que ele não devia ter feito isso, certo?
O que segue é o início de uma carnificina sem limites perpetrada por Wallace, que vai de fazendeiro pacato à líder de uma ofensiva escocesa em três espadadas. Tendo a morte de sua amada como estopim e, logo depois, a liberdade como estandarte, o escocês angaria adeptos de sua causa pelos feudos por onde passa, ampliando sua frente de batalha e aniquilando os nobres proprietários de terras.
Tal investida toma proporções gigantescas e os nobres remanescentes cobram uma postura do tirânico Rei Eduardo I (também conhecido como Longshanks), que acaba vendo um futuro negro para seu legado na Escócia se acaso a revolta de William vingar.

Com Longshanks na briga, o que não faltam são batalhas campais entre os soldados ingleses e os rebeldes liderados por Wallace. O outrora herói da ação Gibson se revelou um grande maestro para cenas do tipo e, além disso, o filme foi um dos predecessores das técnicas de multiplicação de pessoas por computador, possibilitando assim grandiosas tomadas de batalhas. Grande parte dos figurantes eram soldados escoceses, o que tornou as cenas muito mais coniventes com a geografia da história (recurso usado recentemente por Peter Jackson em
O Senhor dos Anéis, mas por motivos financeiros).
Embora o roteiro cometa o pecado de arrumar um romance para o líder escocês (liberdade poética de Hollywood), acerta em cheio ao retratar, também, as artimanhas políticas da época. O rei tenta casar seu filho afeminado com a princesa da França para uma possível anexação, e o nobre escocês Robert the Bruce galga espaço entre as fileiras burguesas, apoiado por um enigmático mentor leproso, que manipula o jovem proeminente como se faz com peças de xadrez.
Além de ganhar o
Oscar de Melhor Filme em 96,
Coração Valente arrebatou outras 4 estatuetas nas categorias de Fotografia, Maquiagem, Efeitos Sonoros e de Melhor Diretor para Mel Gibson que, antes deste longa, tinha dirigido somente o drama
O Homem Sem Face (que também protagoniza). Como se não bastasse o fato de ter ditado regras para novos filmes épicos cujas cenas de batalhas fossem o ponto alto da narrativa,

o projeto lançou a bela estrela do cinema francês
Sophie Marceau (que fez o par romântico de Gibson no filme) ao estrelato mundial. A moça, que antes emplacava somente no circuito audiovisual de seu país, acabou levando até um papel de
Bondgirl, trabalhando posteriormente ao lado de Pierce Bronan e Robert Carlyle em
007 – O Mundo Não É o Bastante.
O diretor, ator e produtor Mel Gibson acaba levando o espectador a uma história bem construída que, mesmo durando 177 minutos, nos segura na poltrona do começo ao fim. Claro que a história real de William Wallace (cuja luta pela liberdade perdurou, na realidade, por 10 anos) foi ampliada para os padrões cinéfilos, mas não deixa de ser surpreendente o quanto a determinação de um único homem pode levar multidões para lutar em prol de uma grande causa. ¤