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Notícias: O Quarteto Fantástico no horizonte!
Por Douglas Donin — Segunda, 17 de novembro de 2003
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Notícias sobre O Quarteto Fantástico no horizonte! Novo pôster, data de estréia definida... tudo muito animador, principalmente sabendo que a Marvel anda acertando a mão nos seus últimos filmes. Eu poderia deixá-los, fãs do Quarteto, passar o resto do mês felizes com as boas-novas!
Mas não vou. Irei, isso sim, aproveitar que o assunto está quente e tratar de um filme que muitos, no conforto de sua abençoada ignorância, nem suspeitam que existe. Um filme que, de tão ruim, nunca foi lançado – embora tenha ficado pronto. Um filme que, de tão tosco, tornou-se uma verdadeira lenda urbana. Refiro-me, senhoras e senhores, a O Quarteto Fantástico (The Fantastic Four, 1994), de Roger Corman.
Antes de tudo, este filme EXISTE. Não é uma invenção. Eu mesmo tenho uma cópia aqui em casa, e exames mentais podem provar que ela não é uma simples alucinação de uma mente distorcida por anos e anos de leituras de quadrinhos. Este é um filme real, finalizado, com uma história única e cercado por lendas, e talvez tudo isto se explique pelo nome que capitaneou o projeto: Roger Corman.
Corman. Talvez, por esta alcunha, seja conhecido o homem mais cara-de-pau de Hollywood. Corman é famoso pelos seus hábitos cinematográficos extremamente econômicos e um peculiar senso de oportunidade, tendo protagonizado algumas das histórias mais pitorescas do cinema profissional moderno.
Uma delas se tornou muito famosa: quando Corman soube que Steven Spielberg estava produzindo um “filme de dinossauros”, seus olhos brilharam: reuniu uma equipe às pressas, tirou o equipamento das caixas, rodou o vagabundésimo Carnossauro em tempo recorde, lançou-o meses antes de Jurassic Park e ainda processou Spielberg por plágio, para garantir maior visibilidade. Nem o personagem de Steve Martin, em Os Picaretas, teria tanta audácia.
Outra história conte que Corman, depois de rodar um filme de ficção científica, um com temática medieval e um nos tempos das cavernas, limpou o chão da sala de edição, colocou os cortes dos três filmes em cima da mesa e decidiu fazer um quarto filme sobre - pasmem - viagens no tempo! Assim, não jogaria nenhuma cena fora: bastaria filmar meia-dúzia de tomadas adicionais e juntar todo o material com uma história sem pé nem cabeça. Deste modo, com um orçamento suficiente para apenas três produções, entregou um quarto filme “bônus”, o que demonstra a economia e a eficiência do diretor.
Mas o que nos interessa é uma terceira e não menos famosa história. De acordo com a lenda, Roger Corman entrou orgulhosamente pelas portas da Marvel com O Quarteto Fantástico pronto embaixo do braço, para uma exibição privada aos membros da companhia. O filme já possuía estréia marcada e distribuição garantida, e os cartazes já estavam nos cinemas – alguns são leiloados até hoje no E-Bay. No entanto, o filme, de tão ruim, envergonhou até mesmo o próprio Stan Lee (vejam bem: envergonhou o criador de Striperella), que, enfurecido, proibiu o filme de ser lançado.
Claro que isso é apenas uma versão romanceada para o não-lançamento do filme: o real motivo deve girar em torno de direitos autorais ou coisa parecida. De qualquer forma, foi uma bênção: O Quarteto Fantástico é fantasticamente tosco e mal-feito, e arrancaria com facilidade Batman & Robin do posto de “pior filme de super-heróis de todos os tempos”.
O início do filme até que é bom: uma abertura bem-feita, música adequada, um clima familiar, mostrando os personagens na faculdade, a paixão de Sue Storm – ainda criança – por Reed Richards e a amizade deste último com Victor von Doom e Benjamin Grimm. Nada que comprometa: muitas pessoas são surpreendidas com este início de filme, que embora não seja uma super-produção, não é vexaminoso ou constrangedor.
Mas o filme muda completamente após um certo tempo, como se o roteiro e a direção tivessem sido colocados às pressas nas mãos do cachorro do estúdio. Isso - que surpresa - acontece exatamente no ponto em que os personagens ganham seus poderes.
Ora, quem diabos faria um filme de super-heróis, que depende essencialmente de efeitos especiais, com um orçamento minúsculo? Por que Corman não escolheu fazer um filme policial, de terror ou mesmo erótico, que não precisam de tanta coisa assim, para gastar o que sobrou de troco na padaria? A resposta é simples: porque Roger Corman é incapaz de sentir vergonha. Este é seu superpoder.
Corman não se importa muito com detalhes ridículos como realismo ou capricho: concluindo o filme, está bom. Assim, a elasticidade do Senhor Fantástico não passa de um cabo de vassoura passando pelas mangas de uma camiza azul (se acham que eu estou brincando, esperem a cena final, do casamento), o Coisa é um boneco de espuma que parado até engana, mas que, quando se põe em movimento, parece ser feito de... espuma; o Tocha Humana é substituído por um desenho animado mal-feito sempre que utiliza seus poderes - aliás, sempre pela mesma cena, que repete à exaustão; e a Mulher Invisível... bem, esta está adequada, visto que ela simplesmente some da cena, em um efeito especial dos mais simples que mesmo programas humorísticos mexicanos da década de 70 já dominavam.
O Doutor Destino, o maior e mais poderoso vilão da Marvel, foi quem sofreu o pênalti: reduzido a um reles bandidinho mequetrefe de décima categoria, com meia-dúzia de capangas vestidos de maneira ridícula e sem as calças (esqueça os famosos exércitos de soldados-robô), não apresenta perigo nenhum: fica apenas andando por aí procurando uma tal jóia, acompanhado de dois ou três capangas, e foge correndo quando eles são surrados. Inofensivo do jeito que é, não era necessário nem o Quarteto para detê-lo: Javali, o super-herói caminhoneiro, o Gibão, o Homem-Sapo, o Super-Herói Americano ou mesmo os Trapalhões poderiam dar conta do recado.
Há ainda o clássico e manjadíssimo “vilão-circense-gordo-que-mora-nos-esgotos-e-comanda-um-exército-de-párias-e-excluídos” (para maiores infoemações, veja Batman - O Retorno), que só está ali para complicar a história; dois tenentes atrapalhados do Doutor Destino; e Alicia Masters, a escultora cega lindinha que vira o interesse amoroso do Coisa (e que está ali para apenas fazer o filme ficar mais tedioso - quem quer ver cenas melosas envolvendo um boneco de espuma?).
Ora, fica difícil compartilhar com o leitor a experiência única que é assistir a esta verdadeira lenda, este pedaço importantíssimo da história do trash que é O Quarteto Fantástico, sem que o mesmo tenha oportunidade de conferir a obra. Infelizmente (ou felizmente?) este filme mítico só pode ser encontrado em versões piratas, no E-Bay ou em programas de compartilhamento de arquivos como o Kazaa e o E-Mule, feitos a partir de cópias que “vazaram”, pois nem para o mercado doméstico foi lançado oficialmente. ¤
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