Catarse em HQ de Spiegelman

Por Rafael Lima — Quinta, 21 de julho de 2005

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Desde que os gregos inventaram seu teatro, poucas formas mais eficientes de catarse apareceram sobre a face da Terra. Há quem prefira dar tiros de paintball e há quem goste de dar pontapés em sacos de areia para purgar as emoções; Art Spiegelman escolheu fazer (e ler) histórias em quadrinhos: À Sombra das Torres Ausentes, lançada ano passado no Brasil pela Cia. das Letras.

Morador de Nova Iorque, Spiegelman encaminhava-se para a escola de sua filha no dia do ataque às torres gêmeas. Sentiu o cheiro da fumaça e viu uma delas cair diante de si. Para um sujeito paranóico e hipersensível como ele, apenas pode-se imaginar o impacto que ver um de seus pesadelos ao vivo tenha causou em sua psique. Art Spiegelman não surtou, ao contrário daquela vez na adolescência, por causa do LSD. Como a maioria dos novaiorquinos, entrou em depressão. Ao contrário deles, não se refugiou na música ou na poesia para resgatar sua humanidade: fugiu para as histórias em quadrinhos do começo do século XX.

Foram elas a principal inspiração para Torres Ausentes, inclusive no formato: amplas páginas verticais (como as de jornal), próprias para a exibição de grandes arranha-céus ou para a justaposição gráfica, retratando a confusão mental em que se encontrava naquele momento. Spiegelman sempre foi dado ao monólogo, aquele momento dos quadrinhos em que um personagem sobe no caixote e desata a falar. Quando mal feito, fica panfletário, artificial. Quando bem feito, puxa o leitor para dentro da cena, como acontece no teatro. No caso dele, transmite com precisão a amplidão de vozes que ocupava sua cabeça naquele momento, paralisando a ação. Às vezes é melhor ser George Bush...


Quando se cita Art Spiegelman como o primeiro ganhador do prêmio Pulitzer por uma história em quadrinhos, escamoteia-se o fato de que Maus - a Hq ganhadora – foi praticamente a única história longa e, o que é mais importante, em narrativa linear, mesmo que cheia de flashbacks, feita por ele em 20 anos. Tudo que fizera antes e em paralelo a Maus foi, de alguma forma, uma desconstrução da linguagem dos quadrinhos, normalmente subvertendo um dos seus elementos principais: fluxo narrativo, balão, requadro. Assim, foi como se Spiegelman dominasse o uso de cada ferramenta, individualmente, para aplicá-las em conjunto, na história que ele queria contar. O resultado foi que Maus saiu quase didática, uma graphic novel elogiada e indicada por quem nunca leu histórias em quadrinhos antes. À Sombra das Torres Ausentes é um passo atrás: Artie volta ao desconforto analítico da mistura de estilos e da confusão gráfica para retratar suas neuroses, com os truques habituais (pastiches, auto-retrato com cabeça de rato, relatos em primeira pessoa). Nesse sentido, é arte para iniciados, para quem entende a linguagem e sabe reconhecer as referências usadas.

E que referências são essas? As mesmas histórias em quadrinhos do início do século em que Art Spiegelman se refugiou após 11/09. Ao se envolver numa seqüência de situações absurdas, em um programa para a televisão, Art encarna em Happy Hooligan; ao mostrar que o ataque gerara uma inversão de valores que girara o mundo de cabeça para baixo, Art adentra o universo ilusório de The Upside Downs of Little Lady Lovekins and Olda Man Muffaroo, exemplo único de narrativa visual bem engendrada onde se lia uma história, virava-se a tira de cabeça para baixo, e lia-se outra! Para ilustrar como a preocupação com notícias contaminava a vida conjugal, ele e sua esposa transformam-se em Pafúncio e Marocas, e assim por diante, mimetizando com perfeição o estilo de cada autor. Não conhece nenhum desses personagens? Para amenizar esse problema, quase metade do álbum é ocupada pela reprodução de pranchas originais do início do século. Bacana, pela chance de conferir em tamanho real e deslumbrante colorido obras-primas como Little Nemo in Slumberland ou Hoogan's Alley. Chato, porque pressupunha-se que fosse um álbum original. Aliás, como as tiras ali reunidas já tinham sido publicadas antes (em jornais europeus), é procedente a crítica de que o único material efetivamente novo é um ensaio literário do autor sobre os quadrinhos do início do século XX.

Em determinado ponto da apresentação, Art Spiegelman afirma que decidiu voltar aos quadrinhos para À Sombra das Torres Ausentes depois de uma década dedicada principalmente a texto e ilustrações. Em algum momento, seu talento deve ter atrofiado. Dificilmente ele fará algo do porte de Maus, novamente. Nem por isso desaprendeu a fazer chover com os recursos narrativos, mesmo que seu traço de humor esteja menos firme e preciso (nervosismo?). À Sombra das Torres Ausentes é um instantâneo de seu tempo, um brilhante retrato de como o autor vê seu tempo e seus arredores, com direito a riscar todas as opiniões que cabem no papel. Não será um clássico, mas um documento histórico. ¤




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