Vale a pena adaptar fielmente uma HQ para o cinema?

Por Eloyr Pacheco — Quinta, 21 de julho de 2005

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Finalmente pude assistir a Sin City, Batman Begins e Quarteto Fantástico.

Sin City, para os padrões hollywwoodianos de sucesso total e absoluto, não se saiu bem nos Estados Unidos, e teve a crítica extremamente dividida. Agradou os fãs de quadrinhos, mas não se sustentou como película. Batman Begins é uma retomada importantíssima para os quadrinhos da DC Comics e precisa sair-se bem, traz consigo essa obrigação, essa responsabilidade, especialmente depois do alardeado fracasso de Mulher-Gato.

Gosto muito, muito mesmo, do trabalho de Frank Miller nos quadrinhos. Batman - O Cavaleiro das Trevas e Sin City, ambos de Miller, estão na lista das minhas dez mais e Batman é o meu “super-herói” (entre aspas porque ele não tem super-poderes para ser chamado assim) preferido.

Depois de passado o “susto”, baixada a adrenalina, e de algumas noites de reflexão, resolvi escrever esta coluna com mais perguntas que respostas (o texto já começa com uma pergunta) e abrir espaço para duas complicadas discussões: a fidelidade e a repetição.

Sin City é a HQ de Miller em movimento, nem precisou de storyboards, os quadrinhos serviram como tal. Miller e Robert Rodriguez rompem com as estruturas básicas do cinema (“Só a antropofagia nos une”). Não se atêm simplesmente em contar uma história cinematograficamente e transpõem, praticamente ao “pé da letra”, as graphic novels para a telona. Sin City não é um filme noir (?). O branco “grita” na tela e chega a incomodar. Nas HQs, o traço econômico e o contraste entre preto e branco utilizados por Miller tem um resultado diferente que na tela de projeção. E funcionam na cabeça do leitor. Na tela, não convencem. Em alguns momentos temos à nossa frente somente uma animação, principalmente quando uma sombra precisa ser projetada, que se torna artificial, superficial.


Sin City deve ser visto como uma busca, uma tentativa de se criar uma nova linguagem cinematográfica. Pode-se dizer que o que eles (Miller e Rodriguez, com a participação de Quentin Tarantino) fizeram não é cinema, seria um híbrido entre quadrinhos e cinema. Uma HQ animada, em movimento.

Batman Begins foi concebido para contar uma história que se tornou um clichê: como o jovem Bruce Wayne, após presenciar o assassinato de seus pais, tornou-se o justiceiro de Gotham City. Sem a necessidade que Ang Lee teve em Hulk de dividir a tela em quadros como em uma HQ, como se isso fosse suficiente para deixar claro se tratar de uma adaptação de quadrinhos, Christopher Nolan, sem invencionices realiza um filme com competência e resgata o “verdadeiro” Cavaleiro das Trevas no cinema (comentei com Rubens Ewald Filho que muitas pessoas só conhecem o personagem Batman do cinema. Ele concorda comigo).

Nolan contou sua história, baseado em um roteiro inteligente, escrito em parceria com o experiente David Goyer, que já havia adaptado para o cinema as HQs O Corvo e Blade, o Caçador de Vampiros. Batman Begins funciona no cinema, pois não tem a pretensão de agradar somente os fãs dos quadrinhos do Homem-Morcego (que parece ser o objetivo de Sin City), como se eles fossem suficientes para alimentar uma indústria de tal magnitude, mas de atrair e reconquistar os que até hoje amaldiçoam Tim Burton e, em especial, Joel Schumacher. Batman Begins é atraente e funcional. Eu o veria várias vezes em DVD. Sin City, embora também eleito para fazer parte da minha coleção, só mais uma vez.

Já podemos dizer que adaptações para o cinema de Histórias em Quadrinhos não são simplesmente uma tendência cinematográfica, mas uma “linha” que pelo jeito não pára de ser produzida tão cedo. Vários outros filmes estão em produção e outros sendo anunciados.

Com tantos filmes nessa “linha”, começa a ocorrer uma certa repetição do tema. Todo excesso sempre leva ao desgaste, a novidade de se fazer adaptações de HQs para o cinema já não é atrativo suficiente para segurar um filme. E passada a novidade da onda dessas adaptações, é necessário algo mais e não somente bons efeitos especiais. Algumas coisas, assim como nas revistas de quadrinhos, são comuns, e o público vai começar a perceber isso logo, logo. A origem dos personagens e a forma de contá-las, que a princípio parecem únicas, já começam a ser lugar comum, e quase um clichê. Pense na origem de heróis e vilões que você já viu no cinema.

Quarteto Fantástico é um bom filme, mas, não acrescenta nada à “linha”. O grande problema do longa é o de ter de mostrar todos os quatro heróis e o vilão descobrindo seus poderes. Já comentei certa vez que esse é o problema de todo filme que tem de mostrar a “origem do herói”. Por isso gosto mais de Homem-Aranha 2 do que de Homem-Aranha 1. Em Homem-Aranha 1 a origem é mostrada de maneira espetacular e o tempo dedicado a isso é grande o suficiente para que a trama possa ser bem desenvolvida. Mas Aranha 1 só teve de mostrar a origem do Escalador de Paredes e do Duende Verde. Em Quarteto Fantástico, com o tempo correndo, isso não funciona tão bem. E o diretor tem cinco origens (contando a do Dr. Destino) que precisam ser mostradas. Numa provável seqüência, o time de heróis pode se dar muito melhor.

A direção de Tim Story é normal, sem grandes sacadas. Há cenas que podiam ser melhores exploradas, como a do Coisa. Bem, não vou estragar a diversão dos que ainda não viram o filme, mas os que viram sabem do que estou falando. Os efeitos especiais são realmente muito bons. Para mim, o Tocha é o mais sensacional deles. O roteiro é muito fraco e tem sérios problemas. O maior deles é a seqüência em que o Coisa, ao tentar salvar um suicida, acaba causando um grave acidente de automóveis e, no fim, safa-se da responsabilidade como herói. Nesta cena houve uma tentativa de mostrar que o “monstro” era mal compreendido e num “rompante imaginativo” para humanizá-lo criaram algo sem sentido, até mesmo sem lógica. Não quero verossimilhança num filme de super-heróis, quero apenas coerência.

Antes que alguém diga que não gostei do Quarteto Fantástico, afirmo: gostei do filme! Mas, só bons efeitos especiais não seguram a continuidade da linha de adaptações de quadrinhos para o cinema. O que pode ser uma grande perda, não só para os fãs de HQs mas também para o grande público.

Acho que os produtores de Hollywood podem pensar em um crossover de heróis dos quadrinhos no cinema (se é que isso seja possível dado o grande número de produtoras envolvidas) para mexer com o público expectador que pode começar a perder rapidamente o interesse por filmes desse tema devido a tudo o que eu comentei. No dia em que eu fui assistir ao Quarteto Fantástico, a fila para Guerra dos Mundos era muito maior. ¤




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Informática > Home Theater 5.1 Mogno 3000 W 110 v
Livro > Coleção Harry Potter + Moletom Exclusivo (J.K. Rowling)
CD > Intuição/ Piano e Voz/ Duo- BOX 3 CDs (Pedro Mariano, Cesar Camargo Mariano, Romero Lubambo)
DVD > B13: 13º Distrito (Cyril Raffaelli, David Belle)
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