Invasão Hostil – Parte 2

Por Édnei Pedroso — Quinta, 14 de julho de 2005

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Seguindo a proposta do texto da semana passada (para quem não leu, a hora é agora), voltamos a enumerar as invasões alienígenas que mais deram o que falar, desde que as titânicas naves de Independence Day pousaram em nossas telas.

Ao contrário dos espécimes já citados, o próximo longa retratou uma inusitada invasão, onde não se vê nave, não se vê destruição e, por pouco, nem se vê o extraterrestre. Você deve estar se perguntando: “ué, mas se não tem nada disso, como pode ter sido um filme de sucesso, ou mesmo uma invasão hostil?”.

A pergunta foi respondida pelo diretor M. Night Shyamalan no thriller hitchcochiano Sinais, no ano de 2003.

Ao lado do astro Mel Gibson, o indiano emplacou seu terceiro sucesso consecutivo (precedido por O Sexto Sentido e Corpo Fechado), apresentando ao público não um filme de ficção, mas uma trama de suspense (na minha humilde opinião, o melhor diretor vivo do gênero), onde a fé do ex-pastor e viúvo Graham Hess (Gibson) é colocada à prova quando estranhos círculos gigantescos aparecem na fazenda onde vive com seus filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigail Breslin), e seu irmão com um parafuso solto Merrill (vivido pelo talentoso Joaquin Phoenix).

Desde a trilha sonora nos créditos iniciais (homenagem escrachada a Hitchcoch), até uns bons 40 minutos do filme, o espectador só tem certeza de que coisas estranhas estão acontecendo na fazenda e que os tais círculos apareceram também em outras partes do planeta. Mal sabia a família Hess o que estava por vir...

SPOILER de SINAIS (caso não tenha visto o filme, pode pular estes parágrafos se quiser):

O diretor entrega a invasão de uma forma sutil, através de sinais de rádio ou de notícias pela TV. O primeiro contato de Graham com uma dessas criaturas se dá por debaixo de uma porta de cozinha, onde mal se vê um vulto, e as próprias reportagens da televisão não mostram imagens nítidas dos visitantes (a cena em que mostram cenas amadoras de um ET aparecendo numa festa de aniversário infantil no Brasil é de gelar a espinha).

No entanto, depois deste pulo inicial, não demora muito para que a casa dos Hess seja abordada por estas terríveis criaturas, que além de um corpo esguio e pele verde escura, possuem uma espécie de disparador de gás letal nos pulsos. Esta espécie, ao contrário de outras já figuradas no texto da semana passada, é a mais próxima, em aparência, do tradicional “ET de Varginha” (olhos grandes, corpo delgado, pele lisa e cabeção).

O motivo da invasão também era o de colonização, porém, estes aliens fizeram uma escolha de alvo, no mínimo, estapafúrdia. Se o roteiro (de autoria do próprio diretor) dá vazão para inúmeras cenas de suspense, também tem um furo colossal: o ponto fraco dos visitantes era (pasmem) a ÁGUA. Como uma raça de alienígenas, que têm H2O como ponto fraco, tenta invadir um planeta cuja superfície é formada por 70% de água? Bem, talvez nem Shyamalan tenha pensado nisso. De qualquer forma, o que intriga na trama é como se chegou nesta informação, e é aí que entra aquele final surpresa chocante característico dos filmes do indiano. Como enumerei certa vez, pode não ser o melhor filme de Shyamalan, mas é um espetáculo muito acima da média...

...sem contar que é a maior bilheteria de um filme protagonizado por Mel Gibson.

E aí, vai encarar?

FIM de SPOILER.

Após os Sinais serem esclarecidos, finalmente chegamos à invasão alienígena hostil mais recente da história do cinema. Especificamente no dia 29 de junho deste ano, a parceria Tom Cruise/Steven Spielberg tirou o sono dos humanos com a sua versão do clássico de H. G. Wells, devidamente anabolizada.

Como na literatura ou nas versões anteriores para o cinema e TV, os alienígenas de Guerra dos Mundos chegam cravando suas três patas no lombo terrestre, detonando tudo o que estiver no caminho. Ao contrário dos outros invasores, os tirânicos Tripods já tinham sua parafernália bélica enterrada estrategicamente no planeta, esperando a hora certa para aplicar seu golpe de misericórdia contra os humanos.

Para desespero do desleixado Ray Ferrier (Cruise), uma dessas máquinas estava enterrada justamente no seu bairro e, quando alguns fenômenos climáticos atingem o local, Ray (que não é exatamente um pai exemplar) acaba tendo de se virar do avesso para proteger seus filhos Robbie (Justin Chatwin) e Rachel (Dakota Fanning) e fugir dos ETs mais carniceiros de que já se teve notícias.

A leva de destruição proporcionada pelos Tripods é tão impressionante, que qualquer marmanjo fica embasbacado com os efeitos visuais aproveitados por Spielberg. Bairros inteiros são arrasados num piscar de olhos e pessoas são incineradas a esmo pelas máquinas assassinas de visual retrô (idêntico ao das versões anteriores). Como se isso não bastasse, o diretor aborda primordialmente as nuances humanas em situações de catástrofes, mostrando pelos olhos da família Ferrier que, às vezes, os próprios homens são tão perigosos para o semelhante quanto seus algozes.

SPOILER de GUERRA DOS MUNDOS (você já sabe as regras):

Quando se pensa que os aliens não vão mostrar a cara, eis que surge a cena claustrofóbica do porão, onde Ray, Rachel e um fazendeiro ensandecido chamado Ogilvy (Tim Robbins, detonando como sempre) têm de se esgueirar como ratos dos horripilantes visitantes de pele cinza metálica, cabeça protuberante, olhos negros malvados e dois braços e uma perna (ou seriam duas pernas e um braço? Ou seriam três pernas?), que resolvem vistoriar a casa pessoalmente. São quase 15 minutos de claustrofobia.

Como desgraça pouca é bobagem numa invasão assim, as personagens, bem como o público, descobrem o motivo pelo qual a Terra está a beira do colapso: numa cena que choca pelo terror fantástico, descobrimos que os Tripods estão simplesmente atrás de comida. E NÓS somos a comida. Num ritual que não leva mais do que 10 segundos, as máquinas sugam os órgãos e restos humanos da vítima ainda viva e fazem a distribuição dos ingredientes, terminando com o borrifo do sangue do infeliz no ar, para adubar a plantação alienígena (estranhas plantas trepadeiras similares a veias e artérias). Uma visão do inferno, sem dúvida.

Faltando quinze minutos para o final do filme, uma luz no fim do túnel aparece na vida dos terráqueos: aparentemente do nada, as máquinas começam a ter uma pane, e as plantações sinistras murcham e morrem. Os escudos de força dos Tripods desaparecem, possibilitando uma retaliação bélica, mas desta vez, não é um vírus de computador que faz a mágica...

Este final, que parece ter sido feito nas coxas, é o maior divisor de opinião entre críticos e público para amarem ou odiarem este filme. Os alienígenas mais malvados do universo sucumbem como moscas no aerosol e só nos 3 minutos finais de exibição que uma “meia-explicação” se faz presente. Ao que tudo indica, nosso organismo tinha algo mais do que alimento para os bichos. Talvez um vírus, uma bactéria, algo de podre no nosso sangue, sabe-se lá. Isso não fica muito específico. Como se esta dúvida não fosse motivo o suficiente para amarrar algumas caras, Spielberg ainda não perdeu o hábito de fazer “final-família” para seus filmes, ou seja, tudo se resolve no final (para quem lembrou de Inteligência Artificial, é uma boa referência)...

FIM de SPOILER.

Como vimos, a raça humana não teve muito descanso na sétima arte, de nove anos para cá. Encontramos toda a sorte de situações de natureza fantástica ou de singela humanidade, chegamos do extremo da destruição e carnificina ao simples e puro questionamento da fé. Nesta estrada intrigante, poderosa, imaginativa e divertida, a humanidade resiste bravamente. Rindo ou chorando, ainda estamos aqui.


EM TEMPO: Alguns devem ter lembrado de A Reconquista, longa protagonizado por John Travolta em 2000, onde o mesmo fazia o papel de Terl, um alienígena cabeçudo de três metros de altura cuja raça subjugou os humanos em exatos 10 segundos, tornando-os escravos.

Como devem ter lido no texto anterior, quatro filmes de invasões seriam numerados aqui, e como A Reconsquista não é filme, resolvi pular esta parte negra do cinema.

Que me perdoem os entusiastas da Cientologia.




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