Apolônio Brasil: erros e acertos de Carvana

Por Marco Antônio Barbosa — Sexta, 14 de novembro de 2003

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Poucos cineastas brasileiros podem atribuir a si mesmos uma carreira autoral – e Hugo Carvana é um deles. Autoral no sentido de ter toda uma coerência em sua obra, temáticas que se repetem, personagens e situações que dialogam entre si de filme para filme. Apolônio Brasil, Campeão da Alegria é mais um capítulo desta obra bastante pessoal, que, entre erros e acertos, no mínimo mantém-se sempre acima da mediocridade.

Exibido em primeira mão no último Festival do Rio (em setembro), o filme dividiu opiniões. Teve gente achando uma alegre celebração da boêmia, um resgate despretensioso da estética das chanchadas. Já outros espectadores saíram achando tudo uma presepada sem pé nem cabeça. Em termos puramente narrativos, a fita é meio capenga. Falta ritmo nas idas e vindas no tempo, o roteiro é desconjuntado e incoerente, repleto de situações gratuitas. Entretanto, o cinema de Carvana nunca se pautou pela excelência técnica ou mesmo pela ortodoxia narrativa. (Ainda assim, é capaz de obras-primas “desconjuntadas” como “Vai Trabalhar, Vagabundo”, de 1974.) Vale mais destacar a feliz atualização de um certo cinema brasileiro muito popular – a escola das chanchadas da Atlântida -, reapresentando-a ao público de 2003; as atuações, sempre muito boas, e a caprichada reconstituição de época, nas seqüências de flashback da vida de Apolônio (Marco Nanini). E, claro, na última aparição de José Lewgoy nas telas.

O personagem-título é um pianista, boêmio e mulherengo, que atravessa os anos 50, 60 e 70 arrumando algumas encrencas e desfazendo outras. Isso vê-se nas partes em flashback. No presente, temos um cientista louco (Lewgoy) que, de posse do cérebro do defunto Apolônio, quer extrair dele um tal “quociente de alegria” que serviria como produto de exportação. Não dá para negar que a coisa fica meio confusa nas idas e vindas do passado para o presente (ainda mais porque a narrativa muda radicalmente, passando de um tom leve e nostálgico para uma comédia amalucada de pseudo-ficção científica). Mas é aquilo: entre erros e acertos, o cinema de Carvana busca o essencial na experiência cinematográfica – oferecer novos horizontes ao espectador, e não apenas transpor uma certa realidade global da telinha para a telona.




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