Férias. O fim de um semestre lhe garante pelo menos quatro horas extras todos os dias para fazer o que quiser. Entre dormir até tarde e sair com a namorada, este colunista resolveu aproveitar um pouco o tempo livre e colocar a leitura em dia. Confiram pois o resultado desse massacre de tempo útil nos comentários deste que vos fala sobre alguns dos mais recentes lançamentos no mercado estaduniense.
Spider-Man: House of M #1
No mega-crossover House of M os maiores heróis da Terra recebem a vida que sempre desejaram. Se fosse você, o que pediria? A paz mundial? Sejamos sinceros: provavelmente não. Que tal ser rico e famoso, só pra começar? Agora sim. E que tal se a pessoa mais próxima de um pai que você já teve e a garota mais linda que você já conheceu estivessem vivos? E se você pudesse descontar todas as suas frustrações naquele seu chefe insuportável que sempre espalhou mentiras sobre você? Não seria maravilhoso?
Pois Peter Parker conseguiu tudo isso. De nerd espinhento e solitário ele ascendeu para o maior astro da luta livre do mundo, casado com a bela e cobiçada Gwen Stacy e pai orgulhoso de um belo garotão. Em todos os sentidos, o Homem-Aranha é sem dúvida a mais invejada celebridade mutante. Mas espere aí! Desde quando ele é um mutante? A resposta para essa pergunta é um segredo guardado a sete chaves e fonte dos maiores temores do amigo da vizinhança.
Belissimamente desenhada por Salvador Larroca, Spider-Man: House of M #1 é uma revista pra encher os olhos, com ótimos roteiros de Mark Waid e Tom Peyer. Uma história sobre como tudo pode ser perfeito e, ainda assim, muito vulnerável. Parece ter sido feita sob encomenda para todos os fãs de verdade do personagem.
Runaways V.2 #5
Como visto na coluna passada, Runaways foi uma série bastante original e divertida, mas que perdeu um pouco de seu brilho nessa nova fase. O quarto número do título foi bastante previsível e gerou diversas discussões entre os leitores. Se de um lado muitos enchiam a boca para dizer “era fácil de adivinhar” (admito que eu era um desses), de outro ficavam aqueles que reclamavam da importância sugerida ao pai de Victor.
Pois o número #5 de Runaways V.2 veio exatamente pra surpreender os dois lados, numa típica reviravolta de novela mexicana: o pai de Victor é alguém muito pior do que pensávamos.
Ainda assim, me pergunto se não vai surgir um terceiro fulano pra assumir a paternidade do moleque. Afinal, parafusos e circuitos não fazem de ninguém o “maior vilão do universo”.
Imaginaries #1 e #2
Uma boa história começa com uma boa idéia. Coisa que, aliás, nem precisa ser muito original. Ainda sou fã das histórias que pegam uma idéia incansavelmente reaproveitada e a exploram por um ponto de vista inusitado ou meramente diferente.
Não chega a ser esse o caso de Imaginaries, mas o conceito da série também não é dos mais originais. No entanto a habilidade dos autores em explorar esse conceito é que torna o título tão divertido.
O protagonista desta versão adolescente de “A Mansão Foster para Amigos Imaginários” é o Superhero G, que por muitos anos combateu supervilões e ameaças alienígenas ao lado de Tanner, identidade secreta do super-garoto Hero Boy. Quando os pais de Tanner finalmente resolvem se divorciar após dezenas de tentativas de reconciliação, ele também decide que é hora de mudar e amadurecer, deixando para trás as fantasias com Superhero G e Hero Boy. É então que nosso herói descobre ser nada mais que fruto da imaginação de Tanner, abandonado depois de perder sua utilidade. Além de enfrentar a dura realidade ele agora tem de refazer sua vida na Imagined Nation, um lugar mágico governado com mão de ferro pela Rainha do Gelo e onde os Ursos de Pelúcia impõem a lei à força a milhares de amigos imaginários de todos os lugares e épocas.
Os desenhos de Mike Miller (que também é co-roteirista - ao lado de Ben Avery - e criador da série) não mostram nada de muito novo a princípio, mas a opção de contar as primeiras aventuras do super-herói através do traço do próprio Tanner caiu como uma luva e deixou a narrativa bastante atraente. Só após o “amadurecimento” de Tanner é que vamos ver a capacidade de Miller em desenhar criaturas estranhas e personagens caricaturais. Como curiosidade, destaca-se também as cores, muito bem feitas pelo estúdio brasileiro Linx.
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Dream Police #1

Joe Thursday e Frank Stanford são uma dupla ordinária de policiais. Atendem aos chamados, fazem a ronda, tentam dar o melhor de si para manter a Cidade em ordem. A diferença entre eles e qualquer outra dupla de tiras que já vimos nas páginas das histórias em quadrinhos é principalmente a natureza das ocorrências que registram em seu turno. Joe e Frank fazem parte da
Dream Police, a Polícia dos Sonhos. Seu trabalho é garantir que todos tenham seus sonhos (ou pesadelos) da forma como deveriam. É mais um exemplo de uma idéia não tão original mas devidamente compensada por um ótimo resultado final.
Os desenhos são do brasileiro
Mike Deodato, que ilustra de modo belíssimo o roteiro de
J. Michael Straczinski. Apesar do cenário inusitado e de seus personagens (ecos, transmorfos e empatas do sono) os narradores nos apresentam situações bastante familiares, como sonhos em que as pessoas se descobrem nuas numa multidão, lembranças de uma fase de nossas vidas que queríamos que voltasse, ou mesmo o clássico “monstro no armário” (que aliás tem um fim bastante hilário). Uma boa leitura, sem dúvida.
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Machine Teen #2
Marc Sumerak insiste no grande erro de tentar fazer de
Machine Teen uma série de suspense. Mas tudo o que ele conseguiu até o momento foi desperdiçar duas edições contando lentamente o que já se podia supor só pela capa da primeira edição.
Talvez a melhor forma de se atingir o efeito esperado pelo escritor fosse limitar a leitura à capa e às duas últimas páginas. Falando em capas, nem mesmo a belíssima arte de
James Jean permanece, reduzindo cada vez mais os motivos para se comprar a revista. Se é que ainda resta algum.
Young Avengers #5

Li uma resenha dessa revista que dizia “aposto como Hulkling e Asgardian são os filhos da Feiticeira Escarlate e do Visão”. E não é que faz sentido? Andei reavaliando também o porquê de eu estar começando a gostar tanto do título e acho que tem a ver com essas pequenas deduções. É como quando você assiste a um filme de suspense tentando adivinhar quem é o assassino e grita no final: “Arrá! Eu sabia!”
A questão toda é saber como dar pequenas pistas ao longo da história, que podem ou não ser verdadeiras. Eu me senti super-inteligente por uns dois segundos por ter “adivinhado” que o Visão ia controlar a armadura de Iron Lad. Mas acho que estou contando demais e impedindo que vocês mesmos adivinhem o resto.
Hero Squared X-Tra Sized Special #1

O mais novo título da dupla
Giffen e
DeMatteis é uma tiração de sarro com os quadrinhos de super-heróis do início ao fim, a começar com o título (algo como “Herói ao Quadrado Especial em Tamanho Gigante”). Pra não dizer que esqueci de comentar, na capa alternativa há uma piada ótima com a frase “Adivinhe quem vai morrer nesta edição” - que, assim como eu, vocês devem ter visto muitas vezes estampadas nas capas de diversos títulos da Marvel e da DC - e uma seta aponta diretamente pro infeliz que baterá as botas já na primeira página da história.
Mas vamos à trama:
Capitão Valor é o maior herói do mundo. Aos dez anos de idade, durante um passeio escolar a um museu, ele foi contatado por uma entidade ancestral que lhe conferiu super-poderes e fez dele o campeão da Terra, uma figura que serviria de inspiração para milhares de pessoas, mesmo entre outros super-heróis. Acontece que o mundo do Capitão Valor é reduzido às cinzas e, em busca de ajuda, ele vai atrás de Milo Stone, sua contra-parte numa realidade alternativa. Pra aumentar ainda o azar do herói, Milo faltou à aula para ir ao cinema naquele importante dia do passeio escolar. Ao invés de encontrar um poderoso defensor da justiça, o Capitão Valor dá de cara com um cineasta frustrado, sedentário e sem nenhuma ambição na vida; que vai gerar muitos problemas e nenhuma ajuda.
A arte é de
Joe Abraham que devido a um acidente de bicicleta ficou um bom tempo sem poder desenhar, fazendo com que o lançamento da revista sofresse vários atrasos. Na época em que Abraham se feriu, os escritores - ao lado do editor Ross Richie - preferiram fazer piada e não se alarmar: “Nós amamos Abraham e ele é um gênio, mas... Cacete, por que você foi se machucar naquela bicicleta? Não dava pra ser uma moto? Ou algo respeitável, como um ônibus?”
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Angel - The Curse #1

Acredito que muitas pessoas possam deixar passar este ótimo título pelo simples fato de não terem acompanhado as séries
Buffy, A Caça-Vampiros ou
Angel, de Joss Whedon (que em breve estará também nos cinemas com
Serenity e Mulher Maravilha). Felizmente para esses,
Angel - The Curse é uma série para gregos e troianos ou, no caso, fãs antigos e novos leitores. A história conta somente o que você precisa saber: Angel é um vampiro com uma alma. Apesar de ser um grande campeão e - segundo ele próprio - ter enfrentado mais apocalipses do que poderia contar, ter uma alma não é um dom e sim uma maldição. Pra começo de conversa, ele tem consciência de todos os atos vis que cometeu em sua “vida passada” como o terrível vampiro Angelus, e tem de lidar todos os dias com a culpa e a lembrança dos rostos de suas vítimas. Tornando a situação ainda pior, toda vez que Angel encontra o verdadeiro amor está sujeito a perder sua alma novamente, revertendo ao monstro que foi um dia e que tanto despreza.
Para evitar que isso ocorra - e aqui entra a parte que agradará aos fãs da série, pois a história cita a lobisomem Nina, com quem Angel iniciou um romance ao fim da última temporada - ele ruma para a Romênia tentando eliminar de uma vez por todas os “efeitos colaterais” de sua condição. Porém, se há algo que a Romênia produza mais que qualquer outro lugar do mundo, são vampiros. E Angel terá muitos problemas por tentar cantar de galo no terreno dos outros.
Apesar de não se aprofundar muito na nova trama, a primeira edição acerta em cheio exatamente ao recontar de forma clara e sem rodeios a origem e trajetória do personagem, ao mesmo tempo em que traz a pancadaria desenfreada e o sarcasmo que marcaram o seriado. O escritor
Jeff Mariotte, aliás, é perito em transpor seriados para os quadrinhos, já tendo trabalhado nas adaptações de
CSI e
The Shield. O próprio Angel é um antigo conhecido dele: Mariotte escreveu diversos romances com o personagem além do primeiro compêndio “por trás das câmeras” da série
The Angel Casefiles Vol. #1.
A arte do italiano
David Messina (outro conhecido do personagem) está muito competente, e a IDW optou por uma série de capas alternativas por artistas como
Tim Bradstreet,
Igor Kordey e
John Byrne (este último desenhou a capa do número #2).
The New West

Los Angeles, Califórnia. O sol se põe e a cidade fica às escuras. Aqui e ali podem ser vistos lampiões a óleo aos poucos sendo acesos. Pouquíssimas pessoas se arriscam a perambular pelas ruas negras e silenciosas, mas ouve-se ao longe o trote de cavalos. Não há energia elétrica nem água corrente e um ex-oficial da lei embebeda-se à luz de velas abraçado à filha do prefeito.
Parece uma típica história de faroeste mas não é.
The New West, do roteirista
Jimmy Palmiotti e o desenhista
Phil Noto, conta a história de uma Los Angeles devastada por um ataque terrorista. Tevês, rádios, telefones ou carros, nada funciona graças a um pulso eletromagnético disparado por um grupo fanático contrário à invasão cultural dos Estados Unidos em seu país. Naquele dia Dan Wise perdeu seu parceiro e melhor amigo. Pouco depois, perdeu o emprego de mais de vinte anos na polícia. Montado em seu cavalo Gluegun, pequenos serviços como detetive particular e se vê novamente envolvido com a família que o odeia quando o prefeito é seqüestrado e as suspeitas caem sobre a força policial.
A mini-série em duas partes pareceu meio salgada ao público estaduniense, que não está acostumado a pagar cinco dólares por uma revista pouco conhecida. No entanto é um investimento que vale muito a pena, com mais de quarenta páginas de uma arte belíssima em cada edição. Noto é mais conhecido por alguns trabalhos na DC, principalmente em capas (como
Birds of Prey), mas aqui ele confessa toda a sua paixão por Robert McGuiness (artista dos anos sessenta conhecido por suas capas e pôsters de James Bond) e filmes antigos (como
Chinatown, com Jack Nicholson, de onde Noto tirou a inspiração para o detetive Dan Wise).
Palmiotti deu um ar de “anti-herói” ao protagonista, mostrando já nas primeiras páginas sua moral forte apesar da frieza e sarcasmo. Com Megan Hirsh, a filha rebelde do prefeito, ele acaba assumindo uma relação paternal, quase incestuosa, insistindo na atitude “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Em certo momento, após mutilar diversos bandidos com uma espada, Dan olha para Megan - que acaba de matar um homem com um tiro - e pergunta: “Você tirou uma vida. Não sente nada?”
E é esse tipo de contraste e hipocrisia que acaba fazendo de
The New West uma leitura tão agradável. As diversas conspirações e reviravoltas na trama - marca registrada dos filmes
noir, outra grande inspiração dos autores - ajudam também, claro. A arte, nem se fala...
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Shaun of the Dead #1
Shaun of the Dead (que no Brasil teve a terrível tradução
Todo Mundo Quase Morto), é o que se chamou de “
rom-zom-com” (
romantic zombie comedy, ou comédia romântica de zumbis), o melhor equivalente britânico do nosso conhecido
terrir. Com um certo atraso em relação ao filme, mas ainda aproveitando a onda dos mortos-vivos (segundo disse um conhecido meu, “zumbi é o novo ninja”) a IDW acaba de lançar o primeiro número da adaptação oficial do filme, numa espécie de “versão do diretor” que promete trazer várias informações extras nos próximos números. Apesar de ser uma idéia interessante, é uma pena a IDW ter optado por adaptar a história do filme, ao invés de trazer histórias inéditas, dado o ótimo cenário criado pelo co-roteirista/diretor
Edgar Wright e o co-roteirista/ator
Simon Pegg.
A revista carece de muitos dos pequenos detalhes que fizeram do filme uma comédia tão crítica, mas ainda assim é bastante divertida e consegue transpor para os quadrinhos ao menos uma parte do clima original. O texto adaptado é de
Chris Ryall, e a arte é de
Zach Howard.
Hero Camp #1

Nova investida da Image nos super-heróis adolescentes. Basicamente, um bando de jovens heróis (boa parte deles filhos de heróis veteranos) é mandado todo verão para o acampamento Enokchuk onde participam de jogos, brincam no lago e ocasionalmente combatem super-vilões que querem destruir o acampamento (sabe-se lá por que cargas d’água). Eric, vindo de uma respeitada família de combatentes do crime (com direito até a um super-cão) é o único sem super-poder algum, e luta para sobreviver num lugar onde todos põem sua vida à prova acreditando que ele será um dos mais poderosos heróis já vistos.
A idéia é ruim, a história é ruim, a arte é ruim.
Robbi Rodriguez tenta incansavelmente imitar o estilo de Mike Allred, e o resultado é desastroso.
Greg Thompson atola a revista de piadinhas manjadas e clichês de filmes juvenis. Não esperem ver a próxima edição sendo comentada nesta coluna. ¤