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Retrato em preto e branco
Por Elias Lascoski — Quinta, 7 de julho de 2005
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Tente enxergar o mundo com olhos de cão. Procure pelo extremo contraste, pela total ausência de ciano, magenta, amarelo ou RGB intermediários: o preto e o branco como forças contrárias, mas em perfeita integração, estabelecendo o equilíbrio absoluto, assim como na filosofia do T'aichi T'u. Veja tudo ao vivo e sem cores.
Perpassa nossa experiência sensorial a todo momento essa sedutora combinação. Está presente e é revivida e reciclada a cada instante, ostensivamente, na arte (M.C.Escher e suas dicotomias; Giger com suas anomalias e o Alien engendrado por sua mente, que dominou o mundo como a célebre fotografia de Che Guevara); no cinema (Irmãos Marx - de Groucho a Pernalonga, Os Três Patetas - livres do Technicolor, Jerry Lewis - o professor aloprado original, O Gordo e o Magro - avós de outras tantas duplas, Chaplin, para citar os cômicos; O Gabinete do Doutor Caligari - germe do terror que influenciou de Hitchcock a Clive Barker, Metrópolis - inspiração para o visual de C3PO na outra ponta da linha do tempo da história do cinema, para mencionar os primórdios da expressão; naquilo que os portugueses chamam de banda desenhada: as tiras de Peanuts, Calvin e Haroldo, Mafalda, Hagar, Gon e em inúmeros outros produtos da indústria cultural.
A mistura de tons entre o preto e o branco seduziu, emocionou e influenciou, sempre como característica secundária. Hoje lhe é dada a devida importância, seja no reconhecimento pelas cenas mais charmosas de Kill Bill, seja pela homenagem prestada aos grandes, como Bela Lugosi, orquestrada por Tim Burton em seu Ed Wood, estrelado por Johnny Depp (não serão poucas as vezes que citarei esse nome nesta coluna). Mas é particularmente dos traços em preto sobre uma folha branca que quero extrair sinais de grandes contribuições para a cultura pop.
Foi uma história insignificante de Batman que me fez perceber a realidade da presença alvinegra na cultura de massa: O Bandido em Preto e Branco, que parece beber da fonte de Dashiel Hammet pelo clima policial e obsessão por artefatos presente em O Falcão Maltês e no filme Relíquia Macabra, com um Humphrey Bogart de pele acinzentada. Na história do Cavaleiro das Trevas, que retoma a estética camp do seriado da TV, um bandido que enxerga o mundo em preto e branco tem um certo fetiche por objetos como dominós, dados e jogos de xadrez valiosos, e se vale da ajuda de seu parceiro no crime: um dálmata. A simbologia despertada por um tema até então despercebido me fez constatar que a falta de cores é o aspecto comum que une minhas três obras prediletas, e confere a elas características exclusivas. São três as produções que, seja por economia ou por estilo, abrem mão do culto ao arco-íris, e com essas características se impõe como ícones. Todas usam o preto e branco como forma de retomar a rusticidade das épocas que descrevem.
Sandman – Prelúdios e Noturnos
A mitologia de Sandman é uma das mais ricas da atualidade (o que fará muitos pensarem imediatamente em Joseph Campbell, mais uma vez). Ao longo de 75 edições regulares e mais uma penca de especiais, Neil Gaiman conta a saga de Morpheus, o senhor dos sonhos meio Lord Byron, meio Robert Smith, que acumula tantos nomes quanto os homens fazem amigos, entrelaçando sua linha narrativa com lendas de culturas diversas. Os 7 primeiros números foram reunidos pela primeira vez pela Brainstore em uma edição encadernada e convertida em tons de cinza. O resultado, ao contrário do que podia se esperar, foi estupendo. O início da aventura do irmão mais novo da morte, após anos de confinamento, em busca de seus objetos roubados, toma um ar de goticismo nunca antes visto, principalmente em sua decida ao inferno e em seu encontro com John Constantine. De uma ponta a outra o leitor frui um clima mais denso, menos fantástico e mais terrífico, como se a qualquer momento pudesse ser arrebatado para dentro de uma experiência onírica não muito agradável. Em nenhum outro arco de histórias dos perpétuos, salvo em Morte – A Festa, de Jill Thompson, a colorização seria tão dispensável. (Ilustrada por vários artistas e escrita pelo inglês Neil Gaiman, de Deuses Americanos - escritor que mais consegue aproximar a literatura ao mundo dos quadrinhos e vice-versa)
Do Inferno
A obra quebra paradigmas. De início já se conhece a identidade de Jack, o estripador (segundo teoria do autor). Nem é seu mérito seguir à risca as quatro fases distintas da estrutura narrativa – manipulação, competência, performance e sanção – todas se confundem e se rearranjam como fractais. Praticamente um tratado, uma rica obra de pesquisa. Literatura forense, hipóteses derrubadas, outras corroboradas, algumas impensáveis, outras assustadoras, intrigas, conspirações maçônicas, magia e ripperologia (tema retomado também na segunda edição da HQ PB Dylan Dog, que aliás também presta sua homenagem a Groucho Marx). Tudo dissecado em minúcias em fartos comentários nas notas finais (se é que se pode chamá-las assim, pois ocupam praticamente metade dos quatro volumes). Uma série de coincidências perturbadoras, em um passeio pela arquitetura, pela religião e pela literatura da era vitoriana, Do Inferno é uma espécie de missa negra desnudando a paixão e a loucura em uma londres que opõe o luxo da aristocracia à miséria da periferia, representada pelos traços secos de Eddie Campbell. Trata-se de uma bela forma de se retratar a psiqué perturbada de um maníaco, sem as cores psicodélicas de um Charles Manson ou o espectro rubro da lanterna do Bandido da Luz Vermelha, aliás, outra legenda urbana cuja história foi contada pelo cinema, na acromática fita de Rogério Sganzerla. (Do Inferno foi escrita por outro inglês: Alan Moore, habituado a produzir clássicos em série assim como Frank Miller, autor de Sin City, mais uma obra-prima do embate entre luz e sombra). Ah! Do Inferno também virou filme, renegado pelo pai, protagonizado por Johnny Depp (sempre ele).
Maus
A última coisa que li, e portanto a melhor... O relato mais marcante e significativo de uma guerra já concebido, em minha modesta opinião (em quadrinhos, temos outros bons exemplos como Palestina – uma nação ocupada, a melhor experiência de reportagem em quadrinhos de que se tem notícia e Gen - pés descalços, mangá que revela por dentro a visão de quem sofreu as conseqüências das bombas de Hiroshima e Nagazaki – ambos em branco e preto). “Spiegelman retrata os nazistas como gatos, os judeus como ratos, os poloneses como porcos e os americanos como cães. Todos são terrivelmente humanos”- resume o trecho de uma resenha do Washington Post.
Além de provocar o leitor, desafiando-o a lançar mão de seu repertório para melhor compreender a história, Maus dialoga consigo mesmo. Isto porque o autor Art Spiegelman faz uso da metalinguagem em duas vertentes. Em uma delas, acerta as contas com o pai sovina e anticomunista, relatando sua busca por subsídios para escrever sua história. Nesses momentos se percebe o desabafo do autor (“de certo modo, ele parece a caricatura racista do judeu avarento”). Também transparecem na narrativa dilemas de menor dimensão, como a escolha do animal cujo traço representaria sua esposa francesa (!). Mas são os momentos de alternância para a segunda linha condutora, em terceira pessoa, que levam o leitor invariavelmente às lágrimas. Nela são descritos os horrores dos guetos e de Auschwitz, sem que o estilo um tanto Mickey Mouse amenize as sensações causadas pela brutalidade ensandecida de sodados alemães espatifando crianças judias contra a parede. Definitivamente chocante e de um realismo assustador. Maus faz frente a produções cinematográficas como O Pianista, pela comoção, A Vida é Bela, pela inusitada ludicidade, e A Lista de Shindler, pela estética, mas seria impossível ser realizado ou transposto para outro meio que não os quadrinhos, em seu estilo direto, contundente e sombrio. Os mais inteirados sobre o mundo das HQ’s perceberão nuances da mesma escola de Robert Crumb, papa da arte underground, inclusive por um certo ar niilista, que insiste em negar uma “moral da história”.
O uso do preto e do branco clareia o labirinto semiótico das produções artísticas, sem deixar de estabelecer conexões invisíveis com outros representantes do infinito cosmo pop. Maniqueísmo e simplificação, negação do caos e da entropia e tentativa de reordenação a duas representações primordiais e absolutas: talvez a cultura judaico-cristã tenha construído todo o fascínio que sentimos pelas produções em P&B. Ou talvez, pelo contrário, seja só o gostinho um tanto anárquico de reviver um passado de tecnologia escassa, mas pródigo em criatividade e sensibilidade, evocando a mesma sensação despertada por um vinil ou uma fita K7, por um playmobil de nossa infância, por sebos e brechós, VHS, canções de Sinatra ou trilhas de Henry Mansini. Seja o que for, as cores mais perfeitamente contrastantes e os tons resultantes de sua mescla continuam e permanecerão sempre presentes, com o mesmo impacto e surpresa de uma veraneio vascaína dobrando a esquina. ¤
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