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Marlon Brando não existe
Por Pedro Alencastro — Terça, 5 de julho de 2005
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Responda rápido. Quem são os maiores atores da história do cinema? Opiniões particulares à parte, nomes como Robert de Niro, Al Pacino, Jack Nickolson ou George C. Scott, certamente acabariam marcando presença na maioria das listas. E Marlon Brando? Bem. Para enquadrar este, uma lista dos maiores gênios contemporâneos seria mais razoável.
Se a comparação com os demais colegas de profissão fosse uma pelada ente compadres, o time adversário saíria com dez gols de vantagem e teria que suar a camisa para segurar um empate contra Marlon Brando Futebol Clube. Ainda futebolisticamente falando, arrisco dizer, sujeitando-me aos mais diversos insultos, que nem Pelé goza de tamanha superioridade – e sem essa babaquice de guardar as devidas proporções por que isso aqui não é aula de estatística. Sim. No reinado de Brando, não existem Maradonas.
Galã de futuro promissor na glamurosa Hollywood dos anos 50, Marlon Brando morreu no ano passado como uma espécie de anticristo da indústria cinematográfica e a trajetória que separa essas duas realidades distintas é repleta de viradas espetaculares. Recém saído da adolescência, o imortal Don Vito Corleone ingressou no Actors’ Studios, estrelando alguns importantes títulos da Broadway.
Quando encarou seu primeiro personagem de sucesso, Stanley Kowalski, em Um Bonde Chamado Desejo, aquele jeito “Brando de ser” começou a se manifestar. Além de detestar o papel (segundo ele “o ego de Kowalski é muito seguro”), passou a ter uma relação nada amigável com a imprensa – esta maldita ralé da qual faça parte. Mas apesar dos pesares (e não eram poucos) tudo constava ao seu favor. Talentoso, carismático e boa-pinta, definitivamente, Marlon Brando era a bola da vez.
Altos e baixos
A famosa expressão “entrar no personagem” talvez não tivesse o mesmo sentido que tem hoje não fossem os métodos de Marlon Brando. A fim de encarnar um paraplégico em Espíritos Indômitos, de 1950, o astro passou dias a fio deitado na cama de um hospital para veteranos de guerra. Há meio século, esse tipo de artifício ainda não era moda. Se Winona Ryder tivesse surrupiado uma meia dúzia de roupas nessa época, aquela desculpinha esfarrapada de “laboratório para interpretar uma cleptomaníaca” definitivamente não colaria. Com Espíritos Indômitos, Brando estreou na telona no início da década que marcou seu apogeu, seguido por sua queda, ambos de forma assustadoramente meteórica.
Quase sempre em parceria com o cineasta Elia Kazan, Brando contabilizou quatro indicações consecutivas ao Oscar: Uma Rua Chamada Pecado (1951), Viva Zapata! (1952), Julius Caesar (1953) e Sindicato dos Ladrões (1954), fazendo o boxeador Malloy. Neste último, obteve a glória máxima da Academia e o trono de personalidade mundial. Nos bastidores, seu indiscutível talento era muitas vezes confundido com insanidade. Adepto de improvisações, reza a lenda que numa das ocasiões em que contracenava com Eva Marie Saint, desligou-se por completo do diálogo para examinar as luvas que estava usando.
Estaria então Marlon Brando à frente de sua época – logo, incompreendido por todos – ou seria de fato um camarada com sério distúrbios de comportamento? A alternativa correta é: c) ambas as afirmações são verdadeiras.
Mas nada mais importava. Doendo a quem tivesse quem doer, aquele sujeito excêntrico tinha o mundo do entretenimento a seus pés.
Após a desforra com Sindicato dos Ladrões, entretanto, essa curva de ascensão começou a declinar. Garotos e Garotas (1955), The Teahouse of the August Moon (1956), Sayonara (1957), Os Deuses Vencidos (1958) e The Fugitive Kind (1959), salvo algumas raras exceções, foram uma sucessão de equívocos que o abateram como uma violenta seqüência de golpes. E num piscar de olhos, para a surpresa da platéia, Malloy foi à lona.
Retorno “ala Don Vito”
De volta ao limbo, Marlon Brando bem que tentou: arriscou-se como diretor com A Face Oculta (1961), mas o resultado não foi nada satisfatório; na refilmagem de O Grande Motim (1962), fez jus ao nome do filme, causando inúmeros problemas devido a teimosia em decorar falas; e para finalizar, se meteu numa série de fitas inexpressivas. A fase era tão ruim, que até uma parceria com Charles Chaplin, intitulada A Condessa de Hong Kong (1967), fracassou miseravelmente, algo impensável se considerarmos o peso da dupla em questão.
Quando tudo parecia perdido, eis que surge Brando, propositalmente envelhecido e com as bochechas cheias de algodão, pronto para um teste de elenco de O Poderoso Chefão (1972). À primeira vista, poucos reconheceram aquele sujeito bizarro, com voz rouca e cara de buldogue velho. Porém, ao perceber a vocação natural do sujeito para a coisa, Francis Ford Copolla, responsável por dirigir o projeto, fez uma aposta de alto risco. Escolheu uma ex-celebridade praticamente (e precocemente) em fim de carreira, para ser o protagonista do seu filme. E assim, Don Vito Corleone saiu das páginas do best-seller de Mário Puzzo para batizar milhares de pizzarias ao redor do globo terrestre.
À frente de uma das maiores obras até hoje realizadas, o trabalho de Marlon Brando, irretocável nos mínimos detalhes, virou referência para qualquer ator de peça de colégio até o próximo milênio. Não existem adjetivos para descrever sua atuação. As imagens, por si só, valem mais que mil palavras. El cape di cape serviu de inspiração para inúmeros atores e comediantes (sim, aquela manjada imitação), mas foi Robert de Niro quem assumiu a responsa de interpretar o Padrinho quando moço na seqüência O Poderoso Chefão II (1974).
Para se ter uma idéia do significado deste personagem entre a comunidade artística, com De Niro, Don Vito levou seu segundo Oscar (o de melhor ator coadjuvante). Marlon Brando foi responsável pelo primeiro careca dourado, mandando como representante para receber o prêmio uma mulher fantasiada de índia. A moça criticou a forma como os peles vermelhas eram apresentados nas telas de cinema e Brando acertou uma memorável bofetada na cara de Hollywood. Por cima da carne seca novamente, mal havia colhido os louros de Don Vito e já estrelava outro sucesso ao lado de Maria Schneider, com O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci.
Gênio ou Maluco?
A essa altura do campeonato um ícone mundial, Marlon Brando assumiu de vez sua implicância com os grandes estúdios. Exigindo cachês que tiravam o sossego de qualquer produtor, só foi dar as caras em 1978, com a cabeleira branca de Jor-El, em Superman - O Filme. Brando concordou em fazer uma ponta se recebesse U$ 4 milhões, quantia razoável nos dias de hoje, mas um absurdo na época.
Em 1979, Apocalypse Now, nova produção de Coppola, tornou-se a prova cabal de que ele havia surtado. O cara levou tão a sério o método “entrar no personagem”, que incorporou o Coronel Kurtz como se fosse realmente um ex-militar do exército americano liderando uma tribo de malucos no meio da selva. Com uns bons quilos a mais, Brando já dava indícios das peripécias que iria comandar nos bastidores.
Só admitia ser filmado nas sombras e sequer havia lido o roteiro, muito menos o livro em que a película seria baseada. Mas tudo bem. Em O Poderoso Chefão, costumava espalhar suas falas por todos os cantos como se fossem post-it’s – até na nuca dos figurantes – e deu no que deu. Dessa vez, no entanto, ele era apenas mais um elemento do caos que se formou nos bastidores, cheio de situações absurdas como furacões, ataques cardíacos, ameaças de suicídio e sacrifícios animais (seria uma rave?), isso sem contar a presença sempre bem-vinda de Robert Duvall, seu fiel companheiro de patifarias.
Na célebre tomada dos helicópteros dando rasantes ao som de A Cavalgada das Valkírias de Wagner, Duvall, usando um chapéu patético na pele do Tenente-coronel Kilgore, convidou alguns integrantes do pelotão para surfar. Detalhe: quase não haviam ondas e o lugar estava abaixo de artilharia pesada. Quando viu o companheiro sair de cena, ainda sob efeito de uma adrenalina demente (quem não lembra da pérola “Adoro o cheiro de Napalm pela manhã”?), Brando ficou espantado: " que diabos deu em você? Parecia comigo..."
Enquanto alguns gargalhavam, Copolla, no comando da barca, estava à beira de um colapso nervoso. O diretor admitiu que os minutos finais de Apocalipse Now foram filmados sem nenhum roteiro ou critério, simplesmente deixando a câmara captar os momentos tensos entre Brando e Martin Sheen. Para maiores curiosidades sobre a legítima zona que foi a produção deste clássico de guerra, recomendo (mesmo sem ter assitido) o making of O Apocalipse de um Cineasta, filmado pela patroa, Eleanore Coppola.
A Última Cartada
Na década de 80, Marlon Brando definitivamente meteu o pé no freio. Atuou no suspense A Fórmula (1980) e apenas nove anos depois reapareceu em Assassinato Sob Custódia (1989), pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Incorporou um tipo “ala Don Vito” em Um Novato na Máfia (1990), seguido de participações pífias (para o padrão Brando de qualidade, evidente) em Cristóvão Colombo - A Aventura do Descobrimento (1992), Don Juan DeMarco (1995), A Ilha do Dr. Moreau (1996), O Bravo (1997) e Loucos por Dinheiro (1998).
Com A Cartada Final, em 2001, Brando fez sua última aparição cinematográfica, ao lado de Robert de Niro e Edward Norton, um trio que tinha tudo para dar certo. Em um determinado momento, passou a ignorar por completo a autoridade do diretor Frank Oz, a quem se referia como “Miss Piggy” (porque, diabos, jamais saberemos). Ele ainda poderia ter nos desfrutado com uma agradável surpresa ao protagonizar Brando and Brando, interpretando a si próprio. Ainda assim, seria pouco para alguém do seu gabarito.
Dono de um legado que, hora confunde-se, hora entra em choque com a história do cinema, Marlon Brando fez mais do que qualquer um e deixou a impressão que poderia ter ido além. Mas morreu aos 80 anos. ¤
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- Ô, babaca! Tu não vai falar da vida pessoal do cara? - grita alguém na última fila. A resposta é não. Assim como alguns juram que Elvis está vivo, para mim, Brando nunca existiu. Ele foi virtualmente projetado pela mídia em nossas cacholas e tudo mais que disserem para vocês não passam de teorias da conspiração. Alguém dúvida?
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COMPRAS
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| DVD > DVD Último Tango Em Paris (Versão Sem Cortes) (Marlon Brando) | DVD > DVD A Cartada Final (Edward Norton, Frank Oz, Rob Hahn, Robert De Niro, Marlon Brando) | DVD > DVD Fox Classics: Viva Zapata! (Marlon Brando, Anthony Quinn) | DVD > DVD A Face Oculta (Ben Johnson, Charles Neider, Cuy Trosper, Katty Jurado, Karl Malden, Marlon Brando) | DVD > DVD O Poderoso Chefão Parte 1 - The Coppola Restoration (Al Pacino, Diane Keaton, Marlon Brando, Robert Duvall, Francis Ford Coppola, James Caan) | DVD > DVD O Poderoso Chefão (Al Pacino, Marlon Brando, Robert Duvall, James Caan) | DVD > DVD Sayonara (James Garner, Marlon Brando) | DVD > DVD Trilogia O Poderoso Chefão + Fichas de Pôquer- 4 DVDs (Al Pacino, Andy Garcia, Diane Keaton, Robert De Niro, Marlon Brando, Robert Duvall, Francis Ford Coppola) | |
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