Entre os quadros

Por Tiago Cordeiro — Sexta, 1 de julho de 2005

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Scott McCloud é deus. E se você não sabe de quem diabos estou falando, então esqueça tudo que você (pensa que) sabe de quadrinhos e leia o livro Desvendando os Quadrinhos do autor (publicado pela editora Makron Books). A partir dele, você descobre muitas das especificidades que compõem a nona arte (peraê...”nona”? Os quadrinhos surgiram antes do cinema que seria a sétima arte...Tsc, preconceito...), dentre elas a sarjeta.



A sarjeta é simplesmente aquele espaço entre os quadros. O que parece completamente desimportante é na verdade, um dos elementos mais característicos da linguagem dos quadrinhos. Outro pesquisador, Umberto Eco em seu Apocalípticos e Integrados teorizou como leitores de quadrinhos e de fotonovelas liam ou percebiam as histórias em suas mentes. Na verdade, mesmo não vendo, por exemplo, um homem correndo em toda a integridade do seu movimento para chegar ao outro extremo da parede, o leitor simplesmente "continua" os movimentos em sua mente. Eco chega a citar uma pesquisa em que leitores de fotonovela descrevem movimentos em uma página que simplesmente não foram desenhados, mas que existem em suas mentes onde o leitor participa do processo de continuidade. O continuum dos quadrinhos existe de uma forma muito diferente da do cinema.

Para Will Eisner e McCloud, o espaço nos quadrinhos é como o tempo no cinema. Dessa forma, o branco da sarjeta torna o leitor um co-artista da história definindo os rumos e, muitas vezes, imaginando movimentos totalmente originais dos que realmente aparecem ali.



Ao contrário do que McCloud alega, a "sarjeta" não se faz presente exclusivamente nos quadrinhos. A "sarjeta cinematográfica" ocorre diversas vezes quando vemos em filmes uma tela preta ou algo semelhante dar conta de uma cena que o diretor opta por não demonstrar literalmente. Um carro surge a meio metro da parede em alta velocidade com uma mulher no volante e sem cinto. A tela fica escura e ouvimos o barulho da batida. Não vimos nada, mas sabemos que o carro bateu e que a mulher, muito provavelmente, está morta. Recurso usado em muitos filmes.

Cada vez mais cineastas...Os bons cineastas se caracterizam pela forma como abrem mão de cenas óbvias para convidar o leitor a participar da montagem cinematográfica. Para que mostrar os bandidos atirando naquela mulher literalmente, quando você pode simplesmente mostrar dois homens mal-encarados tirando uma arma da cintura, olhando para a mulher e um corte mostrando a mulher em um caixão? Simples, rápido, limpo e objetivo.

Independentemente se existe com o nome de sarjeta ou não, como o próprio McCloud genialmente propõe, cada vez mais artistas optam por essa sinergia entre artista e espectador. Entre os quadros do cinema ou das páginas de um gibi, o desafio está lançado. Para os dois lados.




COMPRAS
Livro > Desvendando os Quadrinhos: Edição Histórica 10 Anos (Scott Mccloud)
Livro > Mesmo Delivery (Rafael Grampá)
Livro > Almanaque dos Quadrinhos (Flavio Braga)
Livro > Quadrinhos e Arte Sequencial: Compreensão e Pratic (Will Eisner)
Livro > One Piece - 65 (Eiichiro Oda)
Livro > Japonês em Quadrinhos: Caderno de Exercícios (Marc Bernabe)
Livro > Quadrinho a Quadrinho (Mauricio De Sousa)
DVD > DVD Elektra + Revista em Quadrinhos Elektra (Jennifer Garner)

 

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