Eles já estão aqui...
Medo. Esse é fio invisível que liga
H.G. Wells,
Orson Wells e
Steven Spielberg à
Guerra dos Mundos (
War of the Worlds), filme que estréia nessa sexta em todo o território nacional.
Muito antes de Spielberg e de seus filmes alienígenas, o mundo (ou uma parcela dele) se assombrou com a história contada no livro
Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. Escrito no início do século XIX foi usado em
1938 por Orson Welles (ele mesmo o gênio de
Cidadão Kane) em um programa de rádio dos EUA.
Orson Welles aproveitou o Dia das Bruxas, e leu o livro em um programa americano. A narração da invasão alienígena de Wells foi tão impactante e causou tal pânico na população, que pessoas fugiram desesperadas, algumas inclusive suicidaram-se.
Ninguém questionou a veracidade dos fatos tamanha a credibilidade do rádio na época. Não esqueça que nessa época o rádio era um dos principais veículos de comunicação e um dos mais confiáveis também. A sensação da maioria da população era de que, o que fosse divulgado em uma rádio era a verdade absoluta.
O livro de Wells é uma alegoria, uma metáfora. Como se fosse uma
Caverna de Platão ao avesso, o livro prende pelo suspense mas com o intuito de despertar o leitor para os perigos do colonialismo. Os marcianos não são ninguém mais, ninguém menos do que os colonizadores europeus. Onde Platão vê sombras, Wells vê marcianos.
Se para H.G. Wells foi uma sátira política, para Orson Welles foi uma forma de abalar a confiabilidade radiofônica em 1938 e para Spielberg uma forma de embolsar muitas verdinhas.
Independence Day II?

Esta é a segunda adaptação do livro de Wells para o cinema e o
blockbuster de Spilberg, apesar de explorar um tema tão batido (vide
Independence Day, Sinais, ET, MIB e todos os outros filmes de
ets que saíram nos últimos dez anos...), tem tudo para ser um sucesso, afinal conta com
Tom Cruise e todos os recursos de uma megaprodução.
Ray Ferrier (Tom Cruise) é um homem que vive sozinho, trabalha em um porto e tem dois filhos que moram com sua ex-mulher. As crianças-problema devem passar um final de semana com o pai-problema para que a mãe viaje com seu namorado.
É bom dizer que as crianças beiram o insuportável. O adolescente Robbie Ferrier (
Justin Chatwin) não aceita seu pai, o contraria em praticamente todos os momentos e ainda o desafia. A ‘balança’ da relação é a precoce Rachel Ferrier (
Dakota Fanning) que como o próprio Ray fala, parece ser sua mãe. Madura demais para sua idade, claustrofóbica e politicamente correta demais para uma criança, ela é uma personagem que vai se moldando à situação: às vezes é um doce, às vezes é histérica.
O raio cai 26 vezes no mesmo lugar

Apesar das diferenças tudo corre relativamente bem até que se inicia uma tempestade magnética. Raios e mais raios caindo no mesmo lugar e de repente tudo pára. De carros a relógios, nada funciona, tv, rádio, luz, geladeira, nada. Em vários pontos da cidade crateras começam a se abrir , destruindo prédios, avenidas, etc.
Ray, assim como 99 % da população, desafia os perigos em nome de sua curiosidade. Mesmo com uma situação de caos totalmente nova ninguém foge. O gosto pela tragédia humana é retratado de forma sutil. Todos sempre querem ver de perto o que acontece. E assim começa uma invasão alienígena nada pacífica, uma vez que as maquinas-ets (os Tripods) destroem qualquer coisa que esteja em sua mira.
Onde está o solenóide?

Com todos os carros parados, Ray consegue roubar o único que fora consertado (inexplicavelmente...) e foge com seus filhos, os três em estado de choque. Eles não vão muito longe, e a partir de então presenciamos o caos e desespero, não só deles mas de toda a população que tenta de tudo para fugir. E é isso, não espere nada a mais.
É um filme de poucos atores
Preste atenção no fazendeiro que acolhe Ray e sua filha, pois alguns dos maiores momentos de tensão acontecem quando ele resolve que deve sozinho, ou melhor, com Ray, derrotar os alienígenas. E tente não esquecer de respirar.
A megaprodução consegue tirar o fôlego e deixar muitos espectadores com medo. As locações, os efeitos especiais, o som, os alienígenas horrorosos, e o perigo iminente aliado aos problemas familiares são uma espécie de bomba-relógio prestes a explodir. Imagine tentar mudar a idéia de um filho cabeça dura em meio a um ataque alienígena...
*Diferente da postura compatriota de outros filmes do gênero, onde os mocinhos saem com bandeira em punho lutando para salvarem seu pais, aqui nos vemos dentro do caos como pessoas comuns que estavam até pouco tempo levando vidas normais Essa olhar ‘realista’ é um dos méritos de Spielberg.
*As transformações dos personagens ao longo da narrativa também são consideráveis. No início Ray é o mais improvável dos pais. Mas, gradativamente, ele vai se transformando numa espécie de pai herói, defensor de suas crias. Crias essas que não deixam de ser intragáveis, mas que ao longo do filme vão apresentando algumas qualidades.
Mas acabou? Assim?

Tão inexplicável quanto o começo é o final. A impressão que se tem é que Spielberg usou todo o seu entusiasmo até os últimos quinze minutos, quando cansou do filme e o finalizou de qualquer jeito.
Chega a ser tão previsível que você pensa, ‘não pode terminar assim’: mas termina. Assim como no livro: sem nenhuma explicação plausível. ¤