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O Hugo que existe em você
Por Rafael Lima — Terça, 28 de junho de 2005
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Laerte descreve Hugo da seguinte maneira: "é um exemplar da raça humana, não muito exemplar. Os grandes temas, como vida, morte, sexo, o enchem de dúvidas; os pequenos, como vida, morte e sexo, também. Tem um carro, um computador e uma namorada chamada Beth, estudante de psicologia". O final ecoa Jorge Ben, "tenho um fusca e um violão, sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa". É por aí, a música sempre esteve presente nos quadrinhos do Laerte. Hugo é "alguém como você e eu, ou um pouco menos...", como se pode comprovar no álbum Hugo para Principiantes, da editora Devir.
Ou não. A infiltração do absurdo no cotidiano sempre fez parte da temática do Laerte: uma festa freqüentada por bruxas e fadas, gente que cria asas, alquimistas, um branco que se descobre negro depois de adulto. A diferença é que, se nos Piratas do Tietê ou Overman o elemento de fantasia (piratas, super-heróis) estava tão presente a ponto de mascarar o improvável, em Hugo não há esse pó de pirlimpimpim; o fogo tem que ser criado a partir de folhas secas e gravetos. Porque o Hugo foi criado para ser um cara mediano, morador de Condomínio, classe média total. Então tudo que acontece com ele é mais exagerado e, ao mesmo tempo, mais verossímil – pela identificação que cria com o leitor, sem sombra de dúvida, uma pessoa comum: quer coisa mais comum do que sujeito que não perde tira de jornal?
Nessa brincadeira, Laerte tripudia, com sua capacidade de flexionar um personagem, sem no entanto fazê-lo perder a identidade. Hugo se funde a um vírus de computador e vira monstro gigante. Busca refúgio da civilização indo morar no mato. Torna-se celebridade ao servir de modelo fotográfico. Traveste-se de mulher para fugir dos capangas da máfia. Vicia-se em sexo virtual. A escalada do absurdo é de rolar de rir, mas o truque não está apenas em superar as expectativas mais bizarras do leitor; elas apenas são sutilmente contornadas, em saídas de singeleza notável. Às vezes, a situação se resolve com poesia e síntese dignas de um cartum do Quino ou Borjalo.
Dentre os ganchos utilizados, sobressai-se com vantagem aquele no qual Hugo desenvolve uma intensa relação de amor e ódio com seu computador. No fundo, um reflexo da própria relação tumultuada de Laerte com o dele, iniciada há menos de 10 anos. Dá para notar que quando Hugo surta e sai destruindo com um martelo todo o hardware e back-ups que possui, foi Laerte quem perdeu arquivos de memória preciosos – é como se ele desse uma piscadela para o leitor (que, por sua vez, também deve ter passado por seus maus momentos diante de um computador), reforçasse laços de intimidade. Com olho clínico, também dá para sacar aqui e ali uma ou outra obsessão de Laerte, por exemplo: modelos (explorada na série em que Hugo vira celebridade), Gisele Bündchen (recorrentemente citada, até aparecendo como figurante numa cena). As tiras são de cerca de 1998 a 2000, o que pode fornecer pistas para quem queira procurar referências.
Talvez a série mais provocante seja aquela em que Hugo decide provocar propositalmente um defeito em seu computador, ao notar que o suporte sempre mandava uma funcionária bonitinha para consertar. Só que mandam um homem, e Hugo acaba indo para a cama com ele, porque "é difícil se reprogramar rápido" – e o mais genial: acaba vestindo a carapuça homo (com um pouco menos de seriedade, esta situação é explorada também quando Hugo se veste de mulher para fugir da máfia e acaba se empolgando com os vestidos, maquiagem, perucas). Ler as tiras hoje é particularmente revelador, após a entrevista para a Caros Amigos, onde Laerte contou ser bissexual, pela carga de confissão e autocrítica que elas carregam – numa delas, vale-se de metalinguagem para recusar certo tipo de piada óbvia. Curioso é que, olhando em retrospecto, nota-se que a inversão sexual sempre tenha sido explorada em seu trabalho: na Insustentável Leveza do Ser, uma mulher se revela homem; Overman roda bolsinha para pagar uma dívida de videogame e casa com um ricaço, assumindo papel de mulher; o Laertón de Los 3 Amigos era tido como bicha pelos bandoleiros e assim por diante.
Com relação ao traço, repito o que disse sobre Overman – Laerte não está “simplificando em função da velocidade” ou ficando “mais estilizado”; está sendo sintético ao nível do minimalismo, limando qualquer redundância, até no número de quadros da tira, onde o espaço é restrito – e adiciono: o estilo está ainda mais preciso, certamente afiado pelo prazo e precisando de cada vez menos linhas para dizer o que quer, ao contrário, por exemplo, de um Scott Adams que, se não escreve que o Dilbert está segurando um mouse, você não sabe se é mouse, celular ou controle remoto – porque ele desenha tudo igual.
Hugo para Principiantes é imperdível, um dos melhores lançamentos do ano.
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